Viver como se fosse o último mergulho

20 de junho2017

Passei a manhã com eles na praia. Brinquei com eles dentro de água e contei-lhes a história dos Sete Cabritinhos quando se sentaram em cima das minhas pernas, à beira-mar. Corri atrás de um chapéu de sol em fuga, espetei o pé numa pedra e ainda assim eles chamaram-me “Mãe Sonic”. Arranquei-lhes gargalhadas à frente do espelho, quando lhes pus o cabelo em pé com a espuma do champô, ao dar-lhes banho. Encostei-me à bancada da cozinha, ainda de sal no corpo, biquini vestido e pés sujos de areia, a olhá-los enquanto almoçavam, moídos e cansados e pele já castanha, ainda o Verão não começou.
Este relato não é de alheamento ou indiferença pelo que se está a passar no país. Muito pelo contrário. Desde ontem que os rostos dos que desapareceram para sempre no incêndio mais mortal dos últimos tempos não me saem da cabeça. Gente como nós. Famílias como a nossa. Crianças como as minhas. Sonhos, esperanças, projectos, amores, amizades, histórias, vidas inteiras por viver… interrompidas a meio do caminho. Não consigo mais ler notícias nem ver telejornais. Não, não é assim que costumo reagir. Não me fecho, não me escondo, não ignoro os problemas, nem a realidade, nem os dramas que precisam ser escutados, esmiuçados e debatidos. Mas porra… é como se nos últimos tempos a caixa das desgraças tivesse sido aberta ao mundo. Como se a tragédia e horror ganhassem uma banalidade assustadora a cada dia que passa. E é por isso que preciso abraçar muito estes que aqui tenho comigo. Dizer que os amo muito. Dizer-lhes que a vida pode ser maravilhosa. Contar-lhes a história dos Sete Cabritinhos mil vezes, se eles quiserem. Deixá-los dar os “últimos” mergulhos quinhentas vezes antes de sairmos da praia (até porque toda a gente sabe que são os melhores), entrar no carro a pingar, chegar esganado a casa e atacar todas as porcarias que se encontram no frigorífico antes do almoço estar feito.
Ultimamente a vida tem-me mostrado o quão é caprichosa e nos pode puxar o tapete sem estarmos à espera. Nada é certo. Nada é garantido. Nada é eterno. Que se viva então cada segundo, como se fosse o último mergulho. Não se deixa nada por fazer. Nada por dizer. Nada por realizar. Ninguém por amar. Nenhuma aventura por viver. E sim, podemos começar pela sobremesa se estivermos fartos de esperar pelo almoço. Temos obrigação de o fazer por todos aqueles que já não podem.

Agora vou sufocá-los com beijos e perguntar-lhes se querem comer uma lata de leite condensado à colher ao lanche!
😏
(mentira. esqueci-me de comprar leite condensado)

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