Já dizia Vinicius de Moraes…

Já dizia Vinicius

(Algures em 2017)

Sobre o amor, já dizia Vinicius de Moraes:

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Tal premissa sempre me causou certa inquietação, porque sendo um poeta e um amante do próprio “Amor” a afirmá-lo, devia ter um certo fundo de verdade. Era como uma nuvem negra premonitória do futuro de todos os amores. Mas… para o cacete o Vinicius! Quando amamos, achamos que é para sempre e nunca acrescentamos o “enquanto dure”. Nós sabemos que é para sempre porque nada nos dá mais certezas e noção de invencibilidade que o amor. O amor a sério. O amor de filme. O amor puro, genuíno, que se sacrifica, que te prioriza, que te protege, que te aquece, que te enriquece, que te acrescenta, que te melhora, que te engrandece. Esse amor só pode ser para sempre. Mas então vem a vida mostrar-nos o quanto as nossas certezas são frágeis. Que tudo tem um revés. Que nada é garantido. Que tudo muda. Até o amor que julgávamos eterno, desde a nossa adolescência.
E então…

…então, quando se ganha noção do fim do mesmo, quando de repente o tapete nos é puxado debaixo dos pés e a desilusão e o fracasso nos devoram vivos, somos engolidos para um buraco fundo e escuro, e ficamos lá retidos, sem ar, sem luz, sem calor, sem foco, a tentar perceber o que é que aconteceu. Ou simplesmente a tentar lembrar-nos como é que se respira.

Como é… que se… respira…?

Precisas levantar-te de manhã, mas as pernas não obedecem.
Precisas levar os teus filhos à escola com um sorriso no rosto e convencê-los de que tudo ficará bem, mas carregas um Dementor às costas, sem ninguém ver.
Sentas-te num banco do parque enquanto te chove em cima, mas não sentes a chuva cair-te sobre o rosto.
Encontras-te com a tua família e gente amiga que gosta de ti, mas nem os vês à tua frente.
Tens um mundo novo prestes a ser explorado, mas não consegues vislumbrar sequer o caminho.
Toda a gente te diz que vais ficar bem, que a luz vai voltar, que quando deres por ti, a dor já foi embora. Mas não consegues acreditar neles, mesmo que nunca te tenham mentido.
Não consegues acreditar em mais nada.
Queres então entorpecer-te. Desligar todas as tuas emoções. Todos os teus sentimentos. Erguer uma muralha em torno do teu coração. E da tua alma. E nunca mais os entregar a ninguém. O teu humor negro fica ainda mais sombrio e corrosivo. Começas a conseguir fazer piadas do que te aconteceu com um cinismo que desconcerta os mais sensíveis. Estás um poço de ceticismo e sarcasmo lancinante. Porra… com é que vais voltar a contar histórias de amor se já não acreditas nelas? E o mundo, todo aquele ainda novo e por explorar, é tão assustador… Viveste numa redoma de felicidade idílica, sempre protegida, sempre amparada, sempre apaparicada. Foste a princesinha do teu conto de fadas, mas agora estás por tua conta. Agora és tu que tomas as rédeas da tua vida. Faz-te a ela. Tens uma boa base de apoio. Tens a tua gente. As tuas pessoas. Os de sangue e os de coração. Aqueles que estão sempre lá, de uma forma ou de outra. Estão todos nos bastidores para te dar a mão se precisares, mas sabes que só te podes erguer sozinha. É então que percebes de que matéria és feita. E és muito mais do que julgavas. E surpreendes-te a ti própria. E um dia, o sol já brilha mais na tua janela. E noutro, já consegues vislumbrar desenhos nas nuvens. E noutro já te apetece sair para dançar. E sabes que vais ficar bem, mais depressa do que julgavas. Mais depressa do que todos julgavam. E quando voltares a cair, já sabes como te erguer. Nada causará uma dor tão intensa como a primeira. E mesmo que a cautela nunca mais te abandone, começas lentamente a baixar as defesas e a desarmar as tuas emoções. E ris. E respiras fundo. E mergulhas. E vives. Sem nunca te perderes de ti mesma. E pegas a vida de caras, tal como a tua mãe te ensinou a fazer, e um dia ensinarás os teus filhos a fazê-lo também. Nem sempre vai correr bem. Mas não importa, porque entre glórias e falhanços, aprendes sempre alguma coisa nova a teu respeito. E isso engrandece-te. Faz-te crescer. Torna-te mais forte. E no fim, percebes que há um amor que, ao contrário daquele que Vinicius falava, pode e deve ser eterno – aquele que tens por ti própria e te sustentará sempre, venha o que vier.

Marta A.

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4 Comments

  1. Para mim foi há 10 meses, foi terrível, durante mais 1 mês e meio ninguém soube… foi terrível… agora, a pouco e pouco, vai sendo menos, é mesmo como dizes “um dia o sol já brilha mais na tua janela…” não é fácil e vai continuar a não ser, no meu caso há 3 crianças que nunca me viram 1 lágrima… dizem-me que sou forte, há dias em que duvido, faz parte, vai melhorar… tudo de bom, tu mereces.

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    • No início nunca ninguém sabe… É uma ginástica emocional para gerir aquilo que ainda não se percebe muito bem que está a acontecer. Mas acontece, e depois passa. Tudo passa.
      Um beijinho Isabel, e que a luz brilhe cada vez mais intensamente na tua janela. Mesmo quando estiver de chuva. 😉
      Tudo de bom <3

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