“Vamos um bocadinho à praia?” – parte 2

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O calor apertava naquele início de tarde.
No banco de trás, duas crianças, quatro toalhas de praia, um chapéu de sol e dois baldinhos da Barbie e do Faísca Mcqueen. Na minha mochila, pãezinhos com chocolate (tal como pedido), bolachas, fruta, pacotinhos de leite e água. Ao volante, o Indy desafinava gritantemente o refrão de Start me up dos Rolling Stones, enquanto procurava os óculos de sol na gaveta do tablier. E lá atrás, sentado no porta bagagens, com a boca aberta e a língua de fora, arfando de calor ou entusiasmo e emitindo o que parecia o som de uma locomotiva a vapor, um labrador atento a tudo o que se passava na rua.
Não sei porquê, mas geralmente, ainda nós não vamos a meio do caminho, e já me estão a pedir comida. Acho que lhes dá um enorme gozo fazer pic-nics no carro, o que também se estende até ao pai, que vai solicitando bolachas para a boca, golos de iogurte, aquele donut o qual não consegue guardar para a praia, e entre alimentar o condutor e estar sempre a virar-me para trás para dar e receber pacotes de leite vazios ou o resto daquele pão que não se quer mais, torno-me na assistente de bordo mais atarefada de sempre, e com menos mobilidade nos pés que têm de partilhar o cubículo com a mochila da comida. Claro, que depois da barriga cheia, e de uns cinco minutos a ver a paisagem pelo vidro do carro, começa a cantilena do costume:
– Falta muito?
– Um bocado.
– Já chegámos?
– Não!
– O mar é já ali à frente?
– Mais um bocadinho…
– Acho que já estou a ver a praia!
– Aquilo é o horizonte. Não é a praia, ainda.
– O que é o horizonte?
– É aquela linha em que o céu e a terra se tocam… – expliquei, quase poeticamente.
– Não vejo linha nenhuma.
Claro.
– É como se fosse o fim do caminho. – simplifiquei.
– Ah! Então é a praia! Vês? Tinha razão!

Felizmente, a praia tinha pouca gente. Caso contrário, teríamos de voltar para trás com duas crianças ansiosas por construir castelos de areia e um cão doente por água, que assim que avistou o mar começou a “chiar” desesperadamente dentro do carro.
Tivemos que procurar um lugar estratégico que não tivesse vizinhança num raio de cinquenta metros – não queríamos sujeitar ninguém às sacudidelas do nosso cão quando sai da água, nem que ele se fosse esfregar na toalha alheia, como fez uma vez com um camone que começou a praguejar num dialecto que não conhecíamos mas cuja irritação era suficientemente perceptível.

Miúdos e Baltazar praiaMal as t-shirts saltaram pela cabeça e a trela foi retirada, foi a loucura. Se tivesse que ilustrar a alegria, seria aquilo. O meu cão e os meus filhos a saltarem para dentro de água, contentes da vida por finalmente poderem tomar um banho de mar. Por poderem “molhar o corpo todo”, como eles diziam, e o mais divertido de tudo, fazerem-no com o seu amigo de quatro patas. “Olhem para mim a nadar como o Baltazar!” – gritavam, só com a cabeça de fora. Ainda bem que tinha cedido aos seus olhinhos lamurientos de cães abandonados, senão, não teria o prazer de assistir àquilo.

Entretanto, reparei que aquela alegria toda não nos tinha só a nós como espectadores. Ao fundo, sentada numa cadeira de praia, com umPraia Baltas e miúdos cabelo armado em laca (que certamente não iria ser desmanchado num mergulho de mar) e uns óculos de Amália Rodrigues a taparem-lhe o olhar indiscreto, uma senhora assistia a tudo, visivelmente horrorizada. De vez em quando via-a abanar a cabeça, em desaprovação e a comentar algo com o marido que se recusava a tirar os olhos do jornal para lhe dar atenção. Provavelmente censuraria a presença de um cão na praia, apesar de ainda despovoada de banhista naquela tarde quente de Maio, a um dia de semana. Ou talvez achasse mesmo inapropriado ou pouco sadio as crianças brincarem com o animal, dentro de água, censurando aquele momento de puro júbilo infantil com o seu grande lápis azul da virtude. Onde é que já se viu, deixar os filhos brincarem assim na água, com um cão, daquele tamanho ainda por cima!

Baltazar praia miúdosApesar de não perceber o motivo, não deixei de me divertir com a forma como lhe causávamos tanta indignação. Só a via a espreitar-nos, ora por cima da sua revista de mexericos, ora por cima dos óculos de sol. Ora arqueava o sobrolho, ora o franzia, ora dava mais toques discretos no braço do marido que continuava mais interessado nas notícias do jornal do que nas dela.
Imaginei o que diria face às migalhas espalhadas nos bancos da nossa carrinha de família que faz pic-nics no carro e aos pêlos de cão nos estofos, e que teria uma síncope se visse a areia que deixaríamos espalhada pelo chão, depois de chegarmos os cinco a casa. E concluiria mesmo que eu era uma desmazelada, se soubesse das vezes que me esqueço de estender logo as toalhas, e que depois do duche tomado, iríamos todos “abancar” no sofá a ver o “Gru – O Maldisposto 2”, enquanto jantávamos douradinhos em tabuleiros individuais. Não é sempre, minha senhora, mas será hoje. Porque sim! Porque estamos juntos, porque há tempo, porque não podemos continuar a adiar a sessão de cinema, porque os douradinhos sabem bem e porque a vida é para ser vivida assim, sempre que se possa!


Salvador e Baltazar praiaNão me cheira que a fosse convencer de alguma forma, mas que importa isso? Os meus filhos continuam a gargalhar felizes enquanto fazem cabelos de algas para pôr na cabeça do Dom Baltazar (que desta vez não salpicou ninguém nem se refastelou na toalha de um camone), o homem que tenho ao meu lado, não deixa de me olhar nem de ouvir cada palavra que lhe digo, mesmo que sejam as maiores tolices do mundo, e o fim de tarde naquele pedacinho paradisíaco da linha do horizonte, onde o céu e o mar se tocam, é sem dúvida a melhor forma de terminar o dia.

 

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