“Falta muito?”

Baltazar porta bagagens

 

 

7.30h da manhã.
Desconhecendo que vai passar dois dias a casa dos avós, o Baltazar acomoda-se ao lado das malas, no porta-bagagens. Ou talvez até saiba e já esteja a planear qual o próximo pitéu a roubar da bancada.

Viro-me para o banco de trás, onde eles estão meio ensonados mas com um brilhozinho de expectativa nos olhos.
– Então? Estão prontos para irmos ao museu das placas?
– Sim! – exclama ele.
Ela vira a cara para o vidro, com ar enojado.
– Vocês acham mesmo que existe um museu das placas?
– Sim… Tu disseste que havia. – Às vezes até fico com peso na consciência por eles acreditarem tanto em tudo o que lhes digo.
– E o que acham que levamos naquelas malas, no porta-bagagens?
– Pastas dos dentes para lavarmos as placas? – diz ele, trocista como sempre, e ela tapa a cara com as mãos.
Rimo-nos.
– Pois… Mas nós não vamos ao museu das placas.
Ele abre muito os olhos e ela espreita por entre os dedos, curiosa.
– Vamos a um sítio que vocês nos andam a pedir para ir, há muito tempo. Um sítio muito alto, com muito frio… e muita neve.
Ambos abrem as bocas de espanto e os seus rosto iluminam-se de felicidade.
– Vamos à Serra da Estrela! – gritam em uníssono, deixando-me a mim e ao pai com um sorriso no rosto.

 

Infelizmente chove a potes na Covilhã. O lençol de água que desce pelas estradas inclinadas faz-nos perder toda a esperança de encontrar neve na serra, até porque a chuva irá derreter a pouca que resta. No entanto, recuso-me a entregar os pontos. As previsões meteorológicas apontam para queda de neve acima dos 1200 metros e é nisso que temos de acreditar, embora vamos avisando os miúdos que se continuar a chover vamos ter que nos divertir dentro do hotel. Não era bem isto que tínhamos em mente… Não era nada disto que tínhamos em mente, mesmo, pá! Prometemos neve e diversão aos nossos filhos e não tencionamos faltar com a nossa palavra, nem que tenhamos que ter um tête-à-tête com o São Pedro. Contudo tentamos sempre mostrar-lhes o que fazer quando a vida nos dá limões. Ou aguaceiros sem fim, como é o caso…

A frustração paira sobre o sobrolho do pai e a saturação acusada pelos passageiros de trás já se torna ensurdecedora. Aliás, as viagens grandes, de carro, com crianças obedecem quase sempre a este padrão:

“Quero comer!” – Se há problema em querer comer? Claro que não. Mas será mesmo preciso começarem a pedir comida, quando ainda nem sequer saímos da nossa rua?

“Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito? Falta muito?” – Este é um mantra que começa ao fim de meia hora de viagem. É muito importante o adulto manter-se sereno, mesmo que tenha muita vontade de tapar os ouvidos, encolher-se a um canto e começar a chorar.

“Estou aflito para fazer xixi” – assim que entramos na autoestrada.

“Quero fazer cocó” – dez minutos depois de termos saído da área de serviço e termos perguntado se ninguém queria ir à casa de banho. Geralmente só lhes dói a barriga nos sítios menos próprios, ou mais nojentos ou mais longínquos de um wc!

“Já chegámos? Já chegámos Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos?” – em loop, até chegarmos ao destino. A esta hora já não os ouvimos. Já esgotámos todos os jogos, todas as canções e o nosso cérebro já criou um sistema de auto-preservação em que nos permite ignorar a sonora impaciência da tripulação. Já só ouvimos coisas básicas como “quero água” ou “vou vomitar”.

Então começamos a subir a serra e a poucos metros das Penhas da Saúde, o pai grita com entusiasmo e um rasgo de esperança na voz, deixando-nos a todos em polvorosa: “Neve! Vi ali neve! Ponto para mim!”
A partir daí, os farrapos brancos começam a ser cada vez mais frequentes, e eles fazem a festa com cada bocadinho isolado e humilde de gelo que avistam. Mal sabendo o quanto uma montanha se pode cobrir inteira de branco…

(continua)

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