Diz que a coisinha fez anos…

festa do Baltas

Diz que a coisinha fez anos. O querido levantou-se mais cedo e foi com a chatinha em miniatura para a cozinha mexer ovos para o pequeno-almoço. Depois o querido júnior levantou-se e juntou-se a eles, na cozinha. Eu cá, nem me mexi. Limitei-me a farejar-lhes as calças do pijama até eles começarem a gritar “Oh pai! O Baltazar está a babar-me o pijama todo!”. Eu?! A babar-lhes o pijama?! Mas eles pensam que estão a falar dos cães do Pavlov ou quê? Eu não me babo. Eu tenho é glândulas salivares prolíficas que me humedecem ligeiramente as beiças, sim? A babar-lhes o pijama… Então, como eu ia a dizer, depois foram acordar a minha chata com o pequeno-almoço e uma vela e umas cantorias ensurdecedoras e deram-lhe um caixote enorme ao qual ela torceu o nariz porque vinha embrulhado num papel que dizia “Kasa”. Não percebi qual o motivo da sua desconfiança. Eu também vim num caixote daqueles e ela estava toda contente nesse dia. Sim, porque o cão pode vir num caixote, mas a prenda dela não. Ela pode dormir na cama, e eu tenho de dormir no tapete. Ela pode comer à mesa, e eu tenho de comer no chão. Ela pode ir ao frigorífico, e eu tenho que esperar que eles virem as costas para roubar qualquer coisinha. E é esta a dualidade de critérios que eu tenho de engolir.
“Diz-me que não me compraste uma coisa para a casa. – dizia ela, quase a fulminar o querido com o olhar. Ele ria-se, perguntava-lhe qual era o problema e dizia que era uma coisa que lhes estava a fazer falta para a cozinha, conseguindo irritá-la mais um bocadinho ao mesmo tempo que ela não sabia se ria ou se arrancava a fita-cola presa ao papelão. Até que passado um tempo a vasculhar dentro do caixote e de algumas bolas de jornal me terem caído em cima da cabeça, ela decidiu agredir-me os tímpanos quando gritou como uma doidivanas: “Ah! Não acredito! Bilhetes para os Muse!”. Para os Muse? Qué isso? Alguma marca de patê canino? Soa-me a comida húmida para cão. Deve ser bom! Muse de fígado de porco. Muse de salmão. Muse de vitela. Ai… gosto tanto! Também quero ir encher a pançola de muse. Levam-me?
Isto da chata fazer anos é-me completamente indiferente, a não ser que façam petiscos cá em casa. Não foi o que aconteceu o ano passado, quando lhe fiz uma surpresa memorável. Tão memorável, que se lembra dela até hoje…

Foi assim:

Depois de me deixarem sozinho em casa para irem jantar fora e beber uns copos com os amigos, lembrei-me de lhes preparar uma ceiazinha, não fossem eles chegar com a fome das 4h da manhã. Ora, tive que espreitar o que havia na bancada e como é óbvio, ligar o fogão. Sim! O que é que foi? Acham que um cão não sabe ligar o fogão? Como já a tinha visto fazê-lo, girei os botões e carreguei no isqueiro, que fica ao lado. Não sei porquê, mas só um dos bicos acendeu. O outro ficou só a deitar gás, silenciosa e desalmadamente. Foi fixe, porque à medida que o gás ia saindo e o tempo ia passando e eu ia ficando cada vez mais embalado pelo metano, começaram a chegar os convidados VIP para a minha festa. A Lassie, o RinTinTin, o Snoopy, o meu primo Marley, os 101 dálmatas, a Laika, o Milú, O Scooby Doo… Tudo a curtir na cozinha à volta do arco-íris que flutuava no ar. Só queria que vocês vissem os biscoitos, os queijinhos alentejanos e as postas de bacalhau que caíam do tecto, em cascata… Os putos dálmatas a fazerem acrobacias ao som dos clássicos da Disney, o Milú a contar os podres do TinTin, o Mutley a fazer um strip em cima da mesa, a Laika e a Lassie a abanarem as caudas e a gritarem “Cu de Chumbo!!! Faz-me um filho!!!”, tudo à luz romântica do bico do fogão… Foi lindo. Até que ouvi as chaves na porta e pensei: “É o inspector Max! Veio fazer uma rusga”. Mas não. Eram os negligentes dos meus humanos, que depois de me deixarem sozinho para irem para a borga, apareciam agora na melhor parte da minha festa. Então ouvi o querido, num tom alarmista: “Epá que cheiro a gás! Não acendas a luz”. Pfuh! “Cheiro a gás”, diz ele. Então é claro que cheira a gás. Isto é uma festa de cães. Nenhum de nós controla os esfíncteres e a flatulência é a convidada de honra! Então eles abriram a porta da cozinha, e lá estava eu a abanar a cauda e com o meu olhar de “Ia agora mesmo fazer-vos um chazinho! Vão querer de limão ou cidreira?”.
Num reboliço, e sem perderem um tempinho que fosse a acariciarem-me a barriga ou a escolher o chá, desataram a abrir as janelas todas!
“Eu não acredito que este gajo abriu os bicos do fogão!” – exclamava a chata, em pânico e ligeiramente lívida. “Podia-nos ter explodido a casa! Ou ter morrido intoxicado!”
Oh, bem… dramas. Um cão tenta ser voluntarioso e acaba nisto. Como bon vivant, ainda me vomitei todo no dia seguinte. Mas é o preço de viver la vida loca!

Foi assim que eles acabaram com a minha festa. Nunca mais fiz nenhuma do género, porque desde então eles aprenderam a fechar o gás. E é assim que segundo Pavlov, se condicionam os humanos parvos.

FIM

por: Dom BaltazarA festa do Baltas1

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