Preparativos para as férias: as regras

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– Já sabem as regras – relembrei-os.
– Sim. – responderam em coro.
– Nada de saírem do pé do pai nem da mãe. Nada de falar com estranhos. Mesmo que vos apareça uma pessoa muito simpática a convidar-vos para irem ver cãezinhos e gatinhos ou para andarem de carrossel ou comerem gelados. Entendidos?
– Sim.
– E se aparecer uma rapariga muito gira e querida a dizer-vos assim: “Olá! Eu sou a Xana Toc-toc! Querem vir comigo brincar para a piscina?” – entoei com entusiasmo e um sorriso rasgado. – O que é que vocês respondem?
– QUE SIM!
– NÃO!!! – exclamei, exasperada. – Respondem que não! O que é que vos acabei de dizer? Mesmo que seja uma rapariga muito simpática e bonita que vos queira levar para a piscina, vocês não vão com uma pessoa que não conhecem!
– Ah…
– Prometam.
– Prometemos. Não vamos com pessoas que não conhecemos. – afiançou o mais velho.
Selámos o acordo e eu continuei com o coração nas mãos, embora querendo confiar no discernimento deles.
– E por último, nada de gritaria, brigas e queixinhas um do outro, o tempo todo. E nada de conversas parvas na piscina e no restaurante sobre cocós, xixis, puns, chulé…
Nisto, desataram os dois a rir. Era inevitável. Não podia pronunciar aquelas palavras sem despoletar neles um ataque de riso incontrolável. Riram tanto que se agarraram às barrigas, deitados para trás no sofá, e eu fiquei a aguardar que lhes passasse o ataque, com os braços cruzados sobre o peito e talvez um revirar de olhos maternal.
Incrível como esta fase parece não ter fim. Ainda as férias passadas os avisei do mesmo, com a diferença que passado um ano estão muito mais refinados e evoluídos. Aprenderam novas expressões escatológicas e a coisa subiu de nível (ou desceu, dependendo do ponto de vista).
No ano passado, de férias em Troia, levaram as regras à risca e nunca as violaram. Na piscina, fizeram amizade com um menino da mesma idade (quatro) que estava de férias com a família. Uma família convencional e cheia de preceitos, cujos fatos de banho das crianças eram rigorosamente combinados com os da mãe ou do pai, como se todos os dias fossem a uma sessão fotográfica da revista Caras sobre as férias em família. Contudo, apesar desta aparente harmonia entre pais e filhos que até usam fatos de banho iguais, nunca se ouviam manifestações muito efusivas de alegria ou infantilidade (nem de crianças, nem de pais). O pai passava o tempo a ligar para o escritório. A mãe passava o tempo a falar com as amigas sobre o aniversário da Carminho na piscina. A avó passava o tempo a ler no seu iPad. E o tio… bem, o tio passava o tempo a dormir na espreguiçadeira. As únicas vezes que os ouvíamos a dirigirem-se às crianças era para dizer: “Bernardo não corra”, “Bernardo não ande sem chinelos aqui!”, “Bernardo não se sente no chão”, “Bernardo venha comer a sua sandwich de chapata com sementes de papoila e peito de perú!”, “Bernardo não encha a toalha com migalhas!”. Por isso, quando o Bernardo fez novos amigos que falavam “criancês” como ele, foi uma alegria. Às vezes levava-lhes livros e lápis de cor para colorirem debaixo do chapéu, outras jogávamos ao dominó do Cars e numa outra o Indy inventou uma luta na piscina entre os crocodilos desdentados, tubarões gigantes e dinossauros aquáticos (não perguntem pormenores, mas eles adoraram).

Quando um dia se juntaram a brincar os três, junto da espreguiçadeira da distinta avó do menino, fiz figas para que os meus, já com à-vontade suficiente com o novo amigo, não começassem com as parvoíces do costume. Foi então que começaram todos a rir à gargalhada e muito alto e vi a senhora desviar os olhos do seu tablet para lhes lançar um olhar horrorizado e de reprovação. Pensei imediatamente “Oh não! Piadas do cocó. Piadas do cocó!”. Sabendo como eles podem explorá-las até à exaustão e de forma absolutamente inapropriada (ou nojenta), aproximei-me com um pacote de bolachas como pretexto de interromper a paródia.
– Olá! – sorri-lhes, assim como à avó de expressão pétrea. – Vamos dar sossego à avó do Francisco e fazer uma pausa para lanchar, pode ser?
Eles continuavam a rir-se que nem uns perdidos e então percebi que os meus filhos eram meros expectadores. Eles estavam a delirar, sim, não com as suas conversas sobre cocó, xixi e chulé, mas com a eloquente dissertação do menino Bernardo sobre caganitas. Sim, caganitas!!! Eu preocupada que os meus filhos fossem importunar a paz sobranceira da senhora e desvirtuar a educação irrepreensível do menino, e ele estava a contar-lhe a história do senhor Sanita que adorava papel higiénico e caganitas.
– Esta fase é terrível! Passam a vida com estas tolices… – justificava-se a senhora, com um ar super constrangido. Mas a verdade é que o neto dela tinha uma imaginação despudoradamente fantástica e também eu acabei a rir-me da história.
– Sim, eu sei bem como é. Mas não faz mal, que isto há-de lhes passar, um dia… Constatando a nossa descontração, a avó abanou a cabeça e também ela se riu, rendida às evidências: a de que crianças, serão sempre crianças, e é assim que devem ser encaradas. Para ser sincera, faço votos que esta alegria e pureza que os caracteriza e faz inventar histórias maravilhosamente criativas sobre o senhor Sanita não os abandone nunca, pois serão certamente adultos mais felizes.

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