O canto da neve

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Receando que o tempo piorasse, decidimos ir até à torre antes de pararmos no hotel. Não queria que eles achassem que a neve que lhes prometíamos se reduzia aos montinhos brancos acumulados à beira da estrada, mesmo que para eles fosse mais que suficiente. Por eles, nós ficávamos logo ali, a aproveitar aquela dádiva da natureza que não passava de uma escassa amostra. Um confetti perdido, quando a verdadeira festa decorria mais acima.
Foi após passarmos o centro de limpeza da neve de Piornos que o espetáculo começou. i6É aí que a montanha começa a exibir toda a sua majestade. É aí que começamos a sentir-nos mais pequeninos e envolvidos pela imensidão dos vales e dos picos cobertos de branco. E é aí que as agrestes rochas começam a parecer doçaria de Natal polvilhada de açúcar em pó. Ou claras em castelo. Ou chantilly sobre trufas de chocolate!i12 Sim, foram todas essas as analogias que usámos para os fazer rir e sonhar, enquanto observavam a neve pela janela do carro ao som de Claire de Lune, de Debussy – mania minha em providenciar bandas sonoras às memórias, para que elas sejam mais ternas e duradouras, assaltando-nos a mente e o coração quando menos esperamos, apenas ao ouvirmos aqueles acordes que nos levam a um lugar só nosso.

Chegando à torre, o nevoeiro adensa-se e a chuva transforma-se em gelo. Não, não é neve ou granizo e sim uma precipitação de farpas congeladas que batem ameaçadoramente nos vidros do carro ao embalo de rajadas supersónicas de vento ártico. Diante daquele cenário digno d’O Dia Depois de Amanhã, a minha sugestão é apenas uma:
– Ok. Está visto. Vamos embora.
Segue-se um prolongado e enfático “Oh mãe! Mas não ainda nem vimos a neve de perto!”.
Sim, eles tinham razão. Ver neve apenas pelo vidro não tinha graça nenhuma se não lhe podíamos tocar e brincar com ela. Aquilo era uma tortura para eles, mas por algum motivo parecia-me que irem parar a Manteigas, soprados pela ventania gelada, seria bem pior.i13
– E sairmos só cinco minutos? Depois voltamos logo para o carro – sugere o pai, olhando para mim e depois para eles, num óbvio complot entre os três.
– Sim! Vá lá, mãe! Só um bocadinho! – pedincham eles.
– Sim, mãe! Só um bocadinho! – imita o pai, com ar de gozo.
– Está bem!
Gritaria comemorativa da parte dos petizes.
– Mas temos a roupa da neve lá atrás. E as botas deles também.
– Não há problema. Vou já buscá-los. – diz ele, abrindo a porta para levar com a tempestade em cima.
Depois de alguns minutos a equiparmo-nos e a encasacar os miúdos, lembro-me que eles não têm luvas para a neve, e ele volta a sair para as ir comprar a uma das lojas perto da torre.
Confesso que durante o tempo que estivemos à espera e eu aquecia as mãos no ar-condicionado, sonhei que ele surgiria com meia broa de milho, queijo da serra e presunto. Afinal, era uma boa forma de se passar o tempo enquanto o clima não melhorava. Mas quando abriu a porta, de carapuço na cabeça e a pingar por todo o lado, e mandou o saco para o meu colo, vi que só lá vinham as luvas.
– Quinze euros! Quinze euros por dois pares de luvas de criança made in China, inflaccionadas por serem vendidas no ponto mais alto de Portugal continental! O chinês da nossa rua vendia-me isto a metade do preço! – reclama ele, com o casaco a escorrer água e a molhar-lhe o banco e o volante, o que o faz emitir um cavernoso rugido de irritação que me provoca um ataque de riso.
A chuva e o vento abrandam, repentinamente.
Viro-me para trás, de joelhos sobre o banco, e coloco-lhes os cachecóis e os gorros. Uma aptidão extraordinária desenvolvida por quem tem de vestir, despir, limpar ou alimentar a tripulação do banco de trás sem sair do habitáculo. Contudo, para lhes enfiarmos as luvas foi um pouco mais complicado, principalmente até que os dedinhos deles encontrassem o compartimento certo, e antes que eu começasse a reclamar do tamanho das luvas, onde em cada dedo das mesmas cabiam dois dos deles, ele olha-me de soslaio e adianta-se:
– Não havia um número mais pequeno! Só essas.
– Estão perfeitas! – gritam eles, entusiasmados com o novo acessório e ansiosos que os liberássemos do carro.
Assim que abrimos as portas e os ajudamos a sair, percebemos que o abrandamento do mau tempo não passou de uma ilusão. Um truque de mau gosto para frustrar os visitantes que desconhecem o clima temperamental da montanha.i3
O vento bate a minha porta com força e quase me leva o gorro. Eles vão pisando o gelo duro e escorregadio em passadas tímidas, mas depressa se assustam com a ventania que nos doma o corpo e sopra aos ouvidos. Assustados, esticam-nos as mãos para que os seguremos. As farpas congeladas voltam à carga e parecem retalhar-nos a pele do rosto. E depois de tanto tempo a vestirmo-nos para sair, acabamos a voltar para dentro do carro, derrotados.i4

