Encostem-se à parede

encostem-se à parede

Imaginem um supermercado ao fim do dia, cheio de gente cansada, impaciente, ansiosa por chegar a casa. Na fila da caixa há uma família, vários produtos sobre o tapete e duas crianças que aproveitam para brincar com tudo enquanto ajudam a tirar as compras do cesto: um pacote de bolachas é uma espada, as maçãs dentro do saco da frutaria são pepitas de ouro, o pão de Mafra ainda quente um possível prisioneiro de guerra… Ir às compras pode ser muito aborrecido, ou não, dependendo do nosso grau de criatividade que vai colorindo a forma como encaramos uma fila de supermercado.
Entretanto, o pai das crianças, num suspiro paciente, avisa que as compras não são para brincar e tira-lhes uma meloa das mãos antes que esta passe a meteorito destruidor. A mãe, já do outro lado da caixa, concentra-se em arrumar os congelados no mesmo saco e em chamar as crianças para junto de si, proferindo em seguida uma frase recorrente entre mães que tentam finalizar rapidamente uma tarefa mas começam a ficar desesperadas por controlar a prole irrequieta: “Encostem-se à parede que estamos quase a ir embora”.
“Encostem-se à parede” é uma cartada segura. Não compromete ninguém e dá-nos alguns minutos de avanço, em que podemos concluir a tarefa sem que tenhamos de sair a correr atrás de alguém. Raramente falha, porque eles podem fingir que estão encurralados entre um mar de lava, sendo a parede o único lugar seguro para permanecerem.
É então, que de repente, dispara a sirene do Apocalipse. Um ensurdecedor, horripilante, esganiçado, acorda mortos e histérico alarme fura tímpanos desata aos gritos, deixando toda a gente (ainda traumatizada com os incêndios em território nacional) em sobressalto, a olhar para todos os lados e a tentar perceber o que se passa.
As crianças correm para debaixo da asa da mãe com a aflição estampada no rosto.
“Não queremos ser presos!” – dizem eles com as mãos na boca, petrificados de susto. É nesse momento que a mãe percebe o que acabou de acontecer, porque claro, eles não podia apenas encostar-se à parede. Não! Eles tinham que se encostar a uma porta de emergência e empurrá-la, até esta abrir e desatar a urrar como se o Estado Islâmico tivesse entrado todo em peso no LIDL para ir ao pão!
Com a garganta subitamente seca, passa-lhes a mão pela cabeça, dizendo-lhes que ninguém vai ser preso, mas que deviam ter antes brincado às estátuas. O pai, igualmente comprometido, pede desculpas à rapariga da caixa, que se levanta com um sorriso amarelo no rosto para calar a gritaria exagerada nos altifalantes (ou lá de onde é que sai aquele absurdo). A fila que aguarda para pagar é enorme, mas agora, além de fartos e ansiosos por chegar a casa, fitam a família embaraçada, franzidos com o barulho que ecoa sobre as suas cabeças. A mãe sente a cara tão quente quanto o pão de Mafra, mas continua a pôr as compras dentro dos sacos como se não fosse nada com ela, pensando que assim que pagar as compras vai desaparecer num ápice daquele palco de vergonhas.
Não! É claro que a família não era a nossa! Acham?!
Alguma vez…

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