“Take my breath awaaaaaay…”

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A chuva cessou. Aproveito para levar o cão à rua. Não passaram nem dois minutos, e já recomeça a pingar-me no nariz, na testa, no casaco que vai ficando pintalgado como uma tela impressionista. Ele, continua às voltas, a farejar cada pedaço do chão, a comer erva, a projectar qual o melhor espaço para uma casa de banho, virado a norte ou a sul… Tudo, menos fazer o que deve. Apetece-me gritar-lhe “despacha-te lá com isso, oh complicadinho!” e é quando o casaco passa de caqui pintalgado a verde escuro ensopado que lhe digo em tom de ultimato, como qualquer maluquinha que fala com o cão: “Ou fazes agora ou não fazes mais!”. Ele faz-me a vontade. Apanho um saco de bosta épico, debaixo de chuva torrencial, porque ter um labrador ou um elefante é quase a mesma coisa na hora de apanhar o “produto interno bruto”. Corro para o caixote do lixo mais próximo, saltando por cima das poças de água que parecem lagos, à minha frente. Ele, sem trela, aparece a correr ao meu lado, como se estivéssemos numa cena romântica de filme. Imaginem: corrida à chuva, pêlo encharcado, ele a sacudir-se em câmara lenta ao som de “Take my breath away”, a sentir-se um poço de sensualidade canina exalando cheiro a cão molhado, boca escancarada às águas que caem dos céus e língua pendurada ao canto da boca, como um tresloucado amante da vida. Podia jurar que aquilo era um sorriso. Sim, o raio do cão está a rir-se enquanto eu, em modo de pinto, botas, calças e cabelos a pingar, me sinto contente única e simplesmente por ver a tampa do caixote do lixo já aberta e poder mandar lá para dentro o saco num lançamento à Michael Jordan. É estranho quando nos sentimos felizes apenas por encontrarmos a tampa do caixote levantada… Regressamos a correr para casa. Ele continua com a sua banda sonora romântica, enquanto cavalga que nem um corcel cabeçudo, à chuva. Já eu, só oiço a minha respiração ofegante de quem já não pode com uma gata pelo rabo. Páro à porta de casa. Ele trava bruscamente atrás de mim, dá-me uma cuzada – que sendo do Cu de chumbo não é uma cuzada qualquer. Com o impacto bato “graciosamente” na porta que se abre de repente para dar passagem ao meu vizinho mais emproado que não gosta de cães. Momento perfeito para o Baltazar decidir voltar a sacudir-se e cá vamos nós outra vez:
“Take my breath awaaaaaay…”

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