Resquícios do Natal

A bezana do baltazar

“Onde estou? Quem sou eu? De onde vim? Porque me dói tanto a cabeça?
Lembro-me de ouvir música de Natal o dia todo. Da chata a mexer qualquer coisa, ao fogão. Não sei o que era, mas cheirava bem…
Lembro-me do nosso querido chegar a casa carregado de sacos e com um sorriso parvo na cara, e ela começar num misto de histerismo, ralhete e divertimento, a falar daquela forma que nos põe a todos os cabelos em pé: “Não acredito… Isso é a minha prenda?!” (aqui, o registo é de surpresa, estupefacção e entusiasmo infantil). “É o que estou a pensar?” (aqui é de precaução e antecede, na verdade, um aviso muito claro: se não for o que ela está a pensar, estás feito ao bife) “Num saco de plástico e sem sequer estar embrulhada?!” (aqui já é indignação pela falta de preceito e atenção aos pormenores, da parte dele. Urge remediar a situação, o quanto antes).
“Vou embrulhá-la agora!”, dizia ele, com um rolo de papel de embrulho na mão.
“Agora?! Isso assim não tem piada!”, reclamava ela, que como eu digo, é uma chata do pior. Estava tão agitada que quase ia queimando o que estava ao lume. Não percebi muito bem o que era aquilo que lhe estava a acontecer, porque ela, ora ria-se, ora protestava e dizia que ele era pior que os miúdos e não sabia fazer surpresas, enquanto lhe batia e o fazia rir-se e depois o abraçava, numa demonstração completamente bipolar de sentimentos, embora houvesse um que se evidenciava no meios de todos os outros.
Com um brilho de excitação no olhar e o entusiasmo a percorrer-lhe todo o corpo – eu sei, porque o farejei – ele ainda lhe perguntou se ela não a queria receber já. Ela dá uns saltos ridículos na cozinha e volta a rir-se e a dizer-lhe que não, que a tradição é para cumprir e que certos prazeres devem ser adiados e retardados e blá blá blá. Já não estive para os aturar mais e fui dormir para a sala. Estavam tão melosos e parvos que já me estavam a dar náuseas.
Lembro-me da campainha a tocar várias vezes…
Das dezenas de pés a circular no meu castelo e das conversas e gargalhadas ensurdecedoras que fizeram a minha cauda abanar mais do que eu gostaria que ela abanasse – faz-me parecer um pateta alegre. É tão constrangedor!
Lembro-me de ouvir várias piadinhas de mau gosto que metiam “cu de chumbo” e “bacalhau”. Nenhuma delas teve piada. É pena que nenhum deles saiba apreciar a iguaria que é comer o próprio bolo alimentar e que é esse o único objectivo de o regurgitar. Cambada de analfabetos gastronómicos. Levaram a noite toda “Cuidado com a mesa!”, “Não o deixem aproximar-se do bacalhau!”, “Atenção ao aspirador fatal!”, “Vem aí a trituradora cabeçuda”. Pobrezinhos de espírito…
A minha ninhada de humanos pequeninos parecia ter andado a lamber restos de café das chávenas – como eu lhes ensinei – de tão elétrica que estava. Subiam e desciam as escadas a toda a hora, a dizer que iam procurar o gordo das barbas ao terraço. O tal do Pai Natal. Não sei como ninguém percebeu que ele esteve ali, connosco, o tempo todo, apesar de todos o chamarem de avô. O avô tem o cabelo muito branco, veste camisas aos quadrados, anda de mota (apesar de ter mais de oitenta anos), canta o fado, manda-se para o chão sempre que me vê – adora-me, claro – e brinca com a ninhada de humanos como se tivesse a idade deles, dizendo-lhes que o prato das azeitonas é a cordilheira das montanhas negras a serem atravessadas pelos “bonequinhos pequenos” da Lego. Um conselho a dar-lhe: não deixe que o “querido” veja o que andas a fazer aos bonequinhos da Lego dele, porque é capaz de se sentir mal.
No início do jantar, quando todos já estavam sentados a disputar travessas de comida, lembro-me do avô espreitar para debaixo da mesa, acenar-me com qualquer coisa e chamar-me sorrateiramente “bichaninha”. Tive uma síncope, no mesmo momento. “Bichaninha?! Mas que é isto, pá?! Eu, que descendo de uma linhagem viking, uma bichaninha?!”.
Depois ouvi dizer que ele chama aquilo a tudo o que é criatura da natureza. Gatos, cães, cavalos, vacas… Tudo “bichaninha”. Não é muito digno, em boa verdade se diga. É até um bocado humilhante chamar-se “bichaninha” a um macho da minha estirpe. Mas no fundo, é disso que se trata esta história. De como eu vendi toda a minha dignidade, na noite de Natal… Bastou que ele infringisse as regras e começasse a passar-me lascas de bacalhau por baixo da mesa, sem ninguém ver. Bacalhau, grão, sonhos, massa travestida de arroz doce… Foi o maior banquete da minha vida, patrocinado pelo avô Pai Natal dos “bichaninhas” o qual já não larguei até se ir embora. Desde esse dia, nunca mais fui o mesmo… O Natal é estranho. É bom e desconcertante. Como o querido chegar a casa sem prendas embrulhadas.
Ainda por cima, acho que ela me enfiou uns cornos de rena, não foi?
E posso garantir-vos, pela má qualidade de imagem, que este registo fotográfico não foi feito com a prenda que ele lhe deixou debaixo da árvore de Natal, na manhã seguinte.”

Dom Baltazar,
“lo bichaninha”

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