Tarde de Julho

Tarde-de-julho

Tarde de Julho. A mesa foi posta na rua. A conversa flui naturalmente. Há sempre histórias para contar e ouvir. Há um resto de gelado a derreter na taça. Há uma cadela felpuda a dormir debaixo do banco e um gato vigilante, no telhado. Há festões coloridos a dançar ao vento, sobre a minha cabeça, que se manterão por ali até ao fim do Verão. Há raspar de talheres nos pratos, gargalhadas, arrastar de cadeiras. Cheira a chocos recentemente assados no carvão, regados a azeite e salsa. O sol queima-me as pernas, esticadas sem regra ou recato sobre o muro branco do terraço, e fecho os olhos, momentaneamente alheada de tudo o que se passa em meu redor. Há uma sensação de calmaria que não sinto há muito tempo, mas isso pode ter sido dos dois copos de vinho frisante que bebi ao almoço e me entorpecem os medos e ansiedades. No rádio, uma melodia antiga, familiar, que muito provavelmente não oiço desde criança, vinda de tempos castiços em que tudo sabia e soava a algo completamente diferente. Sei que ao meu lado a conversa está interessante, mas não a oiço porque estou a abanar involuntariamente os pés descalços, no ar, ao mesmo tempo que sou carregada para dentro da música e sinto, além da nostalgia, um súbito calor reconfortante que não vem do sol. Vem de dentro. De um recanto qualquer meu que não teme chuva nem tempestades. Vive-as, e aguarda pela bonança, com a certeza que ela chega quando menos esperamos. É um calor que me assegura que tudo ficará bem e que a vida coloca tudo no seu devido lugar, mesmo quando há momentos em que achamos que a filha da mãe está a deixar tudo terrivelmente desarrumado. A vida, que está lá em baixo, ao virar da esquina, e que pode subir também para beber um copo de frisante e abanar os pés ao som dos Creedence Clearwater Revival no rádio da minha mãe, enquanto temos um tête-à-tête sobre desilusão, coragem, regeneração, recomeços e pegas de caras – coisa que se faz muito na minha terra.

É dia de semana, está calor, não há pressa, nem horários, nunca tudo me pareceu tão simples – não sei se a culpa é do vinho, do sol ou da nostálgica “Have you ever seen the rain” cantada pelos monstros do Passado e que me sabe a férias de Verão, mas nem é necessário apurar responsabilidades. Há melhor que isto?
Há. Os chocos com tinta do meu pai.

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