A rapariga do cabelo vermelho

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A rapariga fumava um cigarro encostada à parede do supermercado, frente ao parque de estacionamento, com um cabelo vermelho vivo que não passava despercebido a ninguém. Assim que a viu, a Maria apertou-me a mão e começou a sussurrar, com grande entusiasmo. Já perdi a conta às vezes que lhe disse que não deve segredar-me coisas à frente de outras pessoas. Peço-lhe que guarde na memória o que me quer dizer e que pode fazê-lo quando estivermos sozinhas. Claro, nem sempre tenho sucesso.
“Mas mãe, é ela! Não vês? É mesmo!”, insistiu, indiferente ao meu constrangimento. No entanto, não pude evitar sorrir perante o súbito fascínio da minha filha por uma estranha de expressão entediada que parecia depositar no cigarro todas as frustrações da vida e que talvez ansiasse estar num outro lugar que não aquele. Na verdade, a minha preocupação nem sequer tinha fundamento, pois ela não estava nem aí para o olhar curioso que a pequena lhe dirigia.
Seguimos para dentro da loja, onde fui enumerando tudo o que precisávamos comprar e ela foi recolhendo para dentro do cesto o que tínhamos na lista de compras. Na hora de pagar, havia apenas uma caixa aberta, e após algum tempo na fila abriram uma segunda. A funcionária que a abriu chamou-nos para sermos atendidas. “Vai desejar saco?”, perguntou-me num tom monocórdico, sem qualquer ponta de vida ou simpatia. Olho para ela e vejo, nada mais nada menos, que a rapariga do cabelo vermelho. A expressão entediada não tinha ficado lá fora. Permanecia no seu rosto, enquanto ela aguardava pela minha resposta ao mesmo tempo que mascava uma pastilha elástica.
“Não, obrigada.”, respondo-lhe.
Olho para a minha filha, que a observa atenta e timidamente, tentando represar o sorriso que começa a aparecer-lhe no rosto. Ao apanhar os meus olhos nela, desvia o olhar do meu, envergonhada. É então que decido dar voz à minha espontaneidade crónica – aquela que me faz falar com o coração, sem me preocupar se os outros me vão achar doida, a seguir. “Desculpe”, digo à rapariga, “mas tenho que lhe dizer uma coisa”. Ela pára de passar as compras e olha-me por cima da caixa registadora. O ar entediado desaparece, finalmente, mas para dar lugar à apreensão. Parece-me ligeiramente defensiva, enquanto aguarda pela questão da cliente. Provavelmente uma cliente chata, com perguntas chatas, sobre produtos ou promoções chatas que ela odeia vender.
“A minha filha está fascinada com o seu cabelo”, atiro sem pensar duas vezes.
A jovem franze o sobrolho, de estranheza, como se aquilo fosse a última coisa que estivesse à espera de ouvir.
“Sabe? Ela nunca pensou que a Ariel trabalhasse no supermercado!”, remato com divertimento, mas levando muito a sério a convicção da minha filha.
Ela começa então a rir-se, baixinho, parecendo aliviada e surpreendida, libertando toda a tensão que havia guardada nela e afastando por um breve momento o marasmo tristonho em que a vira da primeira vez, no parque de estacionamento. Pensativa, leva a mão ao cabelo. “ A Ariel… Pois é! A Ariel!”, disse, com uma pontada de saudosismo e alegria. Olhou para a Maria – que estava com um sorriso rasgado de quem estava muito contente com a nossa conversa completamente alucinada com uma estranha e nada ralada por ter uma mãe língua de trapos – e piscou-lhe o olho. “Já sei do que me vou mascarar este Carnaval. Já nem me lembrava o quanto gosto da pequena sereia… Ainda bem que me lembraste, pequenina.”
Não sei como lhe correu o resto do dia, mas uma coisa ficámos a saber, e da forma mais descomplexada possível: há sempre alguém, por mais carrancudo que nos pareça, que está apenas à espera que lhe relembremos que princesa da Disney pode ser. Nem que seja só no Carnaval. Ou na hora de trabalho.

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