Portugal-Polónia e um ataque de nervos

portugal polónia

Tenho uma coisa grave para confessar.
Ontem, renunciei às emoções do prolongamento do Portugal-Polónia, e as consequências foram uma tortura agonizante.
Foi isto que aconteceu…
A nossa terra está em festa, e como não podia deixar de ser, os miúdos querem ir para a festa. Todos os dias, a todas as horas, e até o sol nascer se possível. Aproveito que estou sozinha com eles, e vamos para casa dos meus pais, que têm não só toda a festa à porta de casa, como uma panela cheia de caracóis à minha espera (factor extremamente persuasivo).
Pela primeira vez, o meu filho descobre os prazeres secretos que existem num pires de caracóis acompanhado de um jogo da Selecção – evento ao qual ele nunca passou cartão – e desata aos gritos em frente à televisão “Não deixem os brancos maus marcarem golo na nossa baliza!”. Enquanto a irmã quer que ganhem todos os países para nenhum ficar triste, ele vê a coisa de uma forma mais belicista e prática: existem os bons (nós) e os maus (os outros), e os últimos têm que ser arrumados, ponto final. Eu, estou com ele.
Mas então, entre conversas perdidas, gente que entra e sai de casa, um boi que fugiu das largadas, pratos de caracóis para a frente e para trás e um empate que não sai da cepa torta, os miúdos perdem o interesse no jogo e, cansados, pedem-me para irmos embora. Sei que eles querem passear. Ver multidão e arraial. Sei que teremos de regressar a casa a pé porque durante as festas não se pega no carro. Sei que já é tarde e eles têm de se levantar cedo na manhã seguinte. Por isso despedimo-nos de todos e saímos porta fora, deixando o jogo para trás…
É então que, debaixo do arraial luminoso com flores de papel ao vento, com eles entusiasmados a segurarem-me a mão, parados diante da orquestra que tocava na Praça da República para um público mais reduzido do que os músicos realmente mereciam, começa a minha demanda na procura de uma tela gigante que me ponha a par do resultado do jogo. Mas se está tudo calado a roer as unhas na esplanada do café mais próximo, é sinal que continua tudo igual. E uns metros mais à frente, na esplanada seguinte, a mesma coisa. Aventuro-me então com eles nos pátios dos pescadores, para ver a decoração de cada um deles, organizada pelos moradores. Recantos adoráveis, onde as vizinhas ainda falam à janela umas com as outras e num grito se pede um limão ou raminho de salsa. É então que oiço um grito colectivo de alegria, e sem saber o que se passa, emito uma espécie de guincho de ansiedade enquanto levo as mãos à cabeça, morrendo de curiosidade. Não. Não devia ter deixado o jogo. Não devia ter ignorado aquilo que precisava, inegavelmente, de consumir até ao fim. E quando dou por mim, estou quase com a cabeça enfiada numa janela aberta de uma das casas, em busca de uma televisão. Já que as vizinhas partilham comida umas com as outras, podia ser que também me deixassem ver o jogo na televisão delas. Vislumbro um ecrã, mas não percebo o resultado.
“Vamos para casa! Estamos quase a chegar, só temos de andar mais um bocadinho”. – digo-lhes num tom de entusiasmo, a ver se os contagio com a minha urgência nacional em acabar de ver a Selecção.
A Maria acompanha-me, toda contente e sem qualquer dificuldade. Já o Salvador, segue vagaroso atrás de nós porque se distrai a matar dragões imaginários nas árvores com um balão que lhe ofereceram.
A rua onde estamos agora, já próxima da nossa casa, está deserta, ao contrário do que é costume em dias de festa. O país inteiro está com os olhos postos na Selecção, e eu ali, no meio da estrada, a incentivar as minhas crias a andar. Oiço outro grito e quase me descabelo toda, engolindo um chorrilho de palavrões.
“Por amor a Portugal, vocês mexam-me esses rabos ou eu vou enfiar-me no próximo café da esquina cheio de homens a beber minis e a tirarem restos de courato dos dentes com palitos enquanto mandam c@ralh@das para o televisor!”. Não. Claro que não foi isso que lhes disse. Nunca na vida! Acham?! (Mas apeteceu-me)
A nossa rua está já diante de nós. Faltam dez metros. Já estou um pouco ofegante mas quase carrego cada um deles debaixo do braço. Vou perder os penaltis. Já perdi os penaltis! Não se ouve nada na rua, aposto que perdemos. Raios partam os polacos! Ainda bem que não vi. Ainda bem que optei por passear com as minhas crianças. Devia ter deixado o miúdo matar mais dragões, pá!
Entramos no prédio. Subimos o átrio. Chamamos o elevador que parece mais lento que nunca e reparo, com preocupação, no silêncio em casa dos vizinhos. Quero acreditar que estão todos nas festas, sentados numa esplanada a ver o jogo, ao contrário de uma dissidente traidora como eu. Ponho as chaves à porta. O Baltazar manda-se para cima de nós, louco de alegria. Tento contorná-lo. “Não posso cão! Não te posso dar atenção! Valores mais elevados se impõem neste momento!” Ligo a televisão, e o som surge primeiro que a imagem, na voz de um comentador enlouquecido. “E É GOOOOOOOOOOLO! PORTUGAL NAS MEIAS-FINAIS!” Vejo então o Quaresma a correr relvado fora e desato aos saltos na cozinha, como se o sonho tivesse acabado de me ser devolvido. “GANHÁMOS!!!!! GANHÁMOS!!! GANHÁÁÁÁMOS!!!”.
À porta, o Baltazar e os miúdos olham para mim como se fosse uma fatalidade eu ser o único adulto por ali, para tomar conta deles.
“Ganhámos aos brancos!” – esclareço-os, da forma mais básica que me ocorre, e ao aperceber-se que derrotámos os “maus”, o meu filho desata aos saltos, ao meu lado, juntamente com o Cu de Chumbo.
Já a irmã, armada em embaixadora da boa vontade das Nações Unidas, qual Angelina Joli enjoadinha, encolhe os ombros e baixa o olhar, como se a paz mundial tivesse acabado de ficar comprometida num duelo de gigantes.
Que desmancha prazeres, pá!

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