Pelo Direito a Brincar

pelo direito a brincar

Hoje, estava na fila do supermercado, quando atrás de mim apareceu um menino, a chorar, e respectiva mãe.
Então, perante a lamúria do menino, a mãe ainda lhe deu um puxão pela mão, “consolando-o” num tom de voz audível até ao talho:
– Bem-feita! Eu não te avisei para não andares a correr?! Agora magoaste-te e é bem-feita! E se voltas e correr e a cair, ainda apanhas por cima que é para aprenderes!
Pimba! Logo assim, que miminhos é para meninos e não para homens de quatro anos!
E ela continuou:
– És parvo tu! Eu avisei-te, mas não fazes nada do que eu digo! Só queres é fazer tudo como bem entendes! Queres é andar a correr!
Realmente com quatro anos, ele devia era estar a meditar sobre o aumento de impostos ou no que ia fazer para o almoço.
O menino continuava a chorar, muito baixinho e sem sequer responder. Nunca levantou a voz ou foi malcriado, mas nem isso embrandeceu a progenitora.
– E para a próxima nem te trago comigo! Ficas fechado em casa, que é onde tu estás bem. Agora cala-te!
– Mas… eu estava só a fazer uma missão! – Defendeu-se por fim, e o meu coração derreteu! Aquele argumento era suficiente para arrumar qualquer pessoa. Uma missão! A criança estava a usufruir do seu direito de ser, simplesmente, criança. Estava a brincar, que é algo que muitos adultos se esquecem ou desistem de fazer, ao longo da vida.
– Qual missão, qual missão! Deixa-te de parvoíces! Agora cá missões… – ridicularizou a mãe.
Foi então que aquilo começou a mexer-me com os nervos.
Virei-me para a mulher e tive que morder a língua umas três vezes para evitar que a minha causticidade letal saísse disparada em direcção a ela.

Foi o miúdo quem olhou para mim, ainda de lágrimas nos olhos e estive quase a cometer o delito de roubar um chupa para lhe dar. Limitei-me a piscar-lhe o olho e a sorrir-lhe. Mas o que me apetecia, era dizer-lhe: “Miúdo, superaste a tua missão como ninguém! És filho de uma mistura da Cruella de Vil com o Grinch. És um herói! E agora, vamos amarrá-la à caixa multibanco e comer montes de gomas e chocolates antes do almoço!”. – Mas depois, uma voz frustrou-me os planos de resgate da infância, quando me perguntou: “Tem cartão de cliente?”.

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4 Comments

  1. Acabei de descobrir o teu blog a partir do twitter, e acabei por ler este post. Simplesmente adorei, fiquei agarrada ao ecrã até chegar ao fim da página. Vou subscrever 😀

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