Saltos, para que vos quero?

Saltos para que vos quero2

Fim do dia. O programa é de adultos e os miúdos estão entregues aos avós.
Depois de escolhido o vestido, a grande dúvida é: as minhas sandálias pretas rasas, extremamente confortáveis que nunca me deixam ficar mal, ou as sandálias de salto agulha extremamente sexys, às quais não estou minimamente habituada e das quais tenho muito medo? Até porque elas habitam o canto mais recôndito do meu roupeiro e raramente veem a luz do dia…
Perante a insistência e ar babado do meu homem quando experimentei as segundas, foi fácil escolher e ignorar os meus receios palermas.

À saída de casa, ele quis dar-me a mão para me ajudar a descer os degraus, mas confundindo o cavalheirismo com condescendência, perguntei-lhe logo “O que foi? Achas que não sei andar sozinha, é? Sou assim tão desengonçada?”, ao que ele ergueu as mãos num gesto de tréguas, e seguiu caminho, com um sorriso de gozo estampado no rosto, como quem diz “Pronto! Já não está aqui quem tentou ajudar!”.

Quando cheguei à rua bastou-me ter que caminhar alguns metros até ao carro dos amigos que nos esperavam no parque de estacionamento, para perceber imediatamente as diferenças entre o confortável soalho flutuante de casa (que nos dá a ilusão traiçoeira de sermos capazes de caminhar graciosamente em cima dos ditos cujos a noite toda), e o rude asfalto da estrada, onde qualquer irregularidade ou pedrinha no caminho, por mais pequena que seja, parece atrapalhar.
Em passadas comedidas, sigo (bem cá atrás) o meu acompanhante que sabe pedinchar por saltos agulha mas depois facilmente se esquece que estou com os movimentos limitados graças aos mesmos. Será que ele não percebe que, mesmo que eu não queira assumir, agora já preciso que ele espere por mim ou me dê a mão? Será que poderia fazê-lo, como quem não quer a coisa? Será que não percebe que se eu alargar a passada, vou parecer a avestruz Leopoldina a andar?
Percebe, mas está a fazer de propósito, aposto. Só para me chatear e ouvir-me implorar por socorro!

Enquanto seguro a carteira numa mão e tento segurar o vestido (que teima em levantar com o vento) com a outra, sinto o dedo grande do pé ser trincado ao ritmo das minhas passadas e solicito entredentes: “Podes ir mais devagar? Ou dar passadas menos largas? Dar-me a mão? ENTÃO E ESPERAR, NÃO?!!!” – nesta última já deixei os ares de donzela em apuros e transformei-me na Fiona (sim, a ogre). E é aqui que o lindo sapato de Cinderela começa a dar mostras de ser bem mais do que uma peça de culto feminino e objecto de sedução masculina. Os sapatos de salto agulha exercem em nós o mesmo poder que o anel de Sauron, em O Senhor do Anéis. Eles seduzem-nos, fazem-nos acreditar que precisamos possuí-los, guardamo-los religiosamente numa caixa de papelão muito bonita no fundo do armário, e quando os usamos sentimo-nos muito poderosas ao princípio, até que eles começam a corromper-nos a alma e o coração, transformando-nos em criaturas intragáveis.

Entrar num carro de três portas e chegar ao banco de trás também não foi tão fácil como costuma ser. Quase não havia espaço para pôr os pés e senti que ia aterrar de cabeça quando me desequilibrei a tentar baixar o vestido que teimava em voar. Quando senti uma aragem onde não era suposto, desconfiei que a minha tarefa não fora bem sucedida, mas não quis saber. Os sapatos estavam a levar-me, também, todo o pudor e dignidade. Claro que quando chegámos ao nosso destino, tive que ouvir a piadola: “Agora vê lá como é que sais do carro… porque tenho a impressão que na nossa rua toda a gente viu mais do que devia!”
Pés assentes em terra, caminhamos para a entrada da quinta onde se realizará o jantar.
O piso é de terra, tem gravilha e pó e a relva está a alguns metros de distância. É lá que quero chegar, mas fizeram-nos estar parados no portão, à espera dos que faltavam aparecer.
Ao fim de dez minutos de converseta, em pé (e eu nunca frisaria isto, se estivesse com outro tipo de calçado), começo a deixar de sentir os pés. Olho novamente para a relva, verdejante e fofa, e sei que tenho de alcançá-la, a todo o custo. Como ninguém parece interessado em mudar-se, tomo iniciativa. Acho que me seguiram, mas nem verifiquei se sim. Eu só queria chegar àquele oásis, e quando senti a erva a refrescar-me os pés torturados, enterrei os saltos na terra, e com menos uns centímetros respirei um pouco de alívio. Sim, leram bem! Eu enterrei, deliberadamente, os saltos na relva. E por algum motivo que me escapa, o sofrimento patente na minha cara parecia estar a divertir o malvado que me acompanhara. Ele até podia ir-me sussurrando mil vezes ao ouvido que eu estava linda de morrer e fazer-me uma série de elogios indecorosos capazes de fazer corar as pedras da calçada, mas a sua indiferença face ao meu suplício começava a tirar-me do sério.
“Eu vou me descalçar…”
“Mas porquê? Estás tão gira! Não vais nada!”
“Mas eu já não aguento! Foi um erro ter trazido estes sapatos. Não fui feita para isto.”
“Mas que idade é que tu tens? São só uns sapatos!”
“São uns sapatos do demo! Demónios com dentes que estão a devorar-me os pés! Vou ficar com os dedos todos gangrenados. Olha para eles, coitadinhos…”
“Quando nos sentarmos, descalças-te. Aposto que já falta pouco.”
Mas não faltava pouco. Faltava muito! Faltava o tempo todo que demoraríamos a comer as entradas expostas em duas mesas, debaixo de um telheiro. Eu pensava que era chegar e sentar, mas aquilo parecia o raio dum casamento!
Tive que lhe pedir que fosse à caça de canapés, por mim. Havia todo um exercício de paciência e cordialidade para conseguir chegar à mesa e servirmo-nos do que queríamos sem empurrar ou pisar os outros convidados e eu sabia, que se fosse lá, a coisa não ia correr bem. Além disso, estava de olho no sofá de verga, na outra ponta do telheiro. Depois da relva, aquela era a próxima meta, mas alcançá-la não ia ser fácil. À medida que eu tentava avançar, algumas pessoas vedavam-me o caminho para falar comigo, numa tentativa de fazer conversa de circunstância.
“Então os meninos?”, “Estão com os avós?”, “Ele já vai para a escola primária, não é? Realmente o tempo passa a correr!”. Eu anuía com a cabeça, sorria, mas não ouvia nada. Não conseguia! Sentia os pés racharem ao meio e já sem equilíbrio, ia cair para cima dos convidados, a qualquer instante. Eu só queria chegar ao sofá! Será que as pessoas não viam a minha agonia?! Não. Não viam, porque eu esforçava-me para permanecer impávida e serena, como uma lady, tipo “oh pra mim tão calma e habituada a andar nestes sacanas todos os dias!”.

