Tunísia, 26 de Junho de 2015

Tunisia

Tunísia, 26 de Junho de 2015. 39 mortos num hotel, em Sousse.
Há uma praia paradisíaca povoada de espreguiçadeiras e chapéus de sol de palhinhas, e espalhados no areal, os cadáveres, tapados com toalhas de praia. A visão não é tão horrível porque o sangue foi absorvido pela areia e podemos imaginar que são apenas banhistas a dormir uma sesta, protegidos do sol abrasador. Quando os corpos não têm um nome, um rosto, e uma história, é fácil mantermos a frieza e o distanciamento, e olhá-los apenas como números trágicos a somar às vítimas do terrorismo. Mas todos os que jazem naquele areal, eram mais do que isso.
Owen Richards, de dezasseis anos, viu o irmão, o tio e avô serem mortos à sua frente. Para proteger a noiva e mãe dos filhos, Matthew James fez de escudo humano e levou três tiros. A portuguesa, Maria da Glória, professora reformada de 76 anos e viúva há dois, regressara à Tunísia, desta vez sozinha, para recordar momentos felizes passados com o marido. E quando os corpos ganham um nome, um rosto, e uma história, não há como não nos sentirmos abalados e quase de luto por quem não conhecemos, e tomados por uma revolta corrosiva que nos queima por dentro e faz interrogar “que porcaria de mundo é este?”
– O que é que estão a fazer àquela senhora? – pergunta-me a minha filha, batendo com a mãozinha na minha perna, enquanto me encontro absorta diante da televisão.
Às vezes, a sua curiosidade e poder de observação desconcertam-me. Dificultam-me bastante a tarefa de lhe ocultar as coisas feias do mundo. Não que queira que cresça numa redoma de vidro, mas não penso que esteja em idade de se consciencializar sobre o terrorismo, quando é algo que vai para lá da minha compreensão.
– A senhora sentiu-se mal. – minto-lhe, piedosamente, na esperança que o assunto fique por ali. Mas ela insiste.
– Porquê?
– Apanhou muito sol… – continuo a mentir, sentindo-me péssima por tentar estupidificar a minha criança, que de estúpida, não tem nada (e que orgulho nisso!).
– Porquê? Não tinha chapéu? É por isso que aqueles homens estão a levá-la?
– É. Vai lá brincar para a sala com o mano, que estou quase a chamar para o jantar, está bem?
– Mas as pessoas podem ficar assim por não porem o chapéu na praia?
Olhei para ela, suspirei, e percebi que preferia que ela soubesse que o mundo não é sempre cor-de-rosa em vez de ficar com medo de tirar o chapéu na praia, para o resto da vida.
– Não, filha. O que aconteceu foi que apareceu um homem muito mau e fez mal às pessoas que estavam na praia… – confessei, com um nó na garganta.
– Ah. E os polícias prenderam-no?
– Sim. Não te preocupes.
Satisfeita com a resposta virou costas e voltou para a sala. A inocente ilusão de que fora feita justiça, bastou-lhe. Quem me dera que me bastasse a mim também. Quem me dera que o mundo que os meus filhos habitam, fosse sempre a cor-de-rosa. Mas não é. E acho que nunca conseguirei explicar-lhes as suas mais negras e feias tonalidades. Porque o ódio, o fanatismo, a sede de sangue, morte e terror são inexplicáveis e não deveriam coabitar no mesmo mundo que nós.

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2 Comments

  1. As crianças têm uma forma muito própria de lidar com este tipo de coisas. Não estão com rodeios, aceitam as explicações que lhes parecem lógicas. Infelizmente não as podemos proteger dos males do mundo e “mais infelizmente ainda” não lhes conseguiremos nunca explicar os males do mundo. Apenas e só porque não têm explicação :-(
    (as vítimas que mencionaste – e as outras de que não falaste – estão gratas por lhes teres dado um nome e não um número; eu também)

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    • Oh Maria… O seu comentário emocionou-me tanto. Obrigada pelas suas palavras. Quisera eu poder falar de todas elas e que este tipo de atrocidades não caíssem no esquecimento com a facilidade e rapidez com que caem, hoje em dia – na era do imediato e efemeridade. E as crianças, de facto, são maravilhosas. Elas sim sabem simplificar e compreender tudo com uma clareza com que nem sempre conseguimos ver a realidade. Infelizmente, isto não tem mesmo explicação.

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