Monstros e Companhia

monstros e companhia

Ela entrou no meu quarto às 4h da manhã, a chorar desconsoladamente.
– Tive um sonho mau! Um sonho mau com monstros!
Mal sabia ela que na penumbra da noite, de caracóis desgrenhados, camisa de dormir das princesas da Disney, e naquele descontrolo de quem ainda não acordou bem do pesadelo, ela conseguia ser mais assustadora que qualquer monstro.
Levantei o edredom e chamei-a para o pé de mim, para lhe dar colo, mas ela continuou a chorar com o desespero de quem tinha todos os monstros do mundo atrás dela. E avaliar pela maneira como se agarrava ao meu pescoço, parecia estar a contar comigo não só para a proteger como para lhes dar cabo do canastro. Como se eu não tivesse qualquer medo de monstros! Como se eu, caso entrasse um ali no quarto, conseguisse espantá-lo com um simples ralhete ou com o meu olhar ameaçador de mãe – aquele que lhe lanço quando ela cospe a sopa.
– Querida, está tudo bem. Não há monstros, e tu sabes. Foi só um sonho!
– Mas eu sonhei com um rato mau! – soluçava ela com a cabeça enterrada na minha almofada e sem nunca me largar. – Um rato mau com olhos vermelhos que estava debaixo da cama!
Mesmo com todo o sono que sentia, não consegui não me rir ao ouvir aquilo. Tremer assim com medo de monstros era perfeitamente legítimo, mas quando ela falou no rato com olhos vermelhos já não consegui manter a seriedade que a situação exigia. Bem, talvez fosse uma ratazana radioactiva de olhos flamejantes e garras afiadas que ameaçava dominar o mundo.
– Então e tu achas que se houvesse um rato mau cá em casa, o Baltazar não o engolia logo, num segundo?
Ela olhou para mim com o rosto molhado das lágrimas e vi que até ela duvidava das apetências de exterminador do nosso cão. O mais provável, era ele juntar-se ao gang dos ratos monstros, se lhe fizessem muitas festas na barriga!
– Agora vamos dormir. – disse-lhe. Fechei os olhos e abracei-a.

Medo dos monstros

Sentia-me já a entrar no segundo sono da noite, quando a ouvi sussurrar:
– Tens mesmo a certeza que não há monstros?
– Sim. – respondi no mesmo tom sussurrante.
– Então vou dormir.
– É melhor.
Voltei a fechar os olhos e a deixar-me apagar. Até que…
– Oh mãe, mas às vezes também sonho que o Baltazar é um monstro. E que ele fala com voz de monstro.
– Mas não é filha. O Baltazar, de monstro, só tem o tamanho. Mais nada. Agora vamos dormir.
E virei-me para o lado, já decidida a ignorar qualquer tentativa de conversa.
– Oh mãe, mas tu estás toda encostada a mim, e já estou toda transpirada! – refilou, com uma lata que me desconcertou.
Sem mal me conseguir mexer no meu reduzido espaço, virei a cabeça e vi que ao lado dela havia lugar para mais três do seu tamanho. Confesso que àquela hora, morta de sono e frustração por não conseguir pregar olho, pensei dizer-lhe que havia uma colónia de ratazanas radioactivas a viver debaixo da minha cama e que o melhor era ela voltar para o quarto dela, mas por fim agarrou-se à almofada solitária do pai (a fazer noite no Hospital), adormeceu serenamente, e eu tive que me contentar com a parcela minúscula de lençol que me calhou.

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