Mulheres

Dia da Mulher

Mulheres.
Fazemos juízos de valor das que optaram por se dedicar “apenas” à família, e juízos de valor das que optaram por não ter nenhuma.
Julgamos as que só vivem para o trabalho e que veem na próxima promoção o principal objectivo de vida, e julgamos as que trabalham arduamente em casa, sem férias nem horários e sem esperar promoção alguma.
Julgamos as que vivem do corpo. As que vendem sexo e tempo ao homem alheio. As que se servem da sua sensualidade para atingir as metas pretendidas. As que enchem os lábios, sobem as maçãs do rosto, aumentam as mamas, injetam silicone no rabo. As que vivem no ginásio, no cabeleireiro e em centros de estética. Mas também as desmazeladas que roem as unhas, que assumem as estrias e a celulite sem complexos e estão-se pouco borrifando para as últimas tendências da moda.
Julgamos as que amaram um só homem, as que amaram muitos e as que simplesmente, nunca quiseram nenhum.
Julgamos a que sai sozinha com os amigos de longa data para beber umas imperiais e pôr a conversa em dia – principalmente se eles já tiverem o “chip de propriedade privada” – e julgamos as que saem em tribos organizadas de “devoradoras de homens”, soltando gritinhos histéricos pela rua enquanto tentam soltar o salto agulha da calçada portuguesa, empenhadas em mostrar o quão são sofisticadas, alegres e bem resolvidas.
Julgamos as feministas radicais que abominam qualquer gesto de cavalheirismo, como se aceitá-lo fosse automaticamente atirá-las para um patamar inferior na luta de géneros, e julgamos as apaixonadas pelo “Mr. Grey”, que suspiram por um gentleman que lhes abra a porta do carro com a mesma categoria com que as amarra à cama e leva a passear de helicóptero, no dia seguinte.
Sim, eu sei, este texto está carregado de estereótipos e generalizações parvas. Mas só porque é isso que fazemos umas com as outras. Porque pregamos a emancipação, igualdade de direitos e liberdade de escolha, mas nem sempre respeitamos as escolhas das nossas semelhantes – principalmente quando elas não querem ser iguais a nós. Somos as primeiras a apontar o dedo. As primeiras a julgar. Estamos tão ocupadas a culpar os homens e a depreciar as escolhas umas das outras, que não percebemos o quanto nos boicotamos. E esquecemos que talvez até tenhamos em nós um pouco de cada uma dessas mulheres, ou não fossemos a criatura mais versátil que a Natureza já criou. Têm dúvidas? Experimentem escrever um texto enquanto fazem o jantar, dão banho aos miúdos e mandam a bola ao cão, vezes sem conta.

Relembro que enquanto este texto foi escrito, enquanto passamos descontraidamente os olhos pelas notícias no facebook, enquanto se alimenta mais uma (pseudo) polémica sobre a nova coleção de género neutro da ZARA, enquanto despendemos energia e paixão em discussões da “maior importância social” como se o cavalheirismo é uma forma de machismo, se o Happy Meal é sexista, ou se há demasiado cor-de-rosa nas cozinhas de brincar, milhares de mulheres continuam a sofrer VERDADEIRA opressão por esse mundo fora. Milhares de mulheres continuam a ser sujeitas a mutilação genital, milhares de meninas continuam a ser forçadas casar com homens mais velhos, continuam a ver negado o seu direito ao ensino, continuam a ser violadas barbaramente apenas por ousarem existir, continuam a ser alvo de crimes de honra, sendo mortas pelas próprias famílias. Sem voz, sem proteção, sem uma luz ao fundo do túnel e por vezes, mesmo debaixo dos nossos narizes, na porta ao lado, ou com aquela rapariga que nunca podia falar com ninguém e que nunca mais apareceu na escola.

Partilha!Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someoneBuffer this page

Leave a Comment.