O mais novo membro da família

O sacana4

Lembro-me que quase não dormi nessa noite. Lembro-me que estava ansiosa e entusiasmada como uma autêntica criança. Lembro-me das conjecturas que não conseguia parar de fazer: “e se não conseguirmos escolher um? E se não houver nenhum que nos escolha? E se não gostarmos de nenhum e nenhum gostar de nós? Será melhor escolhermos um mais atrevido ou um mais pachorrento? Se calhar um pachorrento não estraga tanto! Mas um atrevido é mais engraçado! Não vou conseguir escolher… Já sei. Vou querer ficar com todos!”. E na sequência da cascata de dúvidas, lembro-me do sorriso dele às minhas questões estapafúrdias e do seu tranquilo e simplista “Quando lá chegarmos, logo vemos”. Claro, quando lá chegarmos, logo vemos. Mas para isso ainda falta uma noite! Uma noite em que me sinto com oito anos, à espera de receber aquele presente tão desejado na manhã de Natal.
Levei alguns meses para o convencer a embarcar nesta aventura. E mais dois meses para que chegasse este dia, distraindo-me da espera em pesquisas pela internet sobre como educar um cachorrinho. E hoje, finalmente, íamos buscar o mais novo membro da família.
Acho que fui aos saltinhos no lugar do pendura. Ou a bater os pés, enquanto impulsionava as pernas para cima e para baixo. Ou a mudar incessantemente as músicas no rádio, porque na realidade, não me apetecia ouvir nenhuma em especial. Só queria chegar lá! O mais depressa possível.
Lembro-me do sol. De como a manhã estava luminosa, o céu azul e o ar frio, naquele primeiro dia de Novembro.
Chegando lá, sentámo-nos com o criador para uma conversa útil sobre os cuidados a ter, regras a incutir, características da raça, truques para ensinar a ir ao jornal, a brincar, a saber ficar sozinho, para comer. Nunca me canso de falar nem de ouvir o senhor Cansado. Ele, que é um verdadeiro apaixonado pelos seus cães e cujo carinho e preocupação se sentem em cada conversa, em cada encontro, em cada afago que lhes faz no lombo. Gestos simples que nos revelam quando estamos diante de verdadeiros amantes de patudos e não de “criadeiro”, preocupados apenas em lucrar com cachorros-presente. Nessa manhã de Novembro, depois de todos os conselhos que nos podia dar, olhou para mim e sorriu.
– Aposto que nem dormiu esta noite. Tem os olhinhos a brilhar como as crianças que vêm cá com os pais!
Ri-me, ao mesmo tempo que senti a cara aquecer.
– Descanse, que não vou fazê-la sofrer mais. Vou já buscá-lo. – levantou-se e saiu porta fora.
“Vou buscá-lo?!” Mas então, não íamos escolher? Não ia ter que olhar para uma ninhada amorosa e passar pela torturante missão de optar por um?
Confusos, olhámos um para o outro enquanto esboçávamos um sorriso expectante. Bati com o pé no chão, levantei-me, dei mil voltas sobre o chão de tijoleira, mexi no cabelo outras mil, até que ele entrou com uma bola de pelo anafada, ao colo. Uma mancha preta de orelhas descaídas e um focinho capaz de me arrancar um gemido piegas do fundo da garganta. Assim que olhei para ele soube que não precisava nem queria a possibilidade de escolher outro cachorro. O nosso, estava ali. Saltitava no chão, atrás de mim, brincando com os atacadores dos meus ténis de lona, como se aquela fosse a coisa mais divertida e intrigante que tivesse visto nos seus dois meses de vida.
Chegando a casa, tentámos pôr em prática os conselhos que tínhamos recebido: “Deixem-no sozinho algumas horas para se habituar ao espaço, sem a vossa companhia. Isso vai fazer com que fique mais calmo, durante a noite, quando se forem deitar”.
Não foi fácil. Não por ele, mas por nós. Não queríamos deixá-lo! Queríamos brincar com ele, como dois miúdos que tinham acabado de cumprir um sonho de crianças. Quem é que pode ficar indiferente a um cachorrinho trapalhão que só quer brincar com os atacadores e dormir em cima dos nossos pés? Contudo, a palavra do Sr. Cansado era lei, e lá o deixámos sozinho enquanto embrulhávamos um caixote de papelão com papel de Natal da Popota, na preparação daquele que seria o momento alto do dia, e do ano. E quem sabe até, de toda uma infância. É quando temos consciência que estamos prestes a criar memórias felizes aos nossos filhos, que a tarefa se torna mais aliciante, e damos por nós com um frio na barriga e risinhos parvos de entusiasmo. Risinhos esses que se intensificaram quando a campainha tocou, anunciando a chegada deles a casa. Juro-vos que naquele momento, ambos parecíamos dois tontos a rir e a correr de um lado para o outro, a esconder os vestígios como os sacos de ração, a manta onde ele tinha vindo enrolado ou os restos de papel de embrulho. E garanto-vos que a conversa que se sussurrou a um ritmo frenético enquanto eles subiam no elevador, foi mais ou menos esta:
