A “malta dos cães”

O jardim Dom Baltazar

É curioso como a nossa sociedade arranja uma série de termos técnicos para classificar os mais diversos tipos de descriminação (racismo, xenofobia, homofobia, misoginia, machismo, misandria) e condena-os a todos, mas depois referem-se depreciativamente a determinados grupos de pessoas como por exemplo “ah e tal, essa malta dos cães (que horror!)”, como se fossem de um universo à parte. Como se chamará à descriminação feita à “malta dos cães”? Canídeofobia? Lupoginia? CanisAscum? Não… Eu não sei como se chama, mas eu sei o que é senti-la na pele. É algo como passeá-los com os sacos de apanhar cocó bem à vista, para não termos que levar com os olhares reprovadores dos vizinhos que acham que se temos um cão, é porque forçosamente vamos deixar a rua toda suja. É enfiarmos a mão no saco para reforçarmos as nossas intenções de apanhar os detritos, mesmo que ele ainda ande à procura de um sítio para os fazer. É termos de mudar de passeio quando uma criança está prestes a cruzar-se connosco, porque apesar de sabermos que o nosso cão é a ternura em estado puro, adora pigmeus e até é usado em terapia infantil, as mães não gostam e lançam-nos aquele olhar “oh fachavor, saia lá do caminho com essa criatura peluda dos infernos!”. É sermos olhados de lado na esplanada, apesar dele estar deitado debaixo da mesa sem incomodar ninguém, e é sermos olhados com condescendência porque temos pêlos na roupa.proíbido cães

Hoje, de manhã cedo, fui surpreendida com esta maravilha, no meu jardim – que é também o jardim do Dom Baltazar. Aquele onde vivemos algumas das peripécias que depois vos venho aqui contar. Aquele onde ele gosta de correr, apanhar paus e deitar-se aos meus pés, à sombra, enquanto escrevinho ideias num bloco de notas. Eu sou frequentadora assídua deste jardim, mas agora dizem-me que não posso continuar a frequentá-lo com o meu cão. As autarquias que fazem campanhas como “adopte um animal”, “não abandone o seu cão”, “seja um cidadão exemplar”, restringe-nos depois os espaços, como se afinal ter um cão, fosse motivo de discriminação.

Eu sempre defendi, aguerridamente, que os dejectos dos nossos animais devem ser apanhados pelos donos, rigorosamente e sem “esquecimentos”, até nos descampados onde as pessoas julgam não terem essa obrigação. Têm-na, sim, principalmente quando o mesmo descampado serve de parque de estacionamento a uma rua inteira. Sempre defendi que os donos de cães devem ter um comportamento exemplar com os seus canídeos, a fim de nunca perdermos o direito que temos a passeá-los e a usufruir de espaços públicos como todos os outros cidadãos. E como mãe, também sempre defendi o direito das minhas crianças brincarem livremente num jardim sem terem que pisar a relva como se de um campo minado se tratasse. Não sou daquelas pessoas que acha que o meu cão tem exactamente os mesmos direitos que os meus filhos e os filhos dos outros, porque para mim, não tem. Mas também não merece ser confinado a um pedaço de passeio onde nem sequer pode correr, porque alguém achou que toda a área deveria permanecer intocável de patas caninas!Marta e Baltazar jardim estações do ano

