Dom Baltazar foi ao Charco

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O encontro tinha início às nove da manhã, mas às nove e meia ainda nós andávamos na auto-estrada, a seguir as coordenadas que nos tinham sido dadas.
– Se tivéssemos saído de casa a horas decentes e nos tivéssemos encontrado com o grupo que se ia juntar no Campera, já lá estávamos! – reclamei eu que odeio atrasos e que ainda estava furiosa por ele se ter lembrado de ir comprar bolos de manhã, fazendo-nos sair de casa quase à hora a que devíamos estar a chegar. Aquilo era uma vergonha! O primeiro encontro da Quinta das Tílias a que comparecíamos e íamos já levar o carimbo de atrasadinhos desorientados! É que nem uma pausa para um café pudemos fazer! E como se não bastasse, o parvo do GPS continuava a repetir convictamente com aquela voz feminina robótica irritante “Chegou. Ao seu. Destino”. Mas qual destino, senhora?! Para onde quer que olhasse só via asfalto, carros e traços contínuos!
– Isto é o raio da auto-estrada, sua lerda! – sim, eu ofendo o GPS no feminino, já que ele parece ter engolido uma apresentadora do festival da canção com a mania que sabe tudo. Ali existem duas entidades. O GPS e a mulher dentro do GPS à qual podemos chamar muitos nomes feios quando não colabora no nosso objectivo de chegar rápido a determinado sítio e precisamos aliviar o stress.
Entretanto, no banco de trás, Dom Baltazar dormitava alheado a tudo o que se passava, abrindo no entanto um dos olhos sempre que eu olhava para ele, como se adivinhasse que eu estava a observá-lo. Não lhe importa minimamente o que andamos a fazer, para onde o levamos, ou se há uma voz a mais dentro do carro que não a dos donos – ele está-se pouco borrifando para a mulher do GPS. O que lhe importa é que está connosco e isso constitui a paz e felicidade suficientes para um cão conseguir dormir onde quer que seja.

Passados dez minutos de sairmos da auto-estrada e percorrer estradas e estradinhas, é hora de ligar ao organizador da concentração. Esse encantador de labradores retrievers à portuguesa, exímio conhecedor da raça e o melhor criador a nível nacional – sim, lá em casa é ele, e ponto final – o amigo José Cansado, que felizmente nos confirma que estamos no caminho certo e que vai só buscar alguém que se perdeu. Yeah! Mais atrasadinhos desorientados como nós!

Quando entramos na herdade do Pombal, o stress começa a desaparecer para dar lugar à tranquilidade. O dia que parecia ser de chuva, brinda-nos com um sol radiante que banha os campos pintalgados de flores e sobreiros, e lá ao fundo, na orla da herdade… a auto-estrada, obrigando-me a dar razão ao GPS que afinal de contas sempre estivera certo.

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Assim que vislumbramos os carros estacionados, avistamos também os primeiro labradores. E são imensos. Todos lindos e senhores de uma alegria contagiante, farejando todos os recantos um dos outros felizes da vida – e quando digo todos os recantos, refiro-me à inspeção completa do costume.

É o paraíso dos labradores, e são todos tão iguais que a determinada altura tive que olhar para o Baltazar duas vezes, para ver se não me enganava no cão ao pôr-lhe a trela.

A acompanhar a corte dos patudos, os donos, que ao que parece, no dia de hoje não passam de meros motoristas de suas excelências.
Alguns rostos são-me familiares. Reconheço-os do grupo que me habituei a frequentar mesmo antes de ir buscar o meu cachorrinho. O grupo onde podemos partilhar inquietações, obter respostas e desabafar as mágoas habituais tais como:

  1. Chamaram gordo ao meu cão, pela quinquagésima vez.
  2. O que posso fazer para que ele pare de me comer as paredes.
  3. Como dizer educadamente aos meus vizinhos que “lavrador” é o que planta batatas, e não uma raça.
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Foto: Paulo Luz

Facilmente a nossa atenção se detém nas manchinhas amarelas, pretas e castanhas que saltitam na erva, e em torno dos carros, e na estrada de areia, e dentro de… poças de lama. Sim. Poças de lama. Acho que na minha cara se desenhou um sorriso misto entre a satisfação e o horror, ao imaginar o Baltazar a rebolar numa poça lodacenta e a mandar-se para cima de nós em seguida. Mas como todos os donos de labradores sabem, isso não nos causa repulsa como causa alegria. Vê-los chafurdar numa poça com o júbilo de quem suspira “Ahhhh… estas vindas ao SPA revigoram-me!”, pode ser muito terapêutico. Até porque naquele momento, tenho a certeza que quase toda a gente põe para trás das costas as agruras da semana. Ali, com eles, não há horário nem agenda.

Foto: Paulo Luz

E um facto tão tocante quanto lamechas, é que naquela altura, todos nós somos da mesma “equipa”. Mesmo não nos conhecendo uns aos outros, mesmo que todos sejamos muito diferentes, que possamos ter temperamentos inconciliáveis ou não partilhemos a mesma filosofia de vida, ali, todos somos aficionados das irrequietas e enérgicas bolas de pêlo. Ao longo do percurso olhamos pelos cães uns dos outros, verificamos se nenhum fica para trás, se todos conseguem sair de dentro do riacho, se nenhum corre atrás do rebanho de ovelhas que vai a passar, se nenhum se magoa a sério numa disputa de testosterona entre machos territoriais. Não importa que aquele não seja o nosso cão. Nós olhamos por ele e sabemos que algures, alguém está a olhar pelo nosso.

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Foto: Rui Pedro Costa

No fim do dia, acabámos sentados no chão do prado a comer um maravilhoso porco no espeto, “vestidos a rigor” pelos nossos amigos de quatro patas. Não faz mal. Porque todos sabemos que um dono de botas e calças enlameadas, salpicado dos pés aos cabelos e com restos de biscoitos recompensa a saltitarem nos bolsos, só pode ser o dono de um labrador feliz. Pelo menos era assim que estava o meu, que deitado aos meus pés, olhava para cima sempre que a bifana se aproximava mais do seu nariz, despertando-o da madorna que se apoderava dele.

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