“Um dia de semana à tarde”

Outono em Portugal

Eles apertam-me as mãos com força e saltitam de entusiasmo, fazendo as pás e as formas chocalharem dentro dos baldinhos da praia. Falam ao mesmo tempo, atropelam-se nas palavras, mas consigo ouvir o que cada um tem para me dizer. À nossa frente, e em êxtase com a perspectiva de um mergulho, Dom Baltazar puxa a trela com o vigor de um corcel com ânsias de liberdade. E derrapa com as patas na terra enquanto puxa para um lado e o dono o puxa para outro. E os miúdos correm para o abraçar, garantindo-lhe que não tarda irão os três brincar. E depois reclamam connosco pelo facto de não poderem ir já para a areia e ainda termos que passar pela esplanada. E depois peço-lhes que me deixem pelo menos beber um café, assim como o pai que trabalhou a noite toda mas abdicou de uma sesta para estar ali, com eles. Com todos nós. Até com o corcel marinho espalha brasas.Outono em Port
O reboliço acompanha-nos, quase sempre, onde quer que vamos. Eu bem tento que sejamos discretos, silenciosos, um exemplo de tranquilidade tibetana, uma melodia harmoniosa de Vivaldi ao som de violinos italianos. Mas na realidade, somos a fanfarra dos bombeiros, a Charanga Habanera, um trio elétrico do carnaval da Baía.
As pessoas que gozam do sossego ímpar que há numa esplanada de praia, num dia de semana à tarde, são subitamente atraídas para o corso alegórico que é a nossa família e eu sinto necessidade de carregar um cartaz a dizer: “Não tema. Seremos rápidos.” Contudo, para meu descanso, há quem sorria. Os estranhos, ali sentados, a quem fomos roubar o silêncio. Sorriem ao trapalhão do meu cão, aos barulhentos dos meus filhos, e sorriem-me, a mim, que encolho os ombros como que num pedido de desculpas pela fanfarra, da qual até me orgulho, só por ser minha. E eis que surge, diante da nossa mesa, uma senhora de avental axadrezado e cabelo branco preso num carrapito. Verifico se o Dom Baltazar permanece deitado e quieto, lutando contra o chamamento do mar, e aguardo por um olhar de soslaio ao canídeo, uma cara fechada de desaprovação ou um “boa tarde” contrariado. Não por nós, mas por ele, cuja presença, apesar de já permitida por lei em espaços abertos, nem sempre é bem recebida. Mas então, ela sorri. Um sorriso rasgado, alegre e quente, o qual retribuo automaticamente.
Anui com a cabeça quando lhe pedimos dois cafés e depois pergunta: “Quer que traga água para o cãozinho?”. Admirada com o gesto, agradeço e aceito, apesar de suspeitar que a única água que ele quer sentir na boca, é a salgada.
“Nesta altura do ano aparecem muitos clientes com cães, sabe? Como já não há banhistas, eles aproveitam. E tenho sempre aqui uma tacinha de água para oferecer a todos eles.”, afirma, enquanto lhe coloca o bebedouro à frente. O gesto é simples. Tão amável e tão humano, e fico a pensar porque me surpreendo tanto com ele. Porque me enche o peito, como se estivesse diante de um fenómeno de altruísmo ou simpatia alheia? Não deveria, a amabilidade, ser esbanjada por aí, o tempo todo, e por todos nós, como prática diária? Mas se em tantos sítios até torcem o nariz quando pedimos um simples copo de água, como iria adivinhar que ali a trariam para o meu cão, mesmo sem lhes pedir? Depressa se gera uma conversa entre nós, a senhora do carrapito e um homem que está sentado debaixo do alpendre, de charuto na mão e pele torrada pelo sol, que diz que a clientela de inverno são os donos dos cães e os javalis que descem à praia. A senhora do avental faz um esgar de descontentamento e afirma que tem medo dos javalis “cruz canhoto, que me reviram os caixotes do lixo todos!” e depois, de novo sorriso no rosto, retira dois rebuçados flocos de neve do bolso do avental e oferece-os aos meus filhos, que já estão dispostos a ir com ela para trás do balcão atender a clientela e espantar os suínos bravios.Outono em Portugal4