Foi depois de ter um cão que comecei a usufruir da minha zona residencial, a conhecer os outros vizinhos que também tinham cães e a conviver com o grupo que frequenta o jardim de forma muito salutar e cívica, ao contrário de MUITA gente que não tem cão e que não se coíbe de o conspurcar com lixo. Nunca o meu cão deixou dejectos seus abandonados na relva. Nunca o meu cão danificou o espaço público, fez buracos no chão, partiu garrafas de vidro ou arrancou tábuas dos bancos do jardim, como alguns energúmenos que por lá passam. Contudo, são os direitos e a liberdade das poucas pessoas que usufruem e dão alguma vida àquele jardim (que o fazem diariamente e não uma vez por mês, quando se lembram que têm um jardim ao pé de casa!) que vejo agora limitados, como se fossemos cidadãos de segunda que não podem usufruir dos espaços verdes cuja manutenção também é paga por nós!
Suspeito que haja muita gente contente, depois desta proibição. Mesmo que só usufruam do jardim, através das suas janelas. Sem nunca sentirem no ar as diferentes fragrâncias das estações, como o cheiro a relva cortada numa manhã de Verão, ou a terra molhada após uma tempestade de Inverno. Sem saberem o que é o prazer de caminhar por cima das folhas secas de Outono caídas no relvado, até porque folhas secas de plátano são apenas lixo a precisar de ser varrido. Aposto que nem sabem em que troncos costumam nascer os cogumelos ou que as ameixas pequeninas que caem no chão são doces como o mel. Eles não sabem, porque não se dão ao trabalho de usufruir do espaço como ele merece. Apenas o querem imaculado, intocado e livre de vida.
Quanto a mim, vou continuar a ser “malta dos cães”, e talvez me atreva a infringir a lei uma vez ou outra, quando o meu cão precisar de correr, ou simplesmente, quando ambos tivermos saudades de ouvir o vento nas árvores. Se for parar à prisão, já sabem: arranjarei uma boa história para vos contar, na certa!Inverno e Primavera jardim

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7 Comments

  1. Não tenho animais de estimação! Já tive! Mas agora não tenho espaço… Tenho um bebé de 13 meses que não pode ver um cão ou um gato, ou até as andorinhas que o rapaz delira :) ele adora animais!
    Acho deprimente donos de animais que deixam o seu rasto por onde passam… nem todos têm a preocupação da Marta! Na rua onde moro, há pouco respeito por parte das pessoas que têm cães!Se por um lado andam a passea-los na rua sem o saquinho na mão (estou a ser ironica, eles não apanham o que os animais fazem!!), por outro lado deixam os cães a ladrarem toda noite na rua não se importam com o descanso dos outros!
    Beijinhos

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    • Compreendo perfeitamente as suas palavras e fico igualmente irritada com esse tipo de pessoas, que de facto devem ser chamadas à atenção e punidas, eventualmente. Mas é nisso que as autarquias pecam. Não regulam, não fiscalizam, não dão a cara e em vez de instruir, acabam por retirar direitos a todos. Infractores e não infractores. Eu educo o meu cão tal como educo os meus filhos. Não admito que ele incomode, que ele ladre, que ele danifique, que ele suje, da mesma forma que não o permito aos meus filhos e os ensino a estar em sociedade e a respeitar os outros. Mas na volta, os donos negligentes são os mesmo que também não dizem nada aos filhos quando estes estão a bater nos nossos, em pleno parque infantil. Não querem saber! Não é nada com eles. Se calhar são os mesmos que os incentivam a bater depois aos professores, uma vez na escola. São pessoas sem noção alguma de civismo e respeito pelo próximo que vivem num mundo que é só delas e onde os outros são apenas paisagem! É lamentável e revoltante, até porque somos obrigados a conviver todos…
      E fico contente que o seu rapaz adore bicharada. Isso é muito bom, muito saudável. Não deixe nunca de lhe fomentar isso! :)
      Obrigada pela participação, Rabiscos. Apareça sempre por aqui! 😉

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      • Vou fomentar sim 😉 ainda hoje viemos a aldeia e ele lá foi com a avó ver todos os animais, e farta-se de “falar” pra eles 😉
        A Marta tem toda a razão, as pessoas deviam mesmo ser chamadas à atenção.. mas parece que vivemos numa sociedade de direitos sem deveres..

