Silêncio

Marta mértola casa xico

Há momentos na vida em que gostaríamos de pedir licença para sair da carruagem que nos leva pelos carris da rotina. Saltarmos mesmo com o comboio em andamento, só para contrariarmos o percurso, irmos num passo mais brando, a nosso bel-prazer, com tempo para respirar, apreciar a paisagem, parar onde quisermos, termos longos diálogos com a inquietação dentro de nós ou simplesmente tentar encontrar o silêncio na nossa mente. O silêncio que nos apazigua, que nos ilumina, que nos permite relembrar para onde queremos ir.
Foi no vale do Guadiana e pelas ruelas de Mértola que saltei da minha carruagem, que recordei como se respira fundo e que busquei o meu silêncio…

* * *
8 de Abril

Sento-me no poial da entrada, ao lado do alecrim que guarda a porta e do patudo desgrenhado arraçado de esfregão que repousa na sombra da casa do Xico. Os cães do Alentejo é que a sabem toda. Levam a vida com a lentidão que ela merece. Tenho sempre a sensação que eles carregam um segredo precioso e à mão de todos nós que, no entanto, nos recusamos a seguir. Algo como “Não te rales tanto. A vida são dois dias e um é para dormir a sesta”.
Aqui podemos ter a porta aberta, escancarada à vizinhança. A rua é sossegada e quem passa tem sempre um “boa tarde” arrastado e acolhedor a oferecer. Contudo, não são as pessoas que mais percorrem o passeio à minha frente. Desde que chegámos, já contei cinco cães e seis gatos. Acho que seria uma questão de tempo até todos eles se sentarem junto de mim, tranquilamente, só para ficarmos a apreciar o dourado que pinta os telhados ao fim da tarde. Lembro-me do quanto gostaria de ter trazido o Baltazar comigo. Tão bem que ele ficava aqui, aos pés da casa caiada de branco, com a cabeçorra repousada sobre os meus ténis, como faz sempre.
Vamos ficar pouco tempo – pouco para a minha fome de sossego mas demasiado para as saudades que já me batem no peito – por isso tento absorver cada pormenor e sensação. Quero sentir-me parte disto, nem que seja só por estes dias. Olho a calçada antiga debaixo dos meus pés, polida pelo tempo e pelos passos. O vento ameno que atravessa as muralhas vem beijar-me o rosto e murmurar séculos de suspiros dos povos que por ali passaram, quem sabe, também eles embevecidos com o entardecer no vale do Guadiana.

Oiço as minhas miúdas – companheiras de viagem, de aventuras, compinchas de uma vida – conversar dentro de casa a respeito das notícias. Algo sobre uns finalistas portugueses expulsos do sul de Espanha por mau comportamento nas loucas férias da Páscoa. Não consigo evitar um comentário mordaz sobre o assunto e acabamos inevitavelmente a comparar gerações e a relembrar histórias nossas de quando andávamos no liceu, onde o maior acto de rebeldia era mandar papel higiénico ao quadro quando a professora não estava a ver. Mesmo que seja o tema quente destes dias nas redes sociais, sei que não irei, também, escrever sobre ele. Não escrevo há dois meses. Não consigo. Preciso de luz, de respirar fundo, de ver tudo como uma mera espectadora, quieta e sossegada a um canto. Preciso encontrar o tal silêncio dentro de mim para poder voltar às palavras. E entretanto, tanto já se passou… O fundamentalismo voltou a matar gente em Londres, Estocolmo, Paris… Será que ainda tem relevância mencioná-lo em palavras de revolta quando passou a ser parte do nosso dia-a-dia? A frustração que se apodera de mim deixa-me apática. Aguardo ansiosamente por alguma mudança, com vontade apenas de cuidar dos meus, de poder guardá-los debaixo da minha asa e sentir que tenho todos seguros e tudo controlado. Na Síria, crianças continuam a morrer gaseadas pela maldade dos seus semelhantes, venha ela de que lado vier. Os EUA decidem lançar 59 mísseis Tomahawk em resposta aos ataques químicos e dias mais tarde irão encher os cabeçalhos dos jornais com a impactante “mãe de todas as bombas” sobre o Afeganistão, o que fará as delícias dos jornalistas ávidos por notícias de guerra. Só me interrogo como se pode chamar “mãe” a uma bomba. Bem sei o quanto posso ser explosiva (e não é pouco), mas duvido que depois de um rebentamento, a MOAB volte para limpar os cacos, dar colo e beijinhos, emitir um último ralhete em tom mais brando, rematando com um “vamos fazer as pazes”. Do outro lado do mundo, Kim Jong-un continua tão soprado quanto lunático, brincando com bombas nucleares como quem brinca com estalinhos no Carnaval; na Venezuela o governo arma milícias enquanto o povo morre à fome e luta por um pedaço de pão; por cá ouvem-se rumores que na Chechénia – e quando poderia eu imaginar-me a escrever tal atrocidade – abriram campos de concentração para homossexuais.

