Xeque-mate

xeque mate

Ele chegou a casa mais soturno que a própria noite. Mandou a mala para o chão e deixou-se cair no sofá, como se o mundo inteiro lhe pesasse nos ombros. Pousei o livro que estava a ler e sentei-me junto dele, adivinhando a tormenta no seu interior, apenas pelo olhar carregado. Não olhou para mim, nem disse nada, e limitei-me a aguardar pelo desabafo. Fixou os olhos na televisão muda, parecendo extremamente compenetrado no documentário sobre a apanha de salmão no Alasca, até que me puxou para o pé dele, aninhando-me no seu colo.
– Conta.
– Morreu-me um utente. – disse cabisbaixo, e detectei o problema na simples expressão “morreu-me”. Era um péssimo sinal. Implicava posse. Laços. Proximidade. Ele nunca o dizia daquela forma.
– Quem?
– Fiz tudo o que podia. – continuou, como se não me tivesse ouvido. – Tudo… – suspirou. – Mais de meia hora a tentar reanimá-lo, disseram-me, porque a mim, pareceram-me apenas uns míseros minutos. Foi até já não sentir os braços e o peito e as costas… Forçaram-me a parar… Porque eu só ia parar, quando ele pegasse. Como aconteceu da primeira vez. E ele pegou! Aí, o sacana pegou. Mas agora… – vi-o engolir a dor, em seco. – Desistiu. Fartou-se. Ou esqueceu-se, sei lá… Esqueceu como é que se voltava à vida.
Olhei para ele e vi os olhos brilharem mais do que era habitual. Até que ele os piscou e voltou a engolir em seco para voltar de novo a focar-se no salmão do Alasca.
– Quem foi? – perguntei, a medo.
– O Alfredo. O dos cavalos, e do xadrez, e dos charutos…
Por algum motivo, ele fala-me nas pessoas como se eu não tivesse qualquer obrigação de me lembrar delas. Mas eu lembro-me. Sempre. E talvez tenha sido por isso que também senti um aperto desconfortável no peito quando soube quem morrera, desta vez.
– E como se não bastasse, o filho dele, aquele que só sabe aparecer para pedir dinheiro e fazer o velho assinar papéis, ficou muito indignado com a morte do pai. Um pai que ele mal sabia do que padecia! Para quem ele se estava pouco cagando! Nunca aquele tipo ligou para saber do estado de saúde do velhote. Nunca o foram buscar pelo Natal, nunca o visitaram nos anos, no dia dos avós, na Páscoa… Nada! Nem telefonavam! E agora vai apurar responsabilidades… um cabrão arrogante daqueles! O choque pela perda do pai foi tão grande, que a primeira coisa em que ele pensou foi em processar o lar, mesmo antes de perguntar como foram os últimos dias do homem.
– Oh, já sabes como funciona… Se atribuírem culpas a todos os outros, conseguem escamotear a sua.

– Sabes as vezes que ouvi o velho Alfredo chorar no quarto? Fechava-se lá, para se esconder. Para sofrer à vontade. Porque como ele dizia, “homens não choram”. A não ser quando a família não quer saber deles, e os abandona, no fim da vida. E é isso que me custa mais. Que apesar de tudo, nos últimos tempos, ele continuasse a ter momentos de lucidez que o fizessem perceber isso.
Sabendo que não havia nada que pudesse dizer para apaziguar aquela raiva que ele precisava extravasar, limitei-me ao silêncio, sentindo também eu a sua perda. Só vira o Sr. Alfredo uma vez, numa tarde de Verão. Eles estavam os dois no jardim, sentados à sombra de uma árvore com o tabuleiro de xadrez à frente. Quando me aproximei, ele olhou-me de alto a baixo e piscou o olho ao adversário, num gesto de aprovação. “Linda cachopa, senhor enfermeiro! Faz-me lembrar a minha Lucinda, que Deus a tenha em paz e descanso… Ela também usava assim uns vestidinhos com flores, quando era nova. Só que ao contrário deste, tapavam os joelhos.” – observou, sagazmente, arrancando-me um riso abafado ao mesmo tempo que senti as bochechas aquecerem e uma mão puxar-me para o banco corrido de madeira. Bastaram-me alguns minutos sentada junto deles para rapidamente perceber a cumplicidade que os unia. O respeito mútuo, a informalidade no trato, o uso de palavrões depois de um xeque-mate ao mestre, seguido de um interminável pedido de desculpas por parte deste, para quem o uso de calão era tão natural quanto respirar, mas imperdoável junto a uma senhora. “Eu é que o ensinei a jogar xadrez, e agora é com estas cabazadas que ele me retribui”, refilou apesar do ténue sorriso e laivo de orgulho no olhar.

Quando nos últimos dias de vida, se começou a esquecer de si próprio, a simples tarefa de o alimentar começou a tornar-se impossível. Amuava, não queria tomar refeições no refeitório e recusava-se a abrir a boca até para tomar a medicação. O único que lhe conseguia dar a volta era o seu pupilo do xadrez, que para isso usava os métodos menos ortodoxos possíveis. “Sr Alfredo, coma lá a sopa toda, que a seguir tenho uma surpresa para si”, garantia-lhe com secretismo. “É aquilo que eu estou a pensar?”, perguntava-lhe o velho, com um interesse renovado. “É. Já combinei com elas. Uma loira e outra morena, como o senhor pediu, e estão à sua espera no quarto”, e para espanto de todos que já tinham tentado antes, o Sr. Alfredo comia a sopa e tomava a medicação em menos de nada, mesmo que depois já não se lembrasse das promessas de sexo escaldante com uma loira e uma morena. Mas nem todas as promessas de diversão ficavam sem efeito. Após dois anos a lamentar-se das saudades que tinha de fumar um bom charuto cubano, Alfredo matou o vício na noite em que fez 85 anos. Foram “só uns bafitos” às escondidas, mas que lhe deram mais uns dois anos de vida, em alegria e prazer. Bendita a hora em que o enfermeiro o convidara para dar uma volta até ao pontão, naquele aniversário em que todos se esqueceram que ele existia, tal como em todos os outros dias do ano. Sentira-se novamente um adolescente rebelde a fumar às escondidas do pai. “Anda um homem a trabalhar a vida inteira, para agora no fim, ter que se esconder para dar uns bafos! Aquele lar está impregnado de ditadores!”.

Numa área em que as pessoas quase desaparecem tão depressa quanto o tempo que demoraram a fixar o nosso nome, o velho Alfredo era um resistente. Um osso duro de roer que fora parar ao lar cedo demais, apenas porque o filho lhe quisera vender a casa, e o terreno, com a horta e os cavalos. O mesmo filho que queria agora apurar responsabilidades pela morte daquele a quem negara a vida, mesmo antes desta se expirar, aos 88 anos. Mas aquele que lhe tentara apaziguar as dores e a solidão, estava ali, ao meu lado, afogado em mágoa e revolta, despojado da capa dura que usava todos os dias para se proteger da realidade crua e áspera à qual os comuns mortais tentam fugir, calando o choro ao qual nunca permitira dar voz, porque como dizia o velho Alfredo, “homens não choram”. A não ser quando partem os que de alguma forma deixaram marcas na nossa vida, e nos deixaram um pouco deles, mais que não seja na memória.
De facto, não morrera um utente. “Morrera-lhe” o Alfredo. E não havia outra maneira de o dizer.

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