“Vamos um bocadinho à praia?”

vamos um bocadinho a praia

Ocorreu em Maio, quando o calor começou a dar o ar da sua graça. Bastou-me perguntar-lhes “vamos um bocadinho à praia?”, para que começassem aos saltos na cozinha e se esquecessem dos cereais a amolecerem no leite. Dava-se assim início a uma espiral frenética de questões que nunca mais acabavam, e cujo mentor é quase sempre o meu morgado…

Primeiro iniciou-se o questionário básico sobre o que incluía a ida à praia, não fosse ser apenas um breve “molha pés”:
– Mas podemos despir-nos todos?
– Sim…
– E molhar o corpo todo?
– Claro.
– E a cabeça?
– Sim!
– Tens a certeza?
– Sim!!!

Depois, as questões referentes à logística:
– Podemos levar as pás e os baldinhos?
– Sim.
– E braçadeiras?
– Se as encontrarmos…
– E as bóias?
– Acho que chegam as braçadeiras…
– E o barco a remos?
Esta última não lhe respondi. Sei reconhecer quando um miúdo de cinco anos está a gozar comigo.

Depois de respostas satisfatórias a todas as questões, pode finalmente extravasar a alegria com uma dança comemorativa da abertura da época balnear e estival, em frente ao frigorífico.

– Vamos à praia, já é Verão! Vamos à praia, já é Verão!
– Hum… Ainda não é Verão. – avisei. Não me ligaram nenhuma. Isso era um pormenor que não interessava a ninguém na faixa etária dos quatro, cinco anos. Óbvio. Mas o pior não foi pensarem que já era Verão, e sim o descalabro de conjecturas do arco da velha que se gerou em torno disso e às quais comecei a perder o controlo.

– Já sei! Se vamos à praia, e estamos no Verão, isso quer dizer que vamos de férias! Vamos de férias! Vamos de férias! – saltitava ele, ora num pé, ora no outro.
– Não… Não vamos de férias.
– Vamos para a casa da piscina? – perguntou, como se não tivesse ouvido nada do que eu acabara de dizer. – Opá, tenho tantas saudades da casa da piscina! Espera aí… Eu faço anos no Verão… Então… se já é Verão… Estou quase a fazer anos!!! Estou quase a fazer anos! Estou quase a fazer anos! Mãe, tu não te esqueças! Quero fazer anos no parque dos piratas e quero o t-rex que abre e fecha a boca e quero convidar os meus amigos todos…
– Tu só fazes anos em Setembro! Falta muito tempo!
– Quantos dias?
Suspirei, com os olhos erguidos aos céus.
– Mais do que tu sabes contar.
– Hum… É mais de quarenta?
– É.
– Ah. Só sei contar até quarenta. Que pena…
– Tens tempo para aprender a contar até mais. Tanto, quanto para esperares pelos teus anos. Hoje, é só dia de ir à praia. Só.
E nisto, arregalou os olhos, como se o tivesse lembrado de algo já esquecido.
Podemos-levar-o-Baltazar– Posso levar o meu barco da polícia? Aquele da Playmobil que o tio me ofereceu e que eu brinco no banho? E pãezinhos com chocolate? Podes fazer? E podemos levar o Baltazar? Oh, por favor, diz que sim!
Olhei para o cão, que deitado no chão abanava a cauda, como que à espera de uma resposta afirmativa.
Ele e a irmã ajoelharam-se diante do cão, abraçaram-se ao seu pescoço e lançaram-me um olhar de súplica canina. Os três. Como se fossem um trio de desgraçadinhos.
– Por favooooor… – pediram em coro, com um sobrolho tão descaído como o de Dom- Baltazar.
Estava tramada. A pressão da “brigada dos olhos fofinhos de cão abandonado” era demais para mim.
Há quanto tempo andariam a treinar aquilo?

(Continua…)

 

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