Festa de Natal da Escola

Festa Natal

Eu sei que este texto vai parecer ter sido escrito pelo Gru, o Maldisposto, mas todos os anos, nas festas de Natal da Escola, sinto o desejo secreto e ardente de ter um controlo remoto para pessoas, por muito pouco natalício que isso seja e muito maléfica me faça parecer. E posso justificar essa minha vontade enumerando-vos alguns tipos de pessoas que vocês não vão querer ter por perto (ou à vossa frente) numa festa de Natal da Escola:

1- As vizinhas septuagenárias que moram ali ao lado e que, como não têm programa para a tarde, (e a entrada até é livre), vão juntas ao espetáculo da escola que decorre na sociedade recreativa. Nada contra, a não ser pelo facto de, como chegam antes de toda a gente, resolvem ocupar os lugares todos da frente, obrigando os pais a ficar atrás, esforçando-se por vislumbrar as suas crias através dos seus cabeções pombalinos armados em laca, recentemente saídos do cabeleireiro;

2- A pessoa que está mesmo, mesmo à espera que as cortinas se abram e que o espetáculo comece para começar a falar para a pessoa do lado sobre tudo o que não está relacionado com aquele momento, como por exemplo: as compras maravilhosas que fez e todo o dinheiro que acumulou em cartão, como se tivesse descoberto um ardil para passar a perna ao tio Belmiro;

3- A pessoa que está ali apenas para fotografar o seu rebento prodígio e mais especial que todos os outros, e que por isso se levanta no meio do público, fica em pé durante toda a actuação e de máquina fotográfica em riste, ignorando que existem mais umas quantas dezenas de pais cujos filhos também estão ali, e não conseguem ver nada porque as suas fotografias têm que ser tiradas, dê lá por onde der, e dure o tempo que durar, mesmo que alguém seja impedido de ver o filho a fazer o número para o qual tanto ensaiou;

4- As pessoas com crianças de colo que acham que têm de obrigá-las a assistir ao espetáculo do principio ao fim, e que para as distrair da sua compreensível impaciência (que por vezes se traduz numa gritaria ensurdecedora), as levantam no ar, abanando-as para cima e para baixo, e fazem sons de aviõezinhos ainda mais audíveis que os queixumes da criança. Tudo isto no exacto momento em que os meninos do pré-escolar se esforçam para lutar contra a timidez e por se fazerem ouvir, no palco, procurando os pais na audiência para lhes acenar e dar coragem, mas sem os conseguirem avistar porque além da brigada das cabeças de laca das vizinhas, há também um bebé voador e vermelho de frustração;

5- As pessoas que ficaram em pé, ao fundo da sala, e que atendem telemóveis e falam umas com as outras sobre futebol ou sobre a entrevista do Sócras, como se estivessem no café, sem sequer terem o cuidado de sussurrar, ignorando que as suas vozes se fundem com as dos artistas (pequenos e grandes) que levaram semanas a elaborar a peça, a ensaiar, a montar cenários, a costurar fatos, para que depois vejam o seu esforço atropelado pelo burburinho de quem não sabe usufruir em silêncio do trabalho de quem nos ajuda a “formar” os nossos filhos. Até porque, enfim… é só um “teatrinho” da Escola e não tem essa importância toda (pensam eles). Eles só estão ali para picar o ponto e fotografar ao benjamim da família mascarado de anjinho para pôr no facebook.

6- Pessoas que, na hora do Pai Natal dar as prendas aos meninos, ficam novamente possuídas pelo fotógrafo errante que há nelas, e no aglomerado de pais que se encontram encostados à parede, prontos a captar o momento, vão contra nós e pisam-nos e ficam paradas à nossa frente, como se nem existíssemos, tudo na demanda do ângulo perfeito;

7- As pessoas que, assim que se abrem as portas para a sala do lanche, correm para as mesas, devorando tudo o que encontram pela frente como se alguém tivesse escondido boletins vencedores do euromilhões no meio das quiches, das chamuças ou das tortas dancake, não se desviando um centímetro que seja para deixar os mais pequenos retirarem um mísero rissol, montando autênticos acampamentos em torno do “buffet”.
Todos os anos fico apenas à porta, aguardando pelos despojos, mentalizada que é melhor irmos para casa, para então ver o meu homem partir para a caça em busca de alimento para as crias famintas que querem apenas provar a mousse de chocolate ou uma tacinha com batatas fritas. Entrega-me o casaco, arregaça as mangas, beija-me ternamente como se nunca mais nos fossemos ver na vida, respira fundo, e desaparece na multidão alienada, para regressar dez minutos depois com um prato com croquetes e rissóis de camarão e outro com os doces que conseguiu alcançar: “Consegui! Estavam todos a atirar-se a ele vorazmente, mas consegui a última fatia do pão-de-ló de Ovar que trouxemos!” – vangloria-se, orgulhoso, não sei se por todos o terem comido em menos de nada, se por ainda ter conseguido um resquício.

Só a aproximação a uma mesa do lanche numa festa de Natal da Escola é uma aventura tão rica em peripécias e perigos, exigindo-nos um exercício de paciência e diplomacia hercúlea tão difícil de superar, que pedia um texto apenas sobre ela.

Fora isto, foi uma festa maravilhosa e super familiar, cheia de espírito natalício! E depois de respirar fundo algumas vezes (muitas), percebo que tudo isso faz parte. Tudo, mesmo. :)love actually nativity

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