Tantas vezes que a minha mãe me tentava impingir saltos altos, argumentando que uma senhora deve saber tratar por tu um bom par de sapatos, e eu recusava-os determinantemente, para sua incredulidade. Agora sentia um ténue arrependimento por não ter abraçado a sua doutrina.
A cada passo dado, eu lembrava-me da história da Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, em que depois de lhe concedidas as tão desejadas pernas, pela bruxa do mar, a jovem sentia constantemente como se estivesse a caminhar sobre facas afiadas. E assim estava eu. Aquilo era horrível. Antinatural, masoquista, autoflagelação pura! Como é que as mulheres faziam isto a elas próprias?! Desconfiava até que devia ser prejudicial à saúde. Física e mental, porque a cada passo dado em direcção ao sofá, eu ouvia o Neil Armstrong na minha cabeça, falando para todo o planeta: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”. Só depois percebi que não era o Neil Armstrong na minha cabeça. Era o Indy atrás de mim, com um prato e rissóis e farinheira, na mão, e a sua espirituosidade do costume.
“Vá, está na hora do teu grito de Ipiranga!” – disse ele, num misto de troça e encorajamento. – “Não aguento mais ver-te com essa carinha de infeliz. Até porque sei que ficas ainda mais linda descalça.” – Aquilo era tudo o que eu precisava. Um homem que me amava tanto descalça, como em modo de avestruz Leopoldina.

Assim que alcancei o tão almejado assento, perdi a vergonha e a compostura, desci do salto (literalmente), e descalcei os demónios. Vade retro, sapatos do inferno!
Juro que ao colocar os pés na tijoleira fria, ela fumegou ao toque da pele fustigada dos meus dedinhos, e uma música celestial ressoou por todo o espaço. Eram os anjos da libertação!

Demorou algum tempo para que os pés voltassem à sua forma original (coitadinhos), mas agora sim, podia comer, beber, conversar, dançar, namorar, ser eu… Livrara-me do anel do Sauron e era uma mulher livre. O sorriso voltara à minha cara e nunca um rissol de camarão me soube tão bem!

Saltos para que vos quero

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6 Comments

  1. Ahahahahaha, fiquei com dores de pés com a tua descrição.
    E, by the way, aqui está uma questão que eu coloco sempre: mas onde é que as gentes que decoraram esse tipo de locais onde, supostamente, iremos de saltos altos – não é obrigatório, eu sei, mas tem toda a lógica, não? – nunca, mas nunca, mas nunca (ok, com algumas muito raras excepções) pensam nos caminhos exteriores? É que mesmo que os sapatos não sejam novos, ou pouco habituados a estas andanças, a verdade é que colocar saltos agulha em cima de gravilha é um verdadeiro passaporte para ir de nariz ao chão. :-)

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    • Tão certa que está, Maria Alfacinha! Ainda por cima um espaço destinado a casamentos e baptizados. Qualquer mulher sabe que os saltos altos foram feitos para pisar “passadeiras vermelhas” e não relva ou gravilha! Basta-nos percorrer o parque de estacionamento e pronto, já temos os pés feitos num oito para a noite toda! 😉

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      • É isso que não entendo!
        Quando uma pessoa chega finalmente à festa, depois de passar horas (cof, cof!) a apinocar-se, já está doida para voltar para casa. Ok… passar o resto do tempo descalço, também serve 😛

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