Teresinha

memória

Caminhava pela rua dos jacarandás e das casas com nome de gente quando o vi parado à frente do portão, amparado por uma bengala. Olhava para um lado e para o outro, como se procurasse alguém, e quando me viu arregalou os olhos. Foi então que numa passada cambaleante começou a andar na minha direcção, muito devagarinho. Ainda olhei para trás para ver se o alvo do seu interesse estava à minha retaguarda, mas não havia mais ninguém ali.
– Oh Teresinha, estava mesmo à tua espera.
Voltei a olhar em redor, e nada. Só eu.
O homem devia ter cerca de oitenta anos. Camisa axadrezada e ténis desportivos, lembrou-me imediatamente o meu avô e achei piada ao facto de me chamar Teresinha – é o meu segundo nome, apesar de desconfiar que só a minha avó se lembra disso porque recorre sempre a ele quando é para me mandar comer ou reclamar que estou muito magrinha (porque as avós estão programadas para nos verem sempre pele e osso).
Assim que me aproximei dele agarrou-me o braço, transferindo a força que fazia na bengala para mim e naquele momento achei que íamos cair os dois na calçada.
Olhou-me com uns olhos muito azuis como se nos conhecêssemos desde sempre e numa estranha aflição disse:
– O Jorge quer ir embora. Tens de o convencer a ficar. – pediu com uma urgência que não me passou despercebida – Ele ouve-te. Ele a ti ouve. Sempre ouviu…
– Desculpe, mas está enganado. – disse suavemente, com medo de o melindrar. Era óbvio que aquele homem não estava na mesma dimensão que eu. – Eu não sei quem é o Jorg…
– Tens de o convencer a ficar, Teresinha! – interrompeu-me – Tens de falar com ele e dizer-lhe que ele não pode ir. Onde é que já se viu agora querer deixar tudo para trás?! A família, a empresa… Logo agora que estava a contar com ele para me ajudar!

E… cá vamos nós. Já vos disse que tenho íman para situações bizarras? Somos unha com carne.

