Dom Baltazar e o atentado

Baltazar e o atentado

Tudo aconteceu esta manhã, enquanto passeava pelo jardim com o meu comparsa canino, Dom Baltazar, e ele se lembrou de correr atrás dos pombos que parecem ter lugar cativo num determinado ponto do passeio, mesmo por baixo de uma determinada varanda, de onde todos os dias chovem banquetes destinados à comunidade columbófila da rua. Ora, apesar de não ter cartão de sócio, Dom Baltazar quis participar da festa e interagir com os donos do passeio, não por ver neles um potencial petisco, mas pelo simples prazer de os ver bater asas, à sua frente. Enquanto corria de um lado para o outro, feliz da vida, com os pombos a voarem-lhe sobre a cabeça, algo caiu dos céus para cortar a diversão e nos deixar paralisados de susto. O baque seco ecoou nos muros da rua, emitindo um poderoso “PAH”, fazendo com que o cão parasse nos primeiros dois segundos para perceber o que se passava, mas despreocupado, depressa retomou a brincadeira. Foi então que o segundo objecto caiu, desta vez bem maior e mais rasante do que o primeiro, ressoando como o derradeiro alerta.
Dom Baltazar e o atentadoOlhei para cima, e foi então que a vi a espreitar à varanda. De robe azul vestido – aquele com que se passeava na rua, inclusive para ir despejar o lixo, e que não largava nem quando estavam 30 graus – cabelos desgrenhados caindo-lhe sobre o rosto gasto e o olhar alucinado de sempre. O esgar de reprovação que me lançou não me deixou qualquer dúvidas de que o aviso não viera dos céus e sim do terceiro andar. Aquele manchado de humidade e cujas janelas estavam sempre fechadas. E a mensagem, era bem clara: “Afasta-te com essa bola de pelo preta dos meus pombinhos ou não falharei cabeças da terceira vez”.
No chão, a poucos centímetros de nós, estavam as armas de arremesso mais improváveis que vira na vida: dois enormes pães de quilo alentejanos, provavelmente com mais de quinze dias cada um, a avaliar pelo estrondo que fizeram quando bateram no chão.
Imaginando a mossa que nos faria um terceiro, coloquei a trela ao cão e puxei-o de novo para o jardim.Dom Baltazar e o atentado
Não sou de ceder a intimidações, mas talvez abra uma excepção desta vez. Algo me diz que não há argumento válido e racional que demova a “dama do robe azul” de fazer tiro ao alvo com comida a quem perturbar a paz dos seus meninos conspurcadores de beirais, estendais alheios, e bancos de jardim.
Quando voltei a olhar para a varanda, já ela desaparecera, e os seus cúmplices devoravam ferozmente a prova do crime, ao melhor estilo de Hitchcock.
Amanhã mudo de rota. Depois de quase atingidos por dois pães alentejanos com quinze dias, não me quero imaginar a ter que fugir com o Dom Baltazar a um bombardeamento de batatas greladas.

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