Uma casa portuguesa

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10 de Junho
Somos muitos à mesa, ou não fosse esta uma casa portuguesa. Há cheiro a sardinha assada e a salada de pimento com orégãos. Há pão a ansiar por queijo, azeitonas e tinto. Há um jarro de sangria fresquinha e um arroz doce cremoso adornado com canela, feito com amor pela minha avó – já vos disse que é o melhor do mundo? O almoço nunca é silencioso. São muitas as vozes, as conversas, os gritos, as gargalhadas, o chilrear dos canários na gaiola que quanto mais nos ouvem mais alto cantam. Tão depressa se discute política como o preço do peixe ou das cerejas na mercearia da esquina. Na rua, as tertúlias e o arraial já começam a ganhar forma para as festas do padroeiro, São Pedro, e ressoam guitarras portuguesas e um fado vadio numa voz arrastada impregnada de portugalidade, já não sei se nos altifalantes da rua se no rádio da cozinha.
Quando as festas tiverem início, a casa encher-se-á de vizinhos, amigos e até de rostos desconhecidos que nunca vimos na vida mas que convidaremos a sentar à mesa – como o grupo de japoneses do ano passado, que felizes da vida comeram as sardinhas assadas do meu pai e tiraram mil fotografias ao lado do São Pedro da minha mãe, como se de uma estrela de rock se tratasse.
Isto, somos nós. Todos nós…

A vida tem-me ensinado a amar as minhas raízes e a defendê-las com convicção. Tem-me mostrado o quão preciosa é a nossa História, a nossa cultura, a nossa essência, e que sem elas somos meros seres sem identidade e sem alma, gaiatos arrogantes que desprezam a preciosa herança dos seus avós, desvalorizando os alicerces sobre os quais nasceram. A vida tem-me ensinado a respeitar as tradições do meu povo, a amar os diferentes sotaques que oiço de norte a sul, a compreender as nossas crenças, o nosso folclore, a nossa musicalidade, a apreciar os sabores da terra e do nosso mar. E é para que esse amor e orgulho não morram nunca, que os tento transmitir todos os dias aos meus filhos:

– Provem. É muito bom. – digo ao colocar-lhes um pastel de bacalhau no prato.
– O que é isto?
– É uma iguaria típica portuguesa.
– O que é que isso quer dizer?
– Quer dizer que é uma comida que todos os portugueses conhecem. E que se faz em todas as casas e que quase toda a gente gosta…
– Ah! Já sei. É uma comida que vive em nós, não é mãe?
A simplicidade e lucidez da resposta atingiu-me em cheio no coração, e olho-os tão derretida como surpreendida por eles já terem tanto dentro deles.
– É. É isso mesmo. É uma comida que vive em nós. – afirmo com um sorriso ao mesmo tempo que sinto a pele eriçar-se com a voz da Amália a entoar o “Fado Português” na cozinha da minha mãe.

Feliz dia, Portugal. Que nunca Te esqueças. Nem o que vive em Ti.

10 de junho

 

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