Pinóquio

Pinóquio

– Quem é que comeu este pacote de bolachas de chocolate, todo, antes do jantar?! – pergunto, ao encontrar a embalagem vazia na mesa da sala.
Ela abre muito os olhos e depois aponta para o cão, acusatoriamente.
– Foi o Baltazar!
A dormir tranquilamente no tapete, ele abre um olho, sentindo que estamos a falar dele. Não aparenta nem ar de culpa, nem de satisfação por ter furtado mais uma iguaria dos humanos, e por isso retoma o sono dos inocentes.
– Não me parece que tenha sido o Baltazar…
– Foi, foi! Foi ele. – afirma, mordiscando a ponta do dedo, com um sorriso comprometido.
Com perspicácia materna, franzo-lhe o sobrolho.
– Sabes que mentir é feio, não sabes? Eu não gosto nada de mentiras. Nem grandes, nem pequeninas…
Ela enruga a testa, com a indignação estampada no rosto, como se eu estivesse a fazer a mais absurdas das insinuações.
– Eu não estou a mentir! Foi mesmo a Baltazar… A sério, mãe!
Resignada, encolho os ombros.
– Está bem. Vai ficar com uma grande dor de barriga, coitado. O chocolate faz muito mal aos cães.
– Pois é. – murmura, voltando a mordiscar o dedo. – Coitadinho do nosso cãozinho… – lamenta com um ar angelical.
– Mas ainda bem que disseste a verdade. Não ias gostar nada de ficar com um nariz gigante como o Pinóquio. Sabes que é o que acontece quando se mente, não sabes?
Ela olhou para mim seriamente, com uma súbita preocupação no olhar. Depois virou a cabeça para a frente e ficou petrificada, a olhar para a Doutora Brinquedos na televisão.

Desde então, tem ido ver o nariz ao espelho de dois em dois minutos e apalpa-o e examina-o meticulosamente de todos os ângulos. Curioso como nesse tempo todo ainda não se lembrou de limpar a boca, suja de chocolate até às bochechas.

Pinóquio

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