Fiquei a olhar para o seu rosto enrugado pelo tempo, para os seus olhos translúcidos que apesar de olharem para mim, viam uma certa Teresinha que eu não fazia ideia quem fosse, e não soube o que lhe responder. Nada do que eu tinha a dizer ia acalmá-lo ou deixá-lo feliz porque a minha realidade não era a mesma que a dele. Até que surgiu uma mulher no fundo do quintal a caminhar muito depressa na nossa direcção.
– Oh Henrique deixa a menina! Oh filha não lhe ligue que ele já não está bem. – dizia ela enquanto acenava com a mão num gesto de desaprovação.
Mas o Henrique lá continuava agarrado ao meu braço com uma familiaridade que estranhamente não me constrangia.
– Ele não pode ir! A mãe tem um desgosto se ele for embora. Ela já não anda bem dos nervos… Fala com ele, Teresinha. Só tu é que consegues pôr juízo naquela cabeça. A ti, ele ouve. Mas vê lá não te leve a ti também!
A mulher chegou junto de nós e tentou afastar o idoso pelo braço, enquanto revirava os olhos de impaciência e embaraço.
– Oh Henrique não vês que estás a incomodar a rapariga? Deixa-te lá dessas conversas e vem para dentro.
– Deixa-me! Não vês que estou a falar com a Teresinha! – gritou-lhe o homem, frustrado.
– Ela não é a Teresinha!
Ele olhou para mim, atentamente, com os olhos azuis cheios de certezas.
– É claro que é! Olha lá bem para ela! Deixa de ser chata e não te metas na conversa.
– Anda lá! Tens as torradas à espera!
– Come-as tu! Não pedi torradas nenhumas!
Mordi o lábio e ri-me silenciosamente. Começava a gostar dele.
A mulher olhou para mim, com uma careta de “não ligue” e começou a falar comigo em surdina, como se o homem não nos pudesse ouvir. Fez-me lembrar as minhas tias. Aquelas…
– Ele já não sabe a quantas anda nem o que diz. Vai buscar coisas de há trinta e quarenta anos e fala com se tivesse sido ontem. É o Alzheimer, sabe?
Franzi o sobrolho e permaneci calada, sempre com os olhos postos no octogenário, quase receando que ele ouvisse aquilo. Não era o Alzheimer, bolas! Era o Henrique. O Henrique que me chamava Teresinha e me pedia para não deixar um tal de Jorge partir para não sei onde. Falar dele como se não estivesse ali incomodou-me. Com Alzheimer ou não, tinha uma vida muito mais extensa que nós, com as suas memórias, os seus segredos, os seus fantasmas… E como devia ser cansativo chegar ao fim da vida com fantasmas às costas, com aflições pendentes, com memórias aleatórias que os outros já não compreendiam e histórias que já ninguém queria ouvir. Como deve ser triste viver num passado que já não existe, que se esfumou, numa realidade que já não é a de todos os que nos rodeiam, carregando mágoas que já não se podem resolver e coisas que já não se podem dizer… Até que um dia ele se esqueceria de tudo. Até dele mesmo.
A ideia de me esquecer da minha vida embrulhou-me o estômago. Assim como chegar àquela idade e ninguém me deixar contar as minhas histórias ou devanear sobre as minhas memórias à vontade. Talvez a coisa se resolvesse com umas boas bengaladas e um megafone.
Senti-o apertar-me o braço, chamando-me novamente a atenção.
– Ele não me fala. – sussurrou-me com um evidente desgosto e uns olhos quase lacrimejantes. – E vai embora sem me falar…
Engoli em seco. Porra, mas porque é que as pessoas têm que nos esfregar as suas dores mais profundas, assim, na cara? Eu só saí para ir ao pão!
– Anda lá, Henrique. Já tens as torradas frias a esta hora. – insistia a mulher, tentando aliciá-lo a ir para dentro, indiferente aos seus desabafos e anseios. Interroguei-me quantas vezes ela já teria ouvido aquela ladainha e que defesas já teria erguido para conseguir lidar com aquilo, todos os dias.
Senti então que ele começava a ausentar-se e a perder as forças quando me largou o braço e começou a amparar-se na sua cuidadora e na bengala, novamente. Os seus olhos azuis entristeceram-se e senti um aperto no coração quando o vi afastar-se, mais cambaleante do que quando veio ao meu encontro.
– Senhor Henrique. – chamei-o num impulso, e ele virou o rosto para mim. – Não se preocupe.
Foi então que respirei fundo e preparei-me para me sentir tremendamente ridícula nos segundos seguintes.
– Eu falo com o Jorge. – assegurei.
O seu rosto envelhecido iluminou-se num sorriso que lhe chegou aos olhos.
– Dou-lhe um puxão de orelhas que ele não se atreve a ir nem ao fim da rua! – acrescentei cheia de convicção.
O velho soltou uma gargalhada calorosa e esticou o braço apontando-me a bengala.
– Assim é que é, Teresinha.
Sorri-lhe e vi-o ir embora. Curvado no peso das suas memórias e dos seus fantasmas, mas também com uma leveza no espírito que não lhe vira da primeira vez, quando o avistei ao portão. Porque às vezes, há mentiras que são lenitivos para a alma… Mesmo que seja só por um bocadinho.

E claro, depois daquilo, e apesar dos trinta anos de atraso, fiquei realmente com vontade de puxar as orelhas ao tal Jorge. Mesmo não fazendo ideia quem ele era, para onde tinha ido, o que procurava, ou do que é que fugia… Esperei sinceramente que ele ainda fosse vivo. Que fosse presente. Que tivesse longas conversas com o velho Henrique, no alpendre, ao fim do dia. Que morasse ali mesmo, e estivesse lá dentro, a pôr manteiga no raio das torradas, com a bendita Teresinha!

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