“E irmos para a Arábia Saudita?”

indiana jones

Ele sentou-se à minha frente, com ar de caso.
– Tenho um colega que vai trabalhar para a Arábia Saudita. Pagam-lhe cinco vezes o ordenado que recebe cá, com direito a dois meses de férias, duas viagens a Portugal por ano, e casa num condomínio fechado. Já viste que espetáculo?
Olhei-o por cima do portátil, adivinhando o que se seguiria àquilo.
– E?
– Também podíamos ir.
– Não, não podíamos.
– Porquê? Aborrecia-te passar a manhã na piscina do condomínio com os nossos filhos, era? Ou que eles pudessem estudar em bons colégios? Ou que nós deixássemos de contar os tostões no fim do mês? Que chatice, realmente.
– Aborrecia-me ficar longe da minha família e dos meus amigos, ainda para mais, para ir viver no deserto!arabian-desert-caravan
Ele riu-se.
– O condomínio fechado não é de tendas, sabes?
– Não me interessa. Não tenho paciência para o calor. Como ia viver um ano inteiro com 40 graus? Sem frio, sem chuva, sem lareira, sem o prazer de passear o cão nas manhãs de nevoeiro…
Ele franziu o sobrolho, incrédulo.
– Ninguém gosta de passear o cão em manhãs de nevoeiro!
– Eu gosto. E depois, que graça ia ter o Natal, hã?
– O menino Jesus nasceu no deserto, a Virgem Maria foi carregada por um burro e não uma rena, e os Reis Magos deslocavam-se em camelos e não de trenó.
– Não me interessa. No meu Natal tem de haver frio, pessoas a passear de gorro e cachecol, e luzes natalícias nas ruas. Lá, não há nada disso! Eles não deixam! Imagina só o meu desgosto.
– Pois, mas eu, com 5 mil euros por mês, acho que superava bem esse desgosto.
– Olha, mas não era com vinho, de certeza. Já imaginaste? A vida sem vinho. – conjecturei num tom fatalista. – Sem um bom tinto alentejano, sem um verde frutado fresquinho, um cálice de Porto…
– Olha! Vivo com o Esteves e não sabia!
– E que graça tem ter uma piscina à porta de casa se nem podes beber um mojito com os pés de molho, ao fim do dia?
– Não estás a ser um bocadinho fundamentalista?
– Eu?! Diz aqui que um homem que seja apanhado a consumir álcool arrisca-se a ser decapitado. – informei com base na pesquisa que iniciei no Google. – Não me parece que seja eu a fundamentalista.
Ele torceu o nariz, descrente.
– Isso não é bem assim…
– “O maior reino da península da Arábia segue à risca a lei do Islão e recorre às execuções para garantir que ela é respeitada.” – continuei a ler, em voz alta. – “Além do álcool, prostituição, fornicação, homossexualidade e blasfémia são crimes que podem ser punidos com pena de morte.” – olhei-o novamente por cima do portátil. – Álcool. Fornicação. E blasfémia. Cuidado! – realcei, lançando-lhe um olhar de alerta que o fez rir-se enquanto revirava os olhos. – “O número de execuções na Arábia Saudita disparou em 2007. No ano passado, foram executadas 102 pessoas. A decapitação pela espada, cada vez mais rara no mundo, é um dos métodos usados.” Bem… Que classe! Isto com uma espada deve ser épico! “Os condenados são anestesiados para que o sofrimento seja menor caso o golpe falhe.” Olha, que atenciosos…
– Isso não é aplicado à comunidade ocidental residente, de certeza.allah-hlel-islam-eyes-Favim.com-2010216
– “As mulheres ocidentais que viajam à Arábia Saudita devem respeitar as leis locais, o que significa trajar-se de acordo com o usual, não usar maquilhagem, não dirigir automóveis, frequentar apenas a área reservada às mulheres nos restaurantes, mesmo em hotéis. As esposas são, geralmente, excluídas das reuniões sociais.”
– Ena pá, deve ser um descanso! – observou, num tom jocoso que me fez arregalar os olhos.
– Não tem piada. É revoltante! Os dromedários devem ser tratados com mais respeito do que as mulheres. Nunca na vida, iria viver para um país destes, nem que nos pagassem o maior prémio do euromilhões! Percebes? Onde é que já se viu, mandar as mulheres comer à parte, no restaurante!
Sem me responder, roubou-me o resto do iogurte líquido e recostou-se no sofá, a bebê-lo.
– E olha que lá, cortam as mãos aos ladrões, sabias?
– E por isso aposto que quase não há criminalidade. Deve ser um país super seguro. – argumentou, no mesmo registo trocista. – Sem roubos, sem violações, sem homicídios…
– Cortar a cabeça das pessoas com uma espada, é homicídio.
– As mulheres e as crianças devem viver na paz dos anjos…
