São Baltazar

Dá a pata2

Deixei o Baltazar a farejar as árvores e a relva, sentei-me no banco do jardim, tirei o pequeno bloco de notas e a caneta, e quando voltei a erguer a cabeça, vi-os. Lá estavam eles, outra vez. Observavam o cão, atentamente e de braços cruzados sobre o peito, provavelmente a magicar a próxima patifaria. Depois caminharam na minha direcção, e ficaram de pé, junto ao banco.
Desta vez não me chamaram “jeitosa”, o que foi, eu diria, um bom começo. Porém, confesso que não deixei de ficar ligeiramente nervosa, na iminência do que se seguiria.
– Ca ganda cabeça! – exclamou um deles, reafirmando algo que eu já sabia: toda a gente acha o meu cão cabeçudo. Não há hipótese.
– Parece um que o meu pai tinha. Mas a bófia foi lá buscá-lo porque ele já tinha mordido a dois vizinhos.
Percebendo que estavam a falar para mim, senti-me na obrigação de responder.
– Isso é chato. – observei, encolhida no banco, sem saber muito bem o que dizer.
– O quê?
– Ele ter mordido. Às pessoas… E ter acabado assim.
– Ya. – encolheu os ombros, pensativo. – Mas o cão era mêmo bera, tás a ver? Até à gente queria morder.
– Ah… Isso assim é complicado… – balbuciei, começando a achar aquilo surreal.
– Mas o teu tem cá uma bocarra! – exclamou, impressionado, e apeteceu-me perguntar-lhe se fora a bocarra do meu cão que o fizera desculpar-se no dia anterior ou se fora o meu ar ameaçador (inexistente, neste momento). Só naquela do tira-teimas!
– É um rottweiler, né? – perguntou.
Um rottweiler?! O Dom Baltazar?! Tive vontade de rir, mas então, ouvi a voz da minha consciência sussurrar-me matreiramente “Sim! Diz-lhe que sim! Se eles já estão impressionados com o tamanho da boca, assim que disseres que é um rott nunca mais se atrevem a ser malcriados.”
– Não. – respondi, ignorando completamente a voz da minha consciência. – É um labrador. Preto. Mas um labrador…
– A sério?
– Sim.
– Tás a gozar!
– Não… Não estou.
Por algum motivo que não percebi, pareceu-me desiludido.
– Se fosse um rottweiler dizias à gente que a gente levava-o para umas lutas e ganhava-se umas massas. – sugeriu, entusiasmado e naquele momento caiu-me tudo ao chão. Levar o meu cão às lutas?! O meu instinto foi levantar-me, chamar o cão e fugir para casa. Mas em vez disso engoli em seco e olhei para ele.
– Lutas de cães?
– Ya!
– Tu gostas disso?
– Ya! Bué fixe!
– Pois eu não acho qualquer piada. E diz que a Lei também não.
Ele riu-se, desvalorizando o que eu acabara de dizer.
– Era isso que fazia o cão do teu pai? O que mordia aos vizinhos?
– Ya!
– Hum… Isso explica muita coisa. – murmurei. – Se calhar era por isso que ele vos tentava morder, não é?
– Epá… já disse que ele era bué bera!
Abanei a cabeça, sabendo que não me valeria de nada argumentar contra. Era óbvio que ele se estava pouco borrifando para as minhas considerações quanto à legalidade/moralidade das lutas de cães.
Quando o Baltazar veio ter comigo, vi-o ter pela primeira vez na vida uma postura de desconfiança em relação a alguém. Ao contrário das outras vezes, não procurou festas nem abanou o rabo. Apenas se sentou ao pé de mim quando lhe disse para o fazer.
– Ele senta-se sempre que tu mandas? – perguntou um deles, admirado.
– Sim. Quase sempre. – respondi e pus-lhe a trela, pronta para me ir embora, não sem antes reparar na maneira curiosa como olhavam para ele, evitando aproximar-se.
– Também dá a pata. Se lhe pedirem. – arrisquei, não tendo qualquer certeza se o Baltazar o faria, não tendo ele simpatizado muito com os rufias.
– Se eu pedir, ele dá? – perguntou o que estava sentado ao meu lado.
Suspirei, na dúvida se havia de encorajar aquilo.
– Experimenta.
Ele estendeu a mão ao cão.
– Dá a pata.
O Baltazar olhou para ele, e depois para mim, de sobrolho descaído e quase como quem diz “mas queres mesmo que faça isto?”.
O rapaz voltou a insistir.
– Dá a pata.
Eu tive que dar uma ajuda, sussurrando uma terceira vez “dá-lhe a pata”. Então ele levantou a sua enorme barbatana de cão nadador e pousou-a na mão do jovem que esboçou um enorme sorriso infantil enquanto olhava para os amigos, certificando-se que eles testemunhavam o seu grande feito. E foi assim que, num momento quase celestial e epifânico, vi um delinquente juvenil que gostava de lutas de cães, que se dirigia a quem quer que fosse num tom e postura provocatórios, que costumava assaltar miúdos à porta do escola e senhoras idosas na paragem dos autocarros, ficar todo derretido com um bacalhau do meu cão.

No fundo, acabei por ficar contente.
Se eu soubesse que isso mudaria alguma coisa neles, para melhor, ia lá todos os dias com o Baltazar. E foi com a sensação de que as pequenas coisas podem fazer a diferença, que virei costas para regressar a casa. Até que os ouvi gritar:
“Ele é um cabeçudo e tu és muita jeitosa!” (e acreditem que esta, foi a versão que não senti vergonha de escrever.)

E pronto. A minha fé foi abalada, e fiquei a saber que o Baltazar, afinal, não fazia milagres.

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