Sentido prático feminino

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Pousou os pacotes de leite e o saco das compras no chão e despiu a sweat ensopada, queixando-se da chuvada que tinha apanhado e da chata que tinha apanhado à sua frente, na caixa do supermercado, com quinhentas dúvidas quanto aos cupões de desconto que levara consigo, originando uma fila interminável atrás de si.
Enquanto ele falava, eu olhava intrigada para o saco das compras – aqueles de 50 cêntimos que servem para carregar tudo, mas que nos esquecemos em casa de todas as vezes que vamos ao supermercado. Havia ali alguma coisa que não batia certo…
– Que saco das compras é este?
– É o que tu me deste. – e continuou a falar da mulher que ficou a empatar à saída da caixa. – Depois ficou a consultar o recibo detalhadamente, com os óculos na ponta do nariz, ar de quem acabou de ser roubada só ainda não descobriu onde, e tive que lhe pedir “dá-me licença?” umas cinco vezes, porque ela decidiu bloquear a saída com o carrinho, até que me lançou um olhar de indignação como se eu estivesse a aproveitar a situação para assediá-la!
Ri-me, só de imaginar a cara dele diante da Miss Empata injuriada. Mas como os cérebros femininos podem pensar em várias coisas ao mesmo tempo, rapidamente concluí:
– Não… Este não é o saco que eu te dei.
Ele arregalou os olhos.
– É claro que é! – afirmou convictamente, sem no entanto conseguir esconder o sorriso suspeito que lhe surgia na cara.
Franzi os lábios, desconfiada.
– Não, não é. – insisti.
Ele franziu o sobrolho, como se eu estivesse a teimar disparatadamente, e notei o risinho nervoso que se esforçou por represar, sem sucesso.
– Mas porque estás tão desconfiada? É um saco! A sua origem e história de vida interessam-te assim tanto?
– O que eu te dei tinha uma joaninha. Este tem massas, feijões e ervilhas!
Revirou os olhos e riu-se.
– Mas quem é que toma atenção ao desenho dos sacos das compras? Temos tantos!
– Eu! Eu noto. E vi muito bem que saco te dei.
– Só se esse já estava dentro do carrinho. Será que trouxe o saco de alguém, por engano? – indagou, mas por algum motivo a pergunta não me pareceu genuína. Ele continuava com ar comprometido.
Semicerrei o olhar e comecei a andar à volta dele e do saco, qual Miss Marple buscando deslindar o mistério. – O saco é novo. Está liso, brilhante, imaculado e as asas nem sequer estão lassas, indiciando uso e transporte de cargas pesadas. Este saco não é o que saiu aqui de casa, há uma hora atrás e eu quero saber porquê. Que segredo tão obscuro e perverso pode esconder um saco das compras? O que é que me estás a esconder? An?! – e espetei-lhe o indicador na barriga que se retesou ao som de uma gargalhada abafada. – Ou roubaste o saco à Miss Empata? Enrolaste-te com ela no parque de estacionamento e trocaram os sacos, foi?
Ele fez uma cara horrorizada.
– Ela parecia minha tia! Deviam ir ao mesmo cabeleireiro e tudo!
– Então que saco é este?
– É novo! – exclamou, como se estivesse sob tortura. – Pronto, confesso! Comprei-o! Está bem, Hercule Poirot?
– AH-AH! Eu sabia!
– Impressionante… Quem é que olha para um saco das compras, duas vezes? – perguntou, obviamente frustrado. – És assustadora!
Ri-me. Com genuína satisfação. Até ele já não me poder ouvir.
– Porque raio foste comprar um saco, se te tinha dado um? – perguntei-lhe, massacrando-o mais um bocadinho.
– Esqueci-me dele no carro!
– E porque não compraste um de 10 cêntimos?!
– Porque não queria que percebesses que me tinha esquecido do saco e dar-te mais um motivo para dizeres que me esqueço de tudo o que dizes!
– Bastava teres passado as coisas do saco de 10 cêntimos para o saco que te dei e nunca teria descoberto! Em vez disso foste gastar 50 cêntimos?! – exclamei, exacerbando a incredulidade.
Ergueu os olhos para o tecto e soprou.
– Esqueci-me. – desabafou baixinho.
Voltei a rir-me.
– Mas folgo muito em saber que era essa a desculpa que darias.
– Se não quisesse passar por esquecida, talvez…
– Ok. É bom saber quem aqui é mais rápido a engendrar aldrabices. Sim senhor!
– Oh… É apenas sentido prático feminino. – apressei-me a justificar.
Revirou os olhos, suspirou um longo “ai” de mau perder e virou costas, rumo à cozinha. Sei que não é pela minha capacidade de engendrar aldrabices, mas sim por não ter sido ele a lembrar-se dela e ainda ter sido descoberto.
Estou a chateá-lo até agora.

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