Serviço de despertar

servico despertar dia da mae

9.45 da manhã. Ele levantou-se sorrateiramente e saiu do quarto em bicos de pés, pensando que eu não o estava a ver, e encostou a porta.
Passados uns minutos entrou ela, com os seus inconfundíveis caracóis desgrenhados. Deitou-se ao meu lado, silenciosamente, e ao constatar que eu estava acordada, sorriu-me, fazendo-me perceber que não iam haver “mais cinco minutos de olhos fechados” para ninguém.
– Olá mãe!
– Olá carochinha.
– Hoje é dia de estar em casa, não é?
– Sim…
– Posso ver desenhos animados aqui?
Liguei-lhe a televisão e sem que tivesse tempo de fazer zapping, ela pediu-me automaticamente para deixar na série argentina daquela jovem musicalmente talentosa (é discutível) que frequenta uma escola de música às escondidas do pai, mas cuja habilidade maior é colecionar amigos coloridos/hipotéticos namorados, os quais deixa todos em banho-maria com uma pinta do caraças (ainda estou para saber como é que a miúda consegue gerir aquilo tudo).
Entretanto, no corredor, uma porta abriu-se, e passinhos desceram apressados até à cozinha, despertando a atenção da pequena ao meu lado.
– Eu acho que é o mano…
Levantou-se e saiu do quarto, encostando também ela a porta.
Novamente sozinha, espreguicei-me pela cama, procurando as zonas frescas do lençol com os pés. Depois ganhei coragem para levantar o estore, até que ela voltou a entrar.
– O mano está na cozinha com o pai. – informou.
– E o que é que eles estão a fazer?
– Hum… O pai está a beber café e… – deteve-se, levando o dedo à boca, hesitante se havia de prosseguir ou não.
– E o quê?
– Eles estão a fazer uma coisa. Mas eu não posso dizer o que é.
– Ah… Então é melhor não dizeres nadaDia da mãe blog 4
Voltou a deitar-se ao pé de mim – que já me rendera à preguiça novamente, para cima das almofadas – e afagou-me o cabelo.
– Mãe, eu gosto de ti.
– E eu de ti.
– Muito.
– E eu infinitos.
Ela sorriu.
– Eu gosto de ti porque tu deixas-me arrumar a casa contigo. E cozinhar também. E deixas-me dormir contigo quando tenho sonhos maus. E cantas músicas de embalar… E sabes mais o quê?
Abanei a cabeça, tão divertida quanto confusa, principalmente com a parte do “deixas-me arrumar a casa”. Desde quando é que isso era motivo para se gostar de alguém?
– O que eu gosto mais, também, é… – agarrou-se à minha cabeça e segredou-me ao ouvido. – Ver-te pintar os olhos. – e depois abanou a cabeça convictamente, como se aquela fosse a confissão das confissões. – Gosto não. Adoro! – exclamou, fazendo-me rir.
– Ah é por isso que gostas de mim?
– Sim!
– Está bem. É legitimo.
– É o quê?! – interrogou, com o rosto franzido de dúvida, como se eu tivesse falado noutra língua. Contudo, sem aguardar uma resposta, levantou-se novamente.
– Olha mãe, eu vou lá ter com eles está bem? Mas tu não podes sair daí. – alertou-me seriamente, e saiu do quarto aos saltinhos, até que se cruzou com o irmão no corredor. Ouvi-os sussurrar no meio de risinhos cúmplices, até que a ouvi dizer para ele, com uma certeza inabalável: “Ela não vai sair do quarto. Está a ver a Violetta”.
Arregalei os olhos, pasmada com a afirmação. Estava a ver a Violetta?! Eu?! Depois olhei para o ecrã e de facto, ali estava a Violetta, a lamentar a sua vida de pobre menina rica e a cantar à janela, à espera provavelmente que algum dos tipos que tem paciência para a aturar aparecesse. Não. Eu não estava a ver a Violetta. Eu estava prisioneira no meu quarto, a gramar com aquilo, involuntariamente. Até que o meu primogénito entrou e mandou-se para cima da cama com a pouca delicadeza que caracteriza os rapazes.
– Bom dia minha senhora mãe!
– Bom dia borracho!
Aproximou-se de mim e sussurrou-me ao ouvido. Decididamente, hoje, era a manhã dos segredos.
– Nós estamos a fazer uma coisa especial para ti. Mas não podes sair daqui.
– Pois. Já sei.
Franziu o sobrolho, aborrecido por não me surpreender.
– Quem é que te disse?
– Hum… Eu adivinhei! – menti, não querendo denunciar a delatora caçula.
– É porque tu sabes sempre tudo?
Dia da Mãe blog1– Pois… É isso. – confirmei, não querendo quebrar a ilusão aos que me consideram incrivelmente sábia, o tempo todo.
Em seguida deu-me um beijo apertado na cara.
– Adoro-te mãe.
– E eu a ti.
– És a melhor mãe do mundo.
– Ai tão bom! Porquê?
– Porque cheiras bem, a tua pele é macia, os teus bolos deliciosos e quando a luz do meu quarto se apaga à noite, tu vais lá, e arranjas!
Bem, os motivos dele já eram mais cavalheirescos. Cheiras bem, tens uma pele linda e não te acanhas a mudar as lâmpadas… Fiquei contente por saber que o meu pequeno dominava a arte de bem elogiar. Sortuda da miúda que lhe dava a mão a caminho do refeitório, à hora de almoço, no infantário.
– Agora vou ter com o pai lá abaixo! – e correu para a porta.
– Quando é que posso sair daqui?
– Tens que esperar! – despachou-me ele
– Mas estou farta de estar aqui!
– Tens que esperar! – repetiu, já a descer as escadas.
– Vou contar até vinte e levantar-me! – gritei, até que o ouvi a correr para a cozinha com toda a pressa, enquanto abafava uma gargalhada com a mão. Depois conversou com o pai e com a irmã em surdina (num tom que de discreto não tinha nada) e ouvi-os a rirem-se em delírio e a taparem a boca, como faziam sempre que não queriam ser descobertos. Como faziam, aliás, sempre que jogávamos às escondidas. Podiam estar no esconderijo mais secreto, que chegávamos sempre até eles pelas gargalhadas de excitação que não conseguiam represar. Tal como agora, enquanto subiam as escadas com o pai.
Dia da mãe blog3Foi então que ao fim de beijos, declarações de amor, sussurros nos corredores, corridas pela escada, e risinhos abafados na cozinha, lá entraram os três no quarto, de sorrisos rasgados no rosto, tabuleiro na mão, gritando um entusiástico “Feliz dia da Mãe!” e trazendo um pequeno-almoço melhor do que todos os pequenos-almoços de hotéis de cinco estrelas do mundo – e que apesar de me ser destinado, foi quase todo devorado por eles. Não me importei. Podiam comer-me os morangos e os ovos mexidos todos.Sentia-me satisfeita, de alma bem nutrida, saciada de amor e carinho. Contentar-me-ia apenas com o cappuccino, desde que os tivesse a todos, ali, junto a mim, naquela doce manhã de Domingo. E nem a chata da Violetta me estragava isso.

Dia da mãe blog2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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