Nós, mulheres

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Porque é que eu sei que nós, mulheres, somos seres versáteis aptos a lidar com muita coisa ao mesmo tempo? Porque somos capazes de estar na rua a mandar incessantemente a bola ao nosso cão, a controlar os passos do jovem rebelde que nos chamou ditadoras ao pequeno-almoço, a ouvirmos com muita atenção o senhor com idade para ser nosso avô que resolveu meter conversa connosco e dar-nos uma lição intensiva sobre o malefício das rações e a origem da doença das vacas loucas, e assistimos ao gordo do nosso cão dar uma cuzada monumental ao nosso rebento que cai de joelhos entre o passeio e o chão rugoso e esburacado, e sim, o senhor, que precisa muito conversar, continua a dissecar sobre a encefalopatia espongiforme bovina enquanto esperamos que a nossa criança se levante e encare corajosamente o facto de estar a sangrar do joelho, sem chorar, e o cão continua a marrar (literalmente) contra as nossas pernas com uma bola de ténis toda babada que lançamos para bem longe como um pujante lançador dos New York Yankees, e continuamos a ouvir cenas sobre as vacas loucas e animais ruminantes e carcaças putrefactas enquanto sorrimos amavelmente e ainda fazemos observações altamente pertinentes sobre biologia ou instintos básicos e vemos o joelho da nossa cria a escorrer sangue ao mesmo tempo que franze o rosto de dor e tenta não chorar, e damos-lhe colo, e reconfortamos, e continuamos a sorrir para o senhor, e o cão regressa com o raio da bola porque afinal não somos nada um lançador dos New York Yankees e a bola estava apenas a uns míseros metros de distância, e “a modos que é assim com as rações que damos aos nossos animais”.

Fartas de marradas, guardamos a bola. O cão vai pastar – porque no fundo é uma outra espécie de vaca louca. “Vê! Isto é que lhes faz bem. Comer erva! Deixe-o comer erva.”, diz o senhor, que passa a mão na cabeça do nosso filho e vai-se embora, sem se despedir. E nós regressamos para casa com um jovem rebelde ferido ao colo, um cão exausto e com erva nos dentes, puxado pela trela, as calças todas babadas, a t-shirt manchada de sangue e a nossa quota diária de disponibilidade para ouvir cenas sobre rações e vacas loucas saldada.
Quem nunca?!
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