– Os rapazes, talvez. As meninas deve ser só até lhes aparecer o período e serem obrigadas a casar com um primo sexagenário barbudo.
E pela primeira vez, desde o início da conversa, vi-o fazer uma cara enojada. E eu, disposta a vincar o meu ponto de vista, comecei a ler um novo artigo.
– ”Milhares de meninas sauditas de menos de 14 anos são obrigadas a casar com homens ricos e muito mais velhos. Um homem saudita de 90 anos de idade pagou um dote de aproximadamente 17 mil dólares pelo direito de casar com uma menina de apenas 15 anos.” – e aqui, ambos fizemos um som de náusea profunda. – “Durante uma entrevista com o canal de notícias Al Arabiya, o noivo defendeu que o casamento foi “legal e correto”, ressaltando que ele pagou aos pais da menina o valor do dote estabelecido por eles. Mas é público que na primeira noite do casal, a noiva o trancou do lado de fora do quarto. Amigos da família disseram que a adolescente estava com tanto medo na noite de núpcias que se trancou no quarto antes de fugir para a casa dos pais.” – com o rosto quente de indignação, olhei para ele, constatando que o seu humor trocista havia desaparecido, finalmente. Ainda assim, continuei a tortura. – “Uma menina de oito anos, morreu após noite de núpcias com o marido, de cinquenta. Segundo os médicos, a menina teve hemorragias…”
– Já percebi! – interrompeu-me, claramente incomodado.
– Imagina só a nossa filha a chegar do colégio e a contar-nos que a amiga que brincava com ela às bonecas, se casou e foi de lua-de-mel com o marido de cinquenta anos…
– Ok. Já ouvi o suficiente. A sério.
– Espera! Quanto a não haver violações: “Maha, uma jovem de 24 anos, ficou grávida após ser violada por um vizinho, e o seu irmão espancou-a e matou-a à facada. Foi condenado a seis meses de prisão. O tribunal justificou suas acções alegando que ele tinha agido dessa forma diante do vergonhoso comportamento da irmã. Cerca de cinco mil mulheres são vítimas de crimes de honra – uma forma de violência sexista com o agravante de ser aceite socialmente – a cada ano. E é um crime que só afecta as mulheres. Entre os homens, é considerado que quanto mais experiência sexual, melhor. Delas, no entanto, se espera que entreguem imaculadas na hora do matrimónio. Seus corpos são meras aquisições”. – Encantador, não é? Ah, e caso não saibas ainda, o blogger saudita, Raif Badawi, foi condenado a dez anos de prisão e 1000 chicotadas, por desrespeito ao Islão. Por ser dos que fala contra um sistema que decapita pessoas, apedreja mulheres na rua e as trata, unicamente, como fábricas de fazer bebés, mesmo quando estas são ainda crianças. Imagina só a quantas me condenariam, se me ouvissem, neste momento.
Tive a impressão que o vi engolir em seco.DSC_6814
– Claro, que sendo a Arábia Saudita um dos maiores produtores de petróleo e gás natural do mundo, a comunidade internacional não tem grande coisa a dizer sobre isto… E nós, ocidentais, apesar de acharmos estas práticas horríveis, esquecêmo-las muito facilmente quando nos acenam com ordenados maravilhosos, casas com piscina, motorista e colégios privados para as crianças. Mas eu, nem que me alojassem no palácio do Rei Salman, e me pagassem o meu peso em ouro para lhe contar histórias das mil uma noites, me mudava para um país que nega a infância a meninas, proíbe as mulheres de votar, conduzir, usar jeans, e ainda as pune severamente por terem sido violadas!
– Pronto! Eu estava só a fazer conversa! Ninguém aqui vai para a Arábia Saudita.
– Bem me parecia.
– Nunca na vida!
– Obrigada.
– Prefiro continuar cá a ser chulado pelo Estado, mas salvaguardando-te às chibatadas.
– Folgo muito em sabê-lo.
– Deus me livre de te levar para lá e ver-te a organizar uma queima de soutiens ao nível da Primavera Árabe!
– Isso é que era! – ri-me com a ideia.
– Pedia para nos deportarem antes. – observou entredentes, com uma expressão demasiado séria, e numa evidente troca de papéis.

Levantou-se e foi para a cozinha, de onde me perguntou se eu queria um mojito. Sem receio de ser ouvida pela mutaween, nem risco de decapitação, respondi-lhe um redondo “SIM”. E com muita yerba buena!

Ah! Para quem não sabe, a mutaween é a polícia religiosa saudita ou por outras palavras, a Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício.
Moral da história: apesar de tudo, é muito bom viver em Portugal! :)

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