– Leva-os para a sala que eu vou buscar o cão.
– Mas tens que o pôr dentro da caixa!
– Então dá-me a caixa!
– Cuidado a transportá-la! Ele é pesado. Ainda a fura quando estiveres a carregá-la!
– Qual é a palavra-chave?
– Para quê?
– Para entrar com o cão! Tenho que saber qual o momento de entrar!
– Digo para eles fecharem os olhos e abrirem só quando eu disser. Tens que ser rápido, que eles não vão aguentar muito tempo!
Nisto, eles empurram a porta com um estrondoso “Olá!” e nós quase morremos de susto, como se tivéssemos sido apanhados a conspirar um plano diabólico contra a nação.
Levo-os para a sala, entre abraços e beijos e perguntas sobre o que estiveram a fazer na casa da avó – que assiste a tudo com um sorriso na cara – e o pai vê uma oportunidade para se pirar para a cozinha, com o caixote.
E claro, com não podia deixar de ser, eles não estavam a agir como era suposto. Quanto mais eu pedia, mais o Salvador se recusava a fechar os olhos. Insistia que tinha coisas mais importantes para fazer. Enquanto o convencia a esperar um pouco e a fazerem-me a vontade, ouvia uma voz exasperada no corredor, a resmungar “Então?! Já não aguento mais! O cu de chumbo vai furar o caixote! E já está a comer as Popotas!”.
Uma pessoa bem se empenha para que tudo corra na perfeição, para que seja a surpresa perfeita, o momento perfeito, a memória das memórias, que aqueles minutos sejam saboreados e retardados, quase como que em câmara lenta, e depois ninguém quer colaborar! Ocorre tudo de rompante, abruptamente, comigo a gritar “Fechem os olhos! Fechem os olhos agora, que vem aí uma surpresa!” e eles a fecharem quase de susto porque a mãe ensandeceu e está estranha desde que eles chegaram a casa e não sabem muito bem o que se está a passar e o pai pergunta ansioso, no corredor, “Mas posso entrar? Estás a filmar?” e depois entra com algo que pousa à frente deles e autoriza-os, finalmente, a abrir os olhos e a descobrir o que tem estado a consumir e a enlouquecer os adultos daquela família. E então eles espreitam e sobressaltam-se levemente com o que têm diante de si. Grande demais para que se conseguisse fechar a caixa, o cachorrinho observa-os e abana a cauda, numa saudação afável às crias da outra espécie – embora dali a umas horas ele considere que são todos da mesma ninhada. Nos seus rostos, surgem os sorrisos mais rasgados e felizes que já vi, acompanhados de risinhos infantis e emocionados – ainda hoje me sabe bem ouvi-los, quando vejo o vídeo. Inicialmente, percebo que a voz lhes custa a sair, mas depois perguntam:
– É o Baltazar?
– É o Baltazar – respondemos.
– E ele vai ficar na nossa casa, connosco?
– Claro que sim. Agora vai fazer parte da família.
– Para sempre?
– Para sempre.

É um cão1

Foi assim que naquele dia, criámos a memória das memórias.

“Tenham a certeza que levam convosco um companheiro leal e o melhor amigo que podiam dar aos vossos filhos.” – disse-nos o Sr. Cansado quando nos despedimos dele, naquela manhã de Novembro. Hoje, passado um ano, apesar de todos os tufos de pêlo existentes nesta casa, de todos os brinquedos roídos, de todos os tapetes devorados, de todos os sacos do lixo perfurados, sei que ele não podia estar mais certo. Pela devoção que nos tem, pela forma como os ajuda a crescer e a ver a vida, pelas vezes que nos consola mesmo sem saber, pela companhia constante e incansável a qualquer hora do dia e em qualquer ocasião. E não o trocávamos por nada.

É só um cão? Pois é. Mas é o nosso cão, e isso basta para tornar o Dom Baltazar um elemento fundamental e insubstituível desta família.

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