“O que é estar apaixonado?”

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Estava eu a deambular pelos meus livros de receitas à procura de algo novo para o jantar, quando ele se sentou ao pé de mim com o seu T-Rex favorito, e o ar mais inquiridor do mundo.
– Oh mãe, o que é estar apaixonado?
Isto é daquelas perguntas que nos obriga a parar o que estamos a fazer e a focar o olhar neles, analisando a seriedade da pergunta e o interesse pela resposta. Se ele perguntasse apenas o que era o jantar, se eu vira o seu triceratopo ou se podia tirar uma bolacha da lata, não havia necessidade disso. Bastava-me responder “Ainda não sei. Em cima da cadeira. Só uma, porque vamos jantar não tarda nada”. Mas ele colocara uma dúvida de importância universal, no exacto momento em que me encontrava perdida entre a receita de massa com frango e pesto e a de rosti de batata com salmão.
– Então? O que é estar apaixonado? – insistiu com aparente urgência.
– Estar apaixonado é gostar muito, muito de alguém, e querer estar sempre com essa pessoa e querer contar-lhe tudo, e mostrar-lhe coisas novas, e ir com ela a todos os sítios… E dar-lhe beijinhos e abraços e assim… Como os namorados fazem. – Senti-me um bocadinho estúpida depois da explicação simplista, confesso. Mas pensei que seria o suficiente para alguém com cinco anos.
– Ah… Então, eu sou teu namorado!
– Não, filho. O pai, é que é o meu namorado.
– Então sou namorado da Maria?
– Também não. Vocês são irmãos. Os irmãos são amigos, mas não são namorados.
De facto, as deduções da criança eram todas pertinentes. Tudo o que acabara de lhe enumerar era possível de se fazer e sentir por pais e irmãos. Tinha-me esquecido de enumerar os sintomas físicos da paixão… Mas não me ocorriam nenhuns aconselhados ao pré-escolar.
– Não tens nenhuma amiga preferida, lá na tua escola? Uma com quem gostes muito de brincar? Uma que te faça ficar muito feliz só de a veres?
– Ah! Tenho a Bia.
– Ah, sim? Boa! E é ela a tua namorada?
– Não sei… Porque também tenho a Margarida, a Inês, a Leonor…
– Mas só podes namorar com uma. (Claro que esta resposta teria sido completamente diferente, se ele estivesse a conversar com o pai.)
– Só uma?! – exclamou, muito chocado.
– Sim.
– Mas eu gosto de todas!
Sorri e abanei a cabeça, desconcertada com o comportamento tipo, e concluindo que não tardava muito para ter que lhe explicar, também, o que era viver numa sociedade monogâmica (pelo menos aparentemente).
– Está bem. Podes gostar de todas. Mas não podes estar apaixonado por todas! Deve haver uma com quem gostes mais de brincar… Se namorares com todas, elas vão ficar chateadas e além disso, nenhuma se vai sentir especial para ti. Tens que escolher uma.
– A Margarida dá-me a mão quando vamos na fila do almoço. A Inês quer que eu seja sempre o pai quando brinco com ela às casinhas. A Leonor empresta-me as canetas dela. Mas a Bia brinca comigo aos T-Rexs. – e lançou-me um olhar de caso muito revelador.
– Ah… E brincar contigo aos T-Rexs é uma coisa muito especial, não é? – pisquei-lhe o olho.
Ele aproximou-se e sussurrou-me ao ouvido.
– E ontem ela deu-me um beijinho que até o meu cabelo ficou em pé e com corações.
Ri-me. Era aquela descrição chave que me estava a faltar.
– Então e ainda não escolheste?!
– Hum…
Torceu o nariz, apertou os lábios, e seguiu-se um momento de silêncio e meditação profunda.
– Sabes mães, acho que vou só brincar com os meus amigos rapazes, aos dinossauros. Pode ser?
– Claro que pode. – e sorri-lhe a pensar para comigo mesma “É isso filho! Mostra como a lógica masculina se manifesta logo aos cinco anos de idade. Até porque daqui a uns anos, os dinossauros serão apenas imperiais espalhadas na mesa de um bar, onde na companhia dos teus amigos rapazes, facilmente se adiam as escolhas difíceis entre “Margaridas”, “Bias”, e “Leonores”.
Mas já agora, em caso de dúvidas futuras, quando o primeiro nome que te ocorre é o da que brinca contigo aos T-Rexs e ela até te deixa o cabelo em pé com corações, acho que não precisas perder mais tempo a matutar no óbvio.

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