Fim de um ciclo que me sabe sempre a recomeço

Outono

Chegou e instalou-se, diria eu, ao sentir o vento frio à janela e o ténue cieiro que insiste em aparecer-me nos lábios à primeira descida de temperatura. Ainda assim, para incompreensão de alguns, há uma peculiar alegria no meu coração só por sabê-lo entre nós. E estranhamente, embora represente a melancolia do fim de um ciclo, sabe-me sempre a recomeço…

“Oh, por favor, tu não és normal! Quem é que pode estar farto do Verão?!”. Eu. Eu farto-me do Verão muito rapidamente. Farto-me da praia e principalmente de ter que dividi-la com aquelas pessoas todas. Canso-me do calor sufocante e desconfortável que me rouba a energia, dos mosquitos vampíricos, das osgas nas paredes ameaçando entrar pela janela a qualquer momento, e da restante bicharada que surge assim que as temperaturas sobem. Começo até a fartar-me dos vestidos de alças, dos calções, dos chinelos e das sandálias. É claro que gosto de sol. Adoro sol! Mas sempre tive um fraquinho pela chuva, pelo vento, por nuvens cor de chumbo, relâmpagos e trovoadas e todas essas forças da natureza com fama de mau feitio. Todas elas me fazem sentir viva, desperta, enérgica, ao contrário do calor, que me anestesia e faz ter vontade de encostar, até ele ter passado. Adoro o ar frio e húmido da manhã e as folhas secas espalhadas pelo chão do parque. Adoro o cappuccino quente polvilhado com cacau e canela, impensável de saber bem em Agosto. Adoro o céu cinzento sobre o rio e o dourado quente das árvores. Adoro ouvir a chuva cair durante a noite e o cheiro a terra molhada, no dia seguinte. Adoro casacos, botas e malhas. Adoro vestir a sweater dele quando me levanto de manhã ou quando relaxo à noite, em frente da TV, com as minhas séries de culto que voltam com a baixa de temperatura e os serões caseiros. E adoro como os abraços se tornam tão mais apetecíveis e urgentes quando não estão 38 graus! Adoro lareiras, mantas e edredons, o cheiro das castanhas assadas na rua, calçar meias grossas, apanhar pinhas e espalhá-las pela casa, lenha empilhada para o Inverno, compotas e o cheiro do bolo de milho da minha avó, acabado de fazer. Adoro deixar a janela aberta e sentir o frio do fim da tarde arrepiar-me a pele, ainda com tonalidades de Verão. Até adoro que o cão comece a dormir a sesta aos meus pés, novamente, tal como agora, em que escrevo estas palavras na companhia de uma chávena de chá de limão e biscoitos de gengibre.
Porque só assim me apetecerá o calor, meses mais tarde. Só desfrutando da intempérie das estações agrestes, me apetece o sol abrasador e a calmaria estival, que ganha outro sabor quando dá o ar da sua graça.

BEM-VINDO SEJAS, OUTONO!”

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