Os senhores das couves de Bruxelas

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Hoje de manhã, quando cheguei à cozinha e liguei a televisão enquanto eles se sentavam à mesa para tomar o pequeno-almoço, não consegui disfarçar o choque e calar a fúria que senti ao ver mais uma vez a Europa ajoelhada perante o carrasco do costume. Acho que me zanguei com a televisão, como se ela pudesse ouvir e guardar os meus lamentos, e perante a minha a indisfarçável indignação o meu filho levantou-se para olhar para a minha cara.
Intercalei o olhar entre os carros da polícia, as pessoas em pânico a fugirem do aeroporto e os olhinhos intrigados pousados em mim que me pediam para tirar do telejornal e pôr no Canal Panda. Acenei para que ele me deixasse ouvir e ele perguntou:
– Mas o que é que aconteceu?
– Queres leite com chocolate ou Nestum? – questionei, tentando mudar de assunto.
– Mãããe! – entoou, como faz sempre que não lhe respondo ao que ele quer. – O que estavas para aí a dizer? Porque estão ali aqueles carros da polícia todos?
Olhei para ele, tão curioso e atento, e percebi que no espaço de um ano já me tinha feito aquela pergunta pelo menos três vezes, em alturas diferentes, mas todas elas no mesmo contexto: a minha consternação diante o terror inexplicável provocado por uma espécie de sub-humanos que infelizmente habitam o mesmo planeta que nós. Desta vez, por algum motivo, não lhe consegui mentir nem florear a realidade.
– Foram uns homens maus que fizeram explodir umas bombas… Em Bruxelas.
– E mataram pessoas?
Engoli em seco.
– Sim.
Ele virou costas e foi sentar-se, à espera do Nestum, confiante que a polícia captura sempre os homens maus.
Contudo, no momento em que lhe vestia o casaco e passava os dedos pelo cabelo, senti novamente os seus olhos pousados em mim.
– Oh mãe, eu estou preocupado com uma coisa.
– Sim filho…
– Que os homens maus tenham matado o senhor ou a senhora que vende as couves de Bruxelas. Depois como é que podemos voltar a comê-las?
Regra geral estas tiradas deles fazem-me sempre rir, mas hoje senti um murro no estômago. Hoje, vi o meu filho ganhar consciência de algo que sempre temi que passasse a fazer parte do nosso dia-a-dia, pela banalidade com que pudesse começar a ocorrer. Senti um murro no estômago porque a sua inocência não combina, de todo, com a atrocidade que chega até nós pelas notícias. A sua pureza, ingenuidade e preocupação com os senhores das couves de Bruxelas não combinam com o mundo que ele vai herdar. E isso deixa-me de rastos…

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