Fui eu que quis descer da carruagem para respirar fundo, mas o mundo bem podia parar um bocadinho para fazer o mesmo. É que na maior parte das vezes é absurdamente cansativo, para não dizer penoso.

Entro para mexer a minha sopa de tomate, ao lume – prato que faço ritualmente para aqueles de quem gosto, em momentos de vagar e partilha. Tenho que me colocar em bicos de pés para chegar ao último bico do fogão. A bancada é anormalmente alta e sinto-me uma hóspede em casa de Rúbeo Hagrid. Pego no molho de coentros comprados na mercearia da vila e levo-os perto do nariz, com se estivesse numa loja de perfumes, genuinamente deleitada com o cheiro das ervas que me lembram tanto a cozinha da minha mãe. Sim, eu sei. São apenas uns simples coentros, não é? Mas e depois? Podemos encontrar satisfação e conforto nas coisas mais pequenas e simples da vida, como cheiro de aromáticas frescas, de pão rústico acabado de fatiar, de comida caseira a fumegar na panela.

Sentamo-nos na mesa junto à janela e atacamos o manjar. Elas lambem os lábios quando cortam o pão embebido em caldo e eu faço figas para que os ovos tenham ficado escalfados em vez de cozidos. As nossas gargalhadas em torno de uma garrafa de vinho que recusa ser aberta pela nossa falta de jeito enchem a pequena casa do Xico, outrora o sineiro da vila. Conversamos se valerá a pena deslocarmo-nos até às margens do rio onde, segundo a vizinhança, haverá “festa com DJs”. Já houve duas ou três pessoas que nos avisaram de tal “evento”, deduzindo, provavelmente, ser isso que três jovens turistas procuram durante o fim de semana em Mértola. Eles não sabem que tudo o que quero é estar sentada no poial da porta ou deslocar-me ao castelo, de noite, com um copo de tinto e uma manta, para poder ver um céu estrelado como não vejo na minha terra por excesso de iluminação nocturna. E o luxo que será passar o meu serão sentada nas pedras do castelo! É então que algo lá fora nos chama a atenção. Algo muito próximo da nossa janela. Algo que tremeluz na escuridão da noite. Abrimos a porta – que já se encontrava fechada – e deparamo-nos com um surpreendente rio de gente que preenche toda a travessa. Gente que caminha lentamente, sem emitir qualquer ruído ou suspiro, segurando apenas velas reluzentes de esperança, de amor, de sonhos, de gratidão, de sofrimento ou alegria. Apressamo-nos a retirar o som à televisão e aos telemóveis. Não queremos desrespeitar em nada aquele momento solene onde nos sentimos tão intrusas como sortudas. Mesmo dentro de casa, encostadas à ombreira da porta e sem convite, estamos dentro da procissão. Sentimo-nos parte dela quando as cabeças cabisbaixas, apenas a um braço de distância, se viram na nossa direcção e os olhares baixos e meditativos se erguem de curiosidade para nós, e depois para o que tínhamos sobre a mesa, para o que estava a dar na televisão e para o caos em que tínhamos deixado a bancada – facto que me deu uma súbita vontade de rir. Três forasteiras de portas abertas ao povo e à sua fé – à nossa fé – querendo beber e absorver todas as suas emoções e preceitos, com uma bancada de cozinha indigna de qualquer dona de casa que se preze e duas garrafas de vinho em cima da mesa. Mas a minha solenidade voltou ao som dos passos. O som dos passos era tudo o que se ouvia na noite escura e silenciosa. Cadenciados, lentos, constantes, naquele chão polido pelo tempo e pela História. O som dos passos na rua iluminada apenas pelas velas da semana Santa e pela luz que saía da pequena casinha caiada do Xico sineiro persiste ainda na minha memória. Uma experiência arrebatadora que gostaria de ter registado com uma câmara que captasse os olhares surpreendidos e atordoados que nos entravam casa adentro. O povo e a fé – daquela que não se impõe, que não mata e não fere. Apenas se sente. A nossa comoção, fundida na daquela gente. E por fim, o silêncio. O silêncio que eu tanto buscara, ouvia-o finalmente dentro de mim. Sereno, reluzente, pacifico, e tão clarividente. Tanto, que foi ele que me trouxe de volta as palavras que teimavam em não querer ser escritas.

Olá a todos. Outra vez. <3
É bom estar de volta.

 

Mértola casa do Xico (zeke)IMG_9061IMG_9251Travessa do Xico (zeke)Marta Mértola

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4 Comments

  1. É muito bom tê-la de volta.Já tinha saudades dos seus escritos…
    É bom de vez em quando fazer uma pausa; a minha já vai longa e não tem jeitos de parar 😉

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