“Não quero ser velhota”

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Depois de saírem do infantário, o irmão veio o caminho todo a dizer que lhe ia fazer uma sopa de placas dentárias e um arroz de dentes. Como ela continua impressionável em relação ao assunto, ele vai aproveitando para se divertir a horrorizá-la, sempre que pode. E depois já não eram só placas e dentes, mas também cérebros e tripas. Uma porcaria sem tamanho, com ela a gritar com genuína repulsa enquanto emitia sonoros e convincentes “BLHEEEEECS”.
Eu e o pai rimo-nos e talvez também tenhamos acrescentado uma ou outra iguaria asquerosa. Até que ela se lembra de perguntar:
– Nós vamos ficar todos velhotes?
– Sim. – respondo.
E fez-se silêncio na parte de trás do carro. De repente, ouvimo-la gemer baixinho. Olho para trás, e vejo-a a chorar.
– Então? Porque estás a chorar?!
Levanta o rosto e vejo-lhe um beiço gigante e os olhos cheios de lágrimas.
– Porque eu não quero que ninguém seja velhote! E não quero ser velhota! – soluça, com uma aflição visível.
– Mas filha… Toda a gente envelhece. E é bom, porque quer dizer que vivemos muito tempo. E sabes…os velhotes são muito especiais porque são as pessoas mais espertas que existem. Eles sabem muita coisa! Porque aprenderam muito ao longo da vida. Velhotes são pessoas muito especiais porque são as mais sábias!
Ela funga, limpa o nariz e olha-me de soslaio.
– E ainda falta muito, muito para seres velhota. Ainda tens muitas coisas para fazer e aprender. – garanto-lhe. – Não te preocupes. Está bem?
Ela anui com a cabeça, mas não parece muito convencida.
– Eu cá vou gostar muito de ser velhote. Para ser o mais esperto da família! – diz ele, nada preocupado com a inevitabilidade dos factos. – E sabes que mais? Os velhotes têm um super poder que é ter uma bengala e bater com ela na cabeça dos maus.
Nós entreolhamo-nos com um sorriso, interrogando-nos a que desenho animado ele teria ido buscar aquela.
Então olho para trás, e vejo-o dar a mão à irmã, ternamente.
– Não te preocupes, porque vamos ser velhotes juntos e eu tomo conta de ti. Como agora. Vamos ser os mais espertos de todos e ter as bengalas mais poderosas.
Rio-me ao mesmo tempo que sinto um ténue ardor na vista. Até que ele remata:
– E depois trocamos de placa e tudo! – dá uma gargalhada maquiavélica e ela volta a gritar um gigantesco “Ahhhh! Que porcaria! Está calado!”.

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