O areal é imenso, branco, livre e desimpedido. Já solto, o Baltazar corre em direcção ao mar, carimbando a areia lisa com as suas patas, e se não pensarmos no cheiro a cão molhado que vamos ter que suportar no regresso a casa, vê-lo mergulhar com a elegância de um barril de quatro patas é uma visão bastante libertadora. Melhor que terapia. Felicidade em estado puro que devia ser possível engarrafar e distribuir, por aí. Assim como a amabilidade da senhora do café. E como os sorrisos dos estranhos que não nos conhecem. E como as gargalhadas infantis que me rodeiam. E o prazer em comer bolachas, sentados na areia fria de Outono, com os olhos postos na água. E receber mil abraços espontâneos. E vê-la rodopiar como uma bailarina enquanto me chama mil vezes para ver como é graciosa. E vê-los edificar fortalezas medievais que se erguem da areia fina, fruto da insistência do pai que volta a ser puto, com uma pá e um balde na mão.Outono em Port4
É um dia de semana à tarde – e estou aqui na dúvida se podemos chamá-lo assim: “dia de semana à tarde”. Eu acho que sim. Aliás, acho que é a única forma. Porque “uma tarde de um dia de semana”, já são duas coisas distintas. Artigos indefinidos. Expressões impessoais e distantes – uma tarde, de um dia… Demasiado explicativo. Ah, mas a definição “um dia de semana à tarde” especifica todo um momento, que quando gozado sem as amarras do trabalho, dos horários, das idas ao supermercado e das filas de trânsito infernais, se torna mágico e único! E fugir para uma praia, com quem se ama, “num dia de semana à tarde” enquanto todos seguem as rotinas menos nós, é tudo isso. E era assim que a vida devia ser vivida, sempre.
Ali, entre o amparo da imponente serra, de um lado, e a imensidão do mar, do outro, jogando pão às gaivotas que vêm pousar em terra para cuscar os invasores da sua praia, não há preocupação que vingue, sem ser a “de como vou sacudir esta areia toda sem que boa parte dela me entre para dentro das calças”. Ali, não há mal, não há terror, não há ódio, não há guerra, não há hostilidade nem fanatismo. Pelo menos ali, naquele momento, naquele lugar, o único aborrecimento parecem ser os javalis, e não vou negar – que não me oiça a senhora do carrapito e avental axadrezado – que acharia um piadão se os ditos cujos aparecessem, agora, vindos das profundezas do mato.Outono em Port ricardo e baltazar
Depois de gastas as energias, e com eles sentados nas nossas pernas e o cão esponjado na areia, parecemos finalmente uma melodia harmoniosa de Vivaldi, tocada por violinos italianos ao mesmo tempo que o sol se coloca atrás da serra e as ondas balançam para trás e para a frente, na areia. É o fim perfeito do nosso “dia de semana à tarde”. Sim, consigo ouvir os stradivarius, ao longe… Mas então, quando nos levantamos, começam as reclamações de areia nos sapatos, e de não quererem carregar os baldinhos, e por estarem cansados, e por quererem colo até ao carro, e porque o cão lhes babou a roupa toda, e porque o pai quer que sacudam os pés antes de se sentarem, e porque querem água e outra coisa qualquer para comer, desde que não seja nenhuma das que há na mochila da mãe. A melodia desafinou e começa a soar a trompete entupido e a acelerar ao ritmo dos bongos e das maracas. Voltamos a ser corso alegórico carnavalesco, a Charanga Habanera e a fanfarra dos bombeiros. Tudo junto, no regresso a casa! Mas não faz mal. Porque afinal, é isso que são todas as famílias de verdade: orquestras estridentes tocadas por gente desafinada e feliz.Outono em Portugal Marta

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