“Pin-ki raspe-bérri”

magnun pink raspberry

Fui a três cafés de bairro à procura de um gelado. No primeiro ficaram a olhar para mim como se estivesse a pedir a coisa mais insólita de todos os tempos e quase senti que devia ter pedido desculpas por ter entrado. Sim, por momentos temi ser agredida com uma cadeira, tal foi a maneira como me olharam quando perguntei “Tem gelados?”.
No segundo estavam demasiado ocupados a olhar para um portátil e quando responderam – sem olhar para mim – que ainda não tinham “disso”, notei o alívio por não terem que me atender e assim serem obrigados a desviar os olhos do ecrã.
Tanto desânimo e falta de “calor” a receber fregueses devia ser culpa da crise, como tudo neste país. Segundo alguns teóricos, os portugueses estão tristes e esmorecidos porque a economia não anda para a frente, porque as pessoas não gastam dinheiro, os pequenos estabelecimentos estão às moscas porque fogem todos para os grandes (e demoníacos) centros comerciais. Então tu vais a um pequeno café na tua zona residencial, e és quase escorraçada e acusada de heresia por teres ido à procura de gelados!
Estava já ponderar desistir e a ver o lado positivo da coisa – sempre era menos isso que engordava, e tinha mais que fazer que andar à caça de calorias desnecessárias – quando decidi entrar no terceiro e último café. Lá dentro, duas septuagenárias sentadas à mesa, com a bica à frente e olhos postos no televisor preso à parede, onde a Fátima Lopes anunciava em alto e bom som (o volume estava no máximo) que era só ligar o 760 100 760 para ganhar 1000 euros nas Estrelas da Tarde. Feriu-me ligeiramente os tímpanos, mas era-me indiferente. Eu só estava ali à procura de gulodices, e se eles tivessem a arca cheia de gelados, até podiam passar a “Turbinada” da Ana Malhoa ou qualquer uma do Canuco Zumby, que eu não me importava (muito). Até porque podia pagar e fugir em seguida.
Para meu júbilo e confirmação da máxima “à terceira é de vez”, os gelados já tinham chegado àquelas bandas, mas isso não impediu que olhassem para mim como se estivesse a falar sueco quando pedi um Magnum Pink Raspberry. Devia era ter pedido um “rajá” rosa. Por aqui, as senhoras de uma determinada geração – que o diga a minha avó – correm os gelados todos a “rajá”. É da “Olá”? Não, é “Rajá”. É da Nestlé? Não, é “Rajá”. E se pensam que os Ben & Jerry’s escapam… É “Rajá” também!
– É um magnum quê?! – perguntou-me a senhora, de rosto franzido e óculos na ponta no nariz.
– É um magnum rosa. Com um invólucro… cor-de-rosa.” – expliquei a sentir-me um bocado limitada e quando dei por mim já andava com a cabeça dentro da arca, juntamente com a dona do café, em busca de invólucros fúcsia dentro das caixas de papelão.
– Sabe, eles chegaram há pouco tempo. Tenho isto tudo desorganizado, ainda. – justificava ela. – Como é que disse que se chamava o gelado?
Quis responder, mas já nem eu me lembrava do nome do raio do magnum. Só sabia dizer, com a mesma capacidade elucidativa de uma criança do pré-escolar, “é o rosa!” (o rajá rosa).
– Esse é dos novos, não é?
– Sim… Acho que é.
– Eu sei que encomendei isso…
– Olhe… Não interessa. Deixe lá. Fico com este Rol. – disse conformada, não querendo continuar a dar trabalho, e porque já não sentia as pontas dos dedos de tanto revolver na arca frigorífica. Até que ela gritou um sonoro “Ah!” e tirou a cabeça de dentro da arca.
– Cá tá o “gaije”! – acenou-me com o bendito invólucro fúcsia e não pude evitar rir-me. Depois ajeitou os óculos e leu o que dizia na embalagem, compenetradamente.
– Pin-ki raspe-bérri. – e a maneira como o pronunciou soou a uma coisa francesa muito chique. – Ai filha, que raio de nomes que dão agora aos gelados. – reclamou a caminho do balcão, depois de me passar o meu ansiado gelado para a mão.
Gostei dela. Amanhã de manhã vou lá beber um galão, mesmo sabendo que vou ter que levar com os agudos da Cristina Ferreira no volume máximo.

Partilha!Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someoneBuffer this page

8 Comments

  1. Uau!!! Que recordação boa me veio a cabeça ao ler este texto. Sou carioca de carteirinha, porém morei em terras lusitanas por alguns anos e seu relato foi preciso. Parabéns pela ótima qualidade do blog e do texto.

    Reply
    • Muito obrigada Sandro! Suas palavras são um estímulo para quem adora escrever e transmitir sensações aos outros. Fico contente que tenha gostado e que tenha revisitado terras lusas através do meu relato. Continue seguindo. 😉

      Reply
  2. Descobri hoje este “livro por acabar” :) gostei muito da aventura do gelado, já me aconteceu a mesma coisa há uns anos com o magnum menta, parecia que estava a pedir uma fórmula secreta, vou continuar a seguir as aventuras, ja sou seguidora da página facebook. beijinhos e parabéns !

    Reply
    • Uma querida. Conquistou-me, sim, e adoptá-la parece-me, de facto, a única coisa acertada a fazer. Mesmo com a televisão aos berros, a amabilidade deve ser sempre recompensada. 😀

      Reply

Leave a Comment.