“Couve não!”

couve-nao

Antes do jantar entra na cozinha, com ar enojado.
– Blhec! Que cheiro é este? – pergunta com o narizito de perdigueiro no ar.
– Couve-flor gratinada. É muito bom e vais comer um bocadinho ao jantar.
O ar horrorizado dela foi quase indescritível. As sobrancelhas uniram-se numa expressão de súplica e quase se agarrou às minhas pernas a implorar misericórdia.
– Não! Por favor, mãe. Eu não quero! Couve não!

Esta aversão dela à maioria dos vegetais é desconcertante. Quando era mais pequenina e a sentava na cadeirinha do carrinho do supermercado, ela chegava a roubar verduras da zona dos frescos para mordiscá-las com verdadeira satisfação. Vê-la mastigar umas folhinhas de nabiça, qual cowboy a mascar tabaco, era um orgulho para mim! E quando me via a cortar pimento para a refeição, esticava as mãos e pedia-me sempre de forma muito efusiva “pintento, mamã! Pintento!”. Eu dava-lhe uma meia lua e lá ia ela toda contente a comer pimento cru. Hoje em dia, uma sopa de legumes parece-lhe um castigo impiedoso. Um atentado contra ela. Uma autêntica traição.
– A couve faz bem e sabe melhor ainda. Comes só um bocadinho.
Ela leva as mãos à cara dramaticamente, como se lhe tivessem ditado uma sentença de morte. É então que me lembro que amanhã teremos de fazer algo que para ela será verdadeiramente doloroso (para ambas, na verdade). Algo mil vezes pior que comer couve-flor e que optei por não lhe revelar hoje ainda.
– Pensa só… Se fosses agora levar uma vacina, não era muito pior que comer couve? Se tivesses que escolher entre ir levar uma vacina e comer um bocadinho de couve-flor, o que preferias? – pergunto, certíssima que a resposta será a segunda opção.
– A vacina! – exclama ela, sem hesitar. – Tudo menos couve! Qual é o braço que queres? – e estica-me os dois, não me dando mais espaço para negociação.

Partilha!Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someoneBuffer this page

Leave a Comment.