O Melhor Trabalho do Mundo

Mãe a tempo inteiro 5

Naquela altura estava a viver um sonho que nem todas as mulheres têm oportunidade de concretizar. E todos os dias me sentia grata por isso. Pelo melhor e mais gratificante trabalho do mundo. E sentia-me muito competente a executá-lo. Era insubstituível (achava eu). Tão insubstituível que estava disponível vinte e quatro horas por dia. Não queria perder nada, pois cada pequena vitória deles, era minha também. As primeiras gargalhadas, as primeiras gracinhas, as primeiras palavras, os primeiros passos… Tinha estado lá em todos eles. Da mesma forma que tinha estado lá a cada noite em claro, a cada birra, a cada papa cuspida, a cada febrão, a cada tombo. Um trabalho a tempo inteiro sem qualquer remuneração, sem promoções ou elogios do chefe, sem uma competiçãozinha aliciante e salutar entre pares, sem períodos de descanso ou hora de almoço – até porque me esquecia de almoçar, com frequência. Tomar duche sem assistência, então, era uma utopia.
Numa idade em que muitos ainda estão à procura de afirmação profissional, à procura de casa, à procura de um amor que valha a pena ser vivido, à procura de bilhetes para os festivais de Verão e quais os melhores hostels na Europa para as férias, eu tinha cometido essa grande loucura de ter sido mãe. Duas vezes! E foram algumas vezes que ouvi, num aparente tom jocoso ou até de menosprezo: “Então agora estás sem trabalhar, não é? Grandes vidas, sim senhor! O diazinho todo em casa, sem horários nem obrigações…”. E confesso que houve vezes que, após tão lisonjeadoras considerações daqueles que só observam de fora, limitei-me a esboçar um sorrisinho amarelo enquanto na minha mente só me conseguia imaginar a esfregar-lhes um babete bolsado na cara ou uma fralda suja na camisa engomadinha. Oh sim, conjecturei inúmeros actos de retaliação com artilharia pesada de puericultura, aos que desrespeitosamente insinuavam que mães a tempo inteiro são uma sub-classe de dondocas que não trabalham. Mas com o tempo, apercebi-me que me estava pouco borrifando para isso e que não valia a pena perder tempo a explicar que enquanto eles, depois de almoço, se sentavam na esplanada para beber um café com os colegas, a debater o estado do país, a discutir futebol, a planear a próxima saída de Sábado à noite e a tentar decidir qual das jeitosas da contabilidade iriam convidar para sair (conversas de adultos, portanto), eu estava a mudar mais um babygrow vomitado, ou a tentar convencer que o bacio não morde, ou a arrumar pela milésima vez os brinquedos no caixote, ou a fazer dois tipos de sopas diferentes porque apesar de próximos, a bebé ainda não comia o mesmo que o mais velho. E também não me dava ao trabalho de explicar que o café que costumava beber era aquecido várias vezes no microondas, não por gostar dele a escaldar, mas porque as interrupções enquanto o bebia eram tantas que ele ficava frio mais que uma vez – tantas canecas com café esquecido encontrava eu pela casa.
E são muitas as palermices que temos de ouvir, como se fossem verdades absolutas:

“Podes dormir até tarde! Não és escrava do despertador como nós. ” – Mal sabem eles que muitas das vezes vemos o sol nascer, com o nosso rebento a bater palmas ao crepúsculo e nós com umas olheiras até ao queixo a sonharmos com a nossa cama, sabendo de antemão que não voltaremos lá tão cedo.

“E podes passear durante todo o dia…” – Sim, principalmente se fores mãe de um que ainda não ande e o outro te fuja para todo o lado; demoras quase duas horas a ter tudo pronto e quando te preparas para sair de casa, já um adormeceu no sofá porque acordou às 5.30 da manhã.

“E eu trocava a minha cadeira do escritório pelo teu sofá, onde deves passar o dia a ver filmes” – Claro, principalmente todas as temporadas do Ruca e da Casa do Mickey Mouse. Não te atrofia o intelecto nem nada.

Mas afinal, que importância podem ter os comentários depreciativos ou os juízos de valor alheios, quando se vive o sonho da maternidade em pleno? Que importância podem ter os ecos do mundo, quando constróis para ti uma redoma de amor e afectos que relativizam tudo o resto? Que importância tem o teu café frio e as concepções erradas dos outros, quando exerces o mais gratificante trabalho do mundo, para ti?
Sim, é verdade que também houve alturas em que senti vontade de fugir sozinha para a esplanada mais próxima. Senti saudades das conversas de adultos durante o dia, de me aperaltar enquanto mulher e não enquanto mãe, de ter algo mais aliciante para fazer do que tentar dar banho a dois sem escorregar no chão molhado da casa de banho. Mentiria se dissesse que era sempre gratificante, sempre fácil, sempre doce. Mas qualquer gosto amargo depressa desaparece quando eles esticam os braços e se aninham no nosso colo. O caos que plantaram na cozinha, perde a importância diante da sua alegria a baterem palminhas ao construírem uma torre de panelas e tupperwares. As olheiras – aquelas que me chegam até ao queixo – são legitimadas pelos seus terrores nocturnos ou pelo dentinho que desponta e massacra mais à noite, porque só o abraço e a voz da mãe podem acalmar as inquietudes da madrugada. E foi por tudo isso, nessa fase tão única e fugaz da vida de uma mulher, que eu percebi que não trocava a sweater suja de sopa, pelo outfit mais elegante do meu roupeiro. Não trocava uma refeição sentada no chão da sala, coberto de blocos de construção, por uma pacata hora de almoço com colegas, na cantina. E também não trocava o meu café frio, retemperado e desenxabido, tomado entre sessões do Canal Panda, birras e abraços babados, pelo melhor expresso do mundo no rooftop mais in do momento. Até porque teria tempo para lá ir. Ao contrário desta fase preciosa, que nunca mais a voltaria a viver.
Sim, tinha o melhor Trabalho do mundo, e naquele momento – naquele momento muito específico da minha vida e que tive a sorte de viver até à exaustão – não havia outro lugar onde me fizesse mais sentido estar.

Mãe a tempo inteiro2

 

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6 Comments

  1. Estas palavras merecem ser lidas, partilhadas e rejubiladas!
    Quem me dera ser mãe a tempo inteiro…
    Nunca soube muito bem o que queria ser na minha vida. Fui mãe e hoje tenho a certeza, este é o meu papel! Parabéns 😉

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    • Obrigada Rabiscos de Amor! :) É uma experiência inesquecível e muito enriquecedora. É pena que o nosso país não dê condições às mulheres para a poderem viver em pleno, se assim o desejassem. É quase cruel e antinatural, sermos obrigadas a deixar os nossos bebés, tão pequeninos e dependentes de nós, ainda, para retornarmos ao trabalho e podermos pagar as contas. É por isso que as mães que trabalham fora de casa e se conseguem desdobrar em mil, são verdadeiras heroínas. E no final de contas, todas somos mães a tempo inteiro. Desde o momento em que eles passam a fazer parte de nós. :)

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  2. Gostei muito do texto. Felizmente também tenho o melhor trabalho do mundo. Conseguiu exprimir o que é, o que sentimos e a beleza deste trabalho que não trocamos apesar do cansaço pois é mega compensador. Parabéns!!

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