“Hoje ninguém vai à escola!”

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O despertador tocou às 8h. Refugiada sob o edredom, ouvi o vento soprar, a chuva a bater na janela e a cair no chão do terraço, e a ideia de ter de os arrancar das suas caminhas quentes, com aquele tempo, pareceu-me insuportável. Não há nenhum lugar onde tenhamos que comparecer, obrigatoriamente. Não há nada que me obrigue a acordá-los e a levá-los ao infantário, nesta manhã em que qualquer ser-humano se sente melhor na cama. Quando eles forem para a escola primária, este poder de decisão acabou, definitivamente. Alguém, que não eu, obrigará as minhas crias a abandonarem o conforto das suas camas em dias de dilúvio, estejam elas tristes ou animadas, felizes ou rabugentas, constipadas ou carentes de colo, e obriga-las-à a um sacrifício e exercício de paciência e concentração que nem todos os adultos conseguem ter. E nessa altura, eu não lhes poderei dizer : “Hoje ninguém vai à escola! Vamos antes ficar juntos, debaixo do edredão a ouvir a chuva e a contar histórias! Hoje podemos passar o dia todo de pantufas, fazer o bolo de maçã que vocês gostam, e depois montar a pista de comboios no corredor!”. Tomei consciência disso há poucos meses, quando finalmente me lembrei que esta nossa liberdade está prestes a chegar ao fim. Por isso, sempre que está muito mau tempo, ficamos todos juntos. E quando o pai está de folga, ficamos todos juntos. E quando alguém tem muita tosse e pingo no nariz, ficamos todos juntos. E quando ela me diz “mãe, tenho tantas saudades tuas e amanhã é caldo verde na escola e eu tenho medo do caldo verde”… Pronto, depois de torcer o nariz, talvez acabemos a ficar todos juntos, mas a comer outro tipo de sopa, em casa, e sem nunca lhe revelar que a deixei “baldar-se” por esse motivo. Porque sim! Porque podemos! Porque este é um tempo precioso, e que vai passar muito rápido. Não gozá-lo seria o maior desperdício de sempre. Pudesse eu tê-los sempre assim, debaixo da minha asa, para vivermos a vida ao nosso ritmo e bel-prazer. Como isso tem um prazo de validade, há que aproveitar, e lambuzar-nos desta liberdade que ainda resta.
Está de chuva. As folhas dançam lá fora, arrastadas pelo vento frio. E eu relembro-os da sorte que têm por poderem continuar de pantufas, a ver o Inverno pela janela, enquanto o forno aquece para o bolo de maçã e o Baltazar os contempla como se fossem os seus pequeninos-deuses. Porque relembrá-los das coisas boas que a vida nos permite, é algo do qual não abro mão.

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