Futuros auxiliares de memória

auxiliares de memoria filhos

Desde que começaram a articular frases e a ter coisas para dizer, que há sempre um bloco, um envelope velho ou um folheto de supermercado por perto, onde vou anotando as pérolas das minhas crias. Não por serem tremendamente engraçadas ou únicas, mas para que sirvam de auxiliares de memória. Deles. Caso um dia “cresçam” demasiado e se armem em adultos parvalhões.

Ele:
“Sabes do que é que eu gostava mãe? Que a nossa casa cheirasse a telepizza! Pode ser?”


“Despacha-te a dar-me o xarope! Tenho tosse de trovoada.”


“Olha! A Lua! Eu sei o que ela está ali a fazer. Está a trazer a noite.”


arco-iris

 

“Oh mãe,nem acredito que há um arco-iris na nossa terra! E logo por cima da nossa casa! Que sorte!”

 

 

 


– Mãe, olha! Sou um riçorante!
– És um restaurante?!
– Um rinorante, mãe!
– Ah! Um rinoceronte.
– Sim. Um rinoronte!


– Mãe, quero mais!
– Queres mais…quê?
– Quero mais bolachas!
– Sim, mas estás-te a esquecer das palavras mágicas. Quero mais…
Confuso, ele olha para mim com o ar mais inocente do mundo e diz:
– Abracadabra! É mãe? Abracadabra?


Durante os desenhos animados…
– Acho que o capitão Gancho devia prender aquela rainha malvada.
– Mas o capitão Gancho também é malvado!
– Ele não é malvado!
– Ah não? Então é o quê?
– Ele é só um pirata, mamã! E tem que fazer o trabalho dele.
Claro. Que limitada visão da natureza humana, a minha.


– Oh pai, como é que isso se chama?
– Presunto.
– Ah. É porque está preso?


– Despacha-te a comer a fatia de queijo.
– Não posso.
– Porquê?
– Porque isto não é uma fatia de queijo. É um dragão voador! Não vês?


E ainda, hoje de manhã:
“Oh mãe, devíamos oferecer alguma prenda ao Baltazar. Apesar dele já ser grande, ainda é um cão criança…”


Ela:
Hora do banho.
– Quero pôr ticidor
– Amaciador.
– Macinor.
– A-ma-ci-a-dor.
– Macidore.
– Tu não precisas de amaciador filha.
– Sim, sim. Para ficar uma pincesa lindaaaaa!
2 minutos depois.
– Óptimo. Pefeita!
– Ah sim? Então agora diz-me lá o que é isto.
– Ma-ti-ci-na-dor!


Debaixo de uma chuva polinizadora de tufos brancos largados pelos choupos, na Primavera:
– O que é isto mãe? São bocados de nuvens?
– Não. São bocados de árvores.
– Pois. De árvores nuvens.


– Queres leite quente ou frio?
– Quero doce.
– Mas posso aquecer um bocadinho?
– Fica doce?


“Mãe, podes pôr os desenhos animados em estátua, enquanto vou para o banho?”


A observarmos a noite enevoada…
“ A Lua está suja. Está meeeesmo suja!”


Muito chocada, a olhar para mim como se eu tivesse dito a maior blasfémia do mundo:
“A Choca (como chamam à avó) não é um adulto! Ela é uma avozinha! Não sabes?”


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– Oh mãe, ainda te dói a garganta?
– Sim.
– Coitadinha! Deixa-te estar aí, que eu vou trazer-te um chazinho!

 


– Oh filha, porque é que não quiseste brincar com aquele menino?
– Porque ele parecia um bebé a falar!
– Mas ele tinha a tua idade.
– Pois. E parecia um bebé a falar! E sabes? Ele tinha ranho… E eu não gostei muito.


– “Comosay, comossay yonai oshai!”
– … O que é isso?
– Sou eu a falar Inglês.
– Ah…Que bem.E o que estás a dizer?
– Não sei. Tu é que sabes inglês!


Despedida melosa antes de ir para a escola…
– Mãe, gosto mesmo de ti.
– E eu adoro-te.
– E eu adoro-te muito!
– E eu adoro-te milhões.
– Pois é! Eu também adoro camarões!


Vem a chorar para o meu colo, a soluçar muito sentida:
– O que foi? – perguntei-lhe.
Leva a mão à cabeça, com um beiço enorme.
– Bati com a cabeça e fiz uma galinha!


Maria e BaltasEla e Ele:
“Então o que é que se passa aqui?”
Ela: “Estamos escondidos da chuva e a acampar na floresta mágica!”
Ele: “Não! Estamos acampados na floresta dos dinossauros e dos animais pré-históricos.
Ela: “Não, não! Aqui não há nada disso! Só fadinhas e animais fofinhos!”
Ele: “Não é nada! Achas que aqui há animais fofinhos?! Blhec! Que parvoíce! Então e aquele monstro T-rex preto chamado Baltazar?”
Ela: “Ah pois é! Já não me lembrava. Vamos esconder-nos dele antes que ele venha aí!”


– Ohhhh mãe!!! A mana bateu-me nas costas!
– Desculpa, desculpa! Eu já pedi desculpa!
– Não quero saber! As desculpas IMITAM-SE! Não sabias?


Ele: “Mãe, quero beber este leite”.
Passados uns segundos…
“Hum… Afinal, acho que não gosto muito.”
“Mas tu gostas de leite branco e faz muito bem. Devias beber.”
Indignado,ele apontou para o pacote e disse muito convictamente: “Mas aqui diz “Blhec”!”
“Onde?” – perguntou, inocentemente, a irmã.
“Aqui, nestas letras vermelhas. Vês? Diz “Lei-te-B-lhec” Mesmo aqui.Mas podes ficar com o meu, se quiseres.”


Um simples passeio a pé, ao fim do dia, suscita questões de enorme importância:
– Oh mãe, onde vai o sol?
– Agora vem a noite e o sol vai-se embora.
– Embora para onde?
– Vai desaparecer atrás daquele prédio…
– Ah… Vai entrar lá dentro?


S e MOs dois sentados no sofá a verem o Frozen
Ela: “Aqueles sou eu e tu.”
Ele: “Achas?! Eles são namorados e eu sou namorado da Leonor e vou-me casar com ela!”
Ela: “Ah não, não!”
Ele: “Ah sim! E tu podes-te casar com o Simão da tua sala.”
Ela: “Nem pensar! Eu só sou amiga da Renata e da Clara, como aquelas princesas do gelo.”
Ele: “Então e não tens namorado?”
Ela: “Não. Os rapazes são todos blhec!”
O pai, sentado ao computador, aplaudiu.

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