Retiros espirituais

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Juro que não percebo qual o propósito de retiros espirituais em praias paradisíacas, bosques místicos, montanhas que tocam o céu ou mosteiros recônditos. Parece-me óbvio que no paraíso todos conseguimos alcançar a paz interior, obter momentos de clarividência, descobrir qual o propósito da vida… Mas agora experimentem fazê-lo numa repartição pública!
Impressionante a quantidade de questões existenciais, exaltações hedonistas e fome de vida, liberdade e ar puro que me assaltam nas longas horas de espera na Segurança Social, enquanto, ao meu lado, uma senhora com idade para ser minha avó limpa as unhas com… as unhas! Sim, enfia uma unha dentro da outra e puxa a sujidade lá de dentro a ponto de ouvi-las a estalar durante a limpeza “Tic tic tic”. E como se não bastasse tosse e puxa o catarro bem lá do fundo, mais próxima dos meus ouvidos do que eu desejaria, isto ao mesmo tempo que uma família “problemática e ostracizada pela sociedade” roga pragas a uma assistente social, e outras duas mulheres, atrás de mim, narram em alto e bom som as mil e uma doenças que as atormentam e juntas médicas a que foram sujeitas, numa clara e aguerrida competição de maleitas e injustiças sociais que lhes infligiram nos últimos anos. A mais desgraçada, leva a taça. Eu sei porque cresci a ver as mesmas desgarradas entre vizinhas, no bairro da minha avó. Entretanto, há 40 minutos que os números das senhas não avançam e ninguém é chamado seja para o que for. Os meus olhos intercalam entre o telemóvel e o ecrã da chamada, mas os números não mudam. É como se o tempo tivesse parado, ali, e não, não é no sentido de “tão bom que o tempo pareceu parar!”. É mais no sentido, “alguém que descongele a merd@ do passa-senhas que está-me a faltar o ar com a ansiedade!”. E ao meu lado, mais uma vez, reinicia-se a limpeza da unhaca. “Tic tic tic”. Bem como o arranhar gorgolejante na garganta alheia “Rshhhh Rshhhhh”. Encosto a cabeça à parede, fecho os olhos, e finjo que estou num lugar longe dali. Não faz mal que ninguém seja chamado e que esteja ali há horas. Já estou do mais espiritualizada que pode haver. Já delineei um plano de todas as coisas que quero fazer durante a minha existência e uma promessa de aproveitar cada minuto dos meus dias se me deixarem sair dali, ainda hoje, sem levar com uma unha pelos olhos ou uma escarreta nos pés.

Experimentem. E quando cruzarem a porta da saída, se não for com vontade de comer a vida à dentada, ou pelo menos beber uma imperial fresquinha e um pires de caracóis na esplanada mais próxima enquanto respiram liberdade e sentem o sol beijar-vos a cara, então ide para um bosquezinho encantado cantar o Kumbaya de mãos dadas e buscar o propósito da vossa existência.
Fraquinhos.

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