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  2. Eu, Maria Alfacinha, também sou da “Malta dos Cães” e, como tal, subscrevo e testemunho tudo o que aqui foi dito :-)
    Vivo em Almada e não me posso queixar nem da autarquia – há postes com sacos por todo o lado – nem das associações, que fazem grandes campanhas de sensibilização junto das escolas, lares e população em geral. Mas, e não é para me defender de nada – que aquilo que dizem não me afecta porque não estão, com certeza, a falar de mim – ando de saquinho na mão e (já me aconteceu) até “roubo” folhetos de publicidade das caixas de correio dos vizinhos, quando me esqueço dos ditos :P.
    Também já tive um cão ladrão (e acabei por conhecer muita gente à conta disso) :-) mas felizmente nunca tive nenhum que fizesse estragos. E levo-os a passear por sítios onde nunca vi ninguém, não porque sejam desertos, mas porque as gentes preferem estar fechadas dentro de casa. Ao menos eles, e eu, aproveitamos. E sim, os meus cães ladram – não sei a quem é que saem, que não lhes conheci os pais 😛 – mas nunca antes das 8 da manhã ou depois das 10 da noite. Não, não foram treinados. Eu é que os fecho dentro de casa :-)

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    • Querida Maria Alfacinha, confesso que também já roubei folhetos publicitários do correio, para os mesmos fins. :) É certo que ficam sem saber quais as promoções para o fim de semana, mas pelo menos não têm uma surpresa desagradável quando puserem os pés na rua. E também tive um cão ladrão muito rebelde que me fez passar muitas vergonhas, mas também me deixou muitas saudades e histórias divertidas para contar. O Baltazar também faz imensos disparates (monumentais disparates), mas por enquanto têm sido todos dentro de casa. Não ladra quando está connosco, mas calculo que possa fazê-lo quando fica sozinho em casa e zangado por o deixarmos (altura em que faz os ditos disparates). Quanto a isso não posso fazer nada e tenho contado sempre com a boa vontade dos vizinhos que até aos dias de hoje nunca reclamaram, o que me faz pensar que ele até fica caladinho – que é aliás como o deixamos e encontramos no regresso… Conclusão: com uma boa dose de respeito, civismo e tolerância todos podem viver em paz e harmonia. A única coisa que acho que vou mesmo desrespeitar é o tal do sinal… Eheheh

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  3. Adorei o seu texto. Não tenho animais em casa. Às vezes apetece-me e os meus filhos tb mas o a pai abomina a ideia. Há que aceitar. Mas abomino qdo vejo quem passeia os seus bichos e estão-se pouco ralando para limpar o que eles deixam na rua, às vezes até à porta das pessoas. Acho mal e fico irritada qdo assisto a isso. No sábado uma senhora estava atrapalhada pq de saco na mão queria apanhar o que o seu cão fez, mas como tinha diarreia não lhe era possível limpar. E vendo a sua aflição, um outro casal que passava, acudiu-a pois tb tinham um aimal e percebiam a situação aflitiva da senhora. Ela queria uma garrafa de água para lavar a zona, mas não tinha. Não sei como terminou a cena pq segui o meu caminho, não fiquei especada a ver o que se iria passar, mas entendi a aflição deles e achei ternurenta a cumplicidade do outro casal. De facto, é aborrecido passar na rua e ver essses dejectos. Mas quantos outros h+a, que nã são de animais, mas latas, garrafas, papéis, de gente que é pior que um animal?

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    • Há de facto uma solidariedade patente entre alguma da “malta dos cães”. Os animais acabam por trazer gente boa à nossa vida que se rege pelos mesmos princípios e pelo mesmo amor à “bicharada”. Mas também se conhece muito dono execrável. E muita gente anti-cão, também. Ultimamente tenho-me sentido chocada com o preconceito de que os donos de cães são alvo em certos locais, e por parte de algumas pessoas. E não, eles não fazem distinção entre donos com civismo e donos sem civismo. Abominam todos eles e colocam tudo no mesmo saco, fazendo-nos sentir discriminados em qualquer local onde passeemos com os nossos patudos e tentando vedar-nos o acesso a uma série de lugares públicos. Eu também não suporto falta de civismo, e fico perplexa com a indiferença e displicência com que as pessoas sujam o passeio público, mas discriminar alguém só porque tem cão, é uma forma de descriminação tão grave como qualquer outra.

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