Nas Finanças…

Nas finanças

Hoje estava com poucas ideias por isso resolvi fazer-vos o relato do que vi enquanto estive à espera, nessa repartição pública de que todos gostamos muito: a das Finanças.

Tirei a senha e sentei-me. Como não tinha levado nada para ler, liguei os dados móveis e quando fui cuscar o facebook, fiquei sem bateria. Foi então que enquanto aguardava pacientemente (que remédio!) que chegasse a minha vez, comecei a observar as pessoas, e quando isso acontece, tenham medo…muito medo.

– Descobri que a senhora do guiché está farta de lutar contra os cabelos brancos e vai ditar a sua independência, deixando de os pintar. A simpática velhota a quem o confessou, mostrou-se logo muito solidária, encorajando-a a seguir em frente com a decisão, ou não fosse ela dona de uma cabeça repleta de brancos resplandecentes.

– Descobri que o porteiro do ciclo, o qual não via há anos, mas que curiosamente já vi três vezes este mês (e que me lembra sempre o gigante Hagrid), vai à caça e faz grandes patuscadas de javali aos fins de semana, mas desta vez estava muito agastado porque tinha de escolher entre levar a arma ou os cães. Não percebi porquê… Mas sei que ele vai tentar levar ambos, à socapa.

– Descobri que (aqui foi mais uma confirmação do que já sabia) há homens que precisam desesperadamente que uma mulher os vista, ou aconselhe, pelo menos, o que nunca vestir. Porque, por muito que eu não ligue à indumentária alheia (e não ligo mesmo) não é suposto um homem passar por nós e pensarmos automaticamente com grande espanto “O que é que está aqui a fazer um duende do Pai Natal?”.
Quando ele parou à minha frente, aguardando a sua vez de ser atendido, foi-me impossível ficar indiferente ao polo vermelho conjugado com as calças verde bandeira e aos mocassins de camurça da mesma cor do polo. Sim, vermelho, verde, vermelho. Isso mesmo. Enquanto ele batia o pé no chão, ao ritmo do seu nervosismo, eu só lhe imaginava uns apliques na ponta dos sapatos, iguais aos pompons brancos que a Sininho tem nos seus sapatinhos de fada. Se a minha cara metade me tivesse acompanhado eu ter-lhe-ia dito na hora “Vês? Espero que agora penses duas vezes antes de me chamares de chata. Eu apenas zelo pelos teus interesse e tento que nunca sejas confundido com um duende tarefeiro natalício, meu menino!”.

– Também descobri que o meu vizinho que que mora no prédio em frente – o surfista quarentão da mota, que não quer crescer nem cortar o cabelo – é a cara chapadinha do Pedro Pascal (para quem não sabe, o Oberyn Martell de Game of Thrones ou o tipo do novo videoclip da Sia) misturado com o Banderas. Se o Banderas e o Pedro Pascal tivessem um filho, era o meu vizinho da frente, na certa! Como ele até deve estar consciente disso, a música que tem no telemóvel é, nada mais nada menos, que a Cancion del Mariachi que o Banderas canta em “Desperado”. A sério, eu ouvi quando o telemóvel tocou. É verdade. Vão ao youtube, porque vale a pena. Melhor personagem de todas as que vi nas Finanças. Ganha ao duende do Pai Natal, aos pontos.
Como se não bastasse, ele também é aquele tipo que suspira muito alto, e lamenta-se que nunca mais está despachado dali enquanto olha para nós de lado, na tentativa de fazer conversa.

– Descobri ainda que há pessoas que usam os filhos para terem prioridade e passar à frente de toda a gente, mesmo sem sequer pedir licença, mesmo quando o pai das crianças até está presente e podia ir com elas brincar para o parque, e que as pessoas que o fazem também pertencem à mais fina flor da sociedade, mas provêm dessa classe proliferante em Portugal: a dos chicos-espertos. Não nego a prioridade que deve ser dada a uma mãe que estando sozinha e sem outra hipótese, tem de levar a criança consigo, mas usar propositadamente as criancinhas como “livre-trânsito”, revolve-me o estômago.

– Por fim, descobri que sou uma distraída incurável quando chamaram o meu número e eu não ouvi por estar atenta a tudo e a todos, menos ao que devia. Mas como posso eu estar atenta à entediante tela com os números de chamada, com tantos personagens interessantes à minha volta?

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