Na sua cadeira, ele choraminga, zangado e dramático, que nunca mais vai conseguir ver neve na vida. Ela, está assustadoramente calada e quieta, com os cabelos desgrenhados colados às bochechas molhadas. E nós os dois entreolhamo-nos, em busca de uma solução, concluindo que está na hora de conhecermos o hotel.
Ao descermos, vou olhando para trás, tentando arrancar-lhes um sorriso, mas se um está inconsolável por não poder brincar na neve, a outra parece traumatizada com o nosso breve encontro com a intempérie (ainda que o aparente trauma atinja proporções cómicas). Vejo-a passar os dedos no rosto enquanto se olha no espelho retrovisor, a medo, e de repente percebo porque ela está assim. Porque me ouviu gritar que sentia a chuva gelada a cortar-me a cara, um momento antes de entrarmos no carro. Não sabendo ela o que é uma metáfora e acreditando piamente em tudo o que digo, concluo que ela pensava mesmo que tinha a cara cortada.
– Está tudo bem filha! A tua cara está linda! É só uma expressão. Uma maneira de falar para dizer que está tanto frio que até nos dói, mas não significa que esteja mesmo a cortar-nos, percebes?
Ela acena com a cabeça e depois começa a fungar e cede ao choro. Não de susto, mas de alívio. E depois já é de pena, por não poder brincar. E no fim sei que é apenas cansaço, que a viagem já vai longa.
Para lhes reduzirmos a mágoa, vamos sugerindo brincadeiras que podemos fazer no hotel, mas eles estão “irrevogavelmente desgostosos”, olhando a paisagem intocável pela janela. Então o pai, que arranja sempre solução para tudo – sobe inclusive ao cume mais alto, embrenhando-se na tempestade glaciar mais agressiva para comprar luvas made in China para que eles possam fazer construções na neve – pára o carro na berma da estrada, num acolhedor recanto da serra coberto de neve.
– Bora! Todos lá para fora brincar! – diz ele, decidido, mas averiguando o humor do céu pela janela.
Os gritos de alegria ressoam automaticamente e assim que pisam a neve – e aqui, esta é verdadeiramente fofa e não um piso de gelo escorregadio – as gargalhadas ecoam nas rochas graníticas, como se elas nos retribuíssem o júbilo.
O tempo amainou como que por magia, dando uma trégua a estes pais que fugiram da rotina, por dois dias, com a promessa de levar os filhos a fazer anjos na neve, tal como veem nos desenhos animados. E sentimo-nos gratos por termos a montanha e natureza a colaborarem connosco, nem que seja por um bocadinho.


Sem ser um limpa-neves, que contribuiu fortemente para o entusiasmo do rapaz, não se vê mais nada nem ninguém. Somos só nós e a serra. Só nós e o silêncio, a imensidão, a liberdade, e o ar que de tão puro nos entra peito adentro, como que purificando corpo e mente… Olhando para tudo aquilo, enquanto a minha família constrói finalmente um boneco no meio das rochas, entre anjos de neve, risos e histórias sobre o Olaf e a rainha Elsa de Arendelle, sinto-me tão leve e solta como o floco de neve que vejo pairar à frente do meu nariz. E é aí que percebo que está a começar a nevar. Primeiro timidamente, para depois se transformar num verdadeiro nevão. Flocos e mais flocos de neve, delicados mas intrometidos, caem sobre as nossas cabeças, num momento absolutamente mágico, deixando-nos a todos loucos de euforia (já vos disse que nestas alturas parecemos ter todos a mesma idade?). Foi aí que fiquei a conhecer o canto da neve, quando ela cai. “Que disparate! E a neve lá canta quando cai!” – dir-me-ão alguns. Mas canta! É algo que se assemelha a um ténue estalido misturado com o chiado da esferovite. Sim, era esse o som que ela fazia ao cair sobre nós, e sobre a estrada e principalmente sobre o carro, quando se tornou incomportável continuar debaixo dela. Uma nova melodia da natureza, que eu nunca ouvira antes, mas que continua bem presente na minha memória ao fim de uma semana.i2
– Podemos levar o boneco de neve connosco? – pergunta-me ele.
– Não… – respondo, adivinhando que essa resposta não lhes chegará.
– Oh! Porquê? – pergunta ela.
– Porque vai derreter pelo caminho.
– Ligamos o ar condicionado para o frio!
– Os senhores do hotel não nos deixam entrar com ele.
– Entramos com ele às escondidas. Tapamo-lo com os nossos casacos!
– Os bonecos de neve não gostam de casacos. Eles gostam do frio, do vento e da neve a cair-lhes em cima. – explico-lhes – A casa dele é aqui, na serra. E logo à noite, ele vai ficar muito sossegadinho, a ver a lua e as estrelas e a pensar na sorte que teve em terem aparecido uns meninos que lhe deram uns olhos para ele as poder ver.
– E um nariz e uns braços e uma crista de ervas?
– E um nariz e uns braços e uma crista e ervas.
Ele encolhe os ombros, resignado. Ela faz um beiço e despede-se com os olhinhos brilhantes de emoção.
– Adeus Olaf. Logo a Elsa já te faz uma visita.
E partimos de coração cheio e alma transbordante, em busca de um banho quente e um aquecedor onde lhes secar a roupa.
Ah! E broa, queijo e presunto serrano também 😉

 

 

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