Dissidentes natalícios

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Há coisas sagradas com as quais não se brinca. Princípios que alimentam a nossa essência, a nossa identidade, que nos acompanham ao longo da vida, transportando em si um pouco da magia de que somos feitos. Ah, mas não… Não pode ser! Porque há sempre alguém armado em moderninho que tem que dar azo à sua criatividade e ego “artístico” gigantesco e puxar-nos o tapete debaixo dos pés e abalar o nosso mundo e sonhos de menina, com inovações que não lembram a ninguém! Então mas qual é o mal da tradicional trilogia verde-vermelho-dourado nos centros comerciais, nesta altura do ano, hã? Qual é o problema do vermelhão-pai-natal? Do dourado-estelar? Do verde-elfo? Do branco glaciar, fazendo lembrar a neve fofa que vive nas nossas fantasias natalícias, mesmo que lá fora estejam 20 graus? Dos adornos em pauzinhos e madeira que parecem ter saído directamente da oficina do Pai Natal, e dos ramos de pinheiro sintético ou azevinho made in China? Qual é o mal das decorações que nos fazem lembrar precisamente aquilo que representam: O Natal! Eu percebo que há quem goste de árvores cor-de-rosa, borboletas psicadélicas e com brilhantinas, plumas roxas sobre a lareira… Por mim até podem vestir tutus lilases aos vossos pinheiros, adorná-los com ananases e chamá-los de Marissol. Mas nada me preparou – a mim, que bato palmas no primeiro dia em que se acendem as luzes de Natal na Praça da República, como se de um importantíssimo evento se tratasse – para chegar ao centro comercial, com os meus filhos pela mão, todos expectantes com as decorações deste ano, e deparar-me com uns frios e snobes pendentes prateados e umas tenebrosas bolas pretas – sim, PRETAS, como a noite, mas não a de Natal certamente – penduradas nos tectos e nos pinheirinhos à porta das lojas a fazer-me sentir que estava a percorrer a Estrela da Morte decorada pelo Darth Vader para a festa de Natal dos Stormtroopers. Então mas que ***** é esta? Anda uma pessoa o ano todo a levar com a guerra na Síria, com o Estado Islâmico, com atentados terroristas, com a morte do Bowie, do Prince, do Cohen e do Nicolau, com o Brexit, com o Trump, com a Clinton, com o Pedro Dias, com os filhos do embaixador e barracas na Caixa Geral de Depósitos, e depois ainda tem que levar com bolas de Natal pretas de chofre, quando vai às compras? Mas porquê?!!! Porque não deixam o Natal acolhedor e pindérico, como se quer? Que mal vos fez o vermelho Lapónia, senhores decoradores? Onde estão os sininhos e os laços de veludo e as bolas brilhantes a fazer lembrar o nariz da rena Rudolfo? Enfeites de Natal góticos podem até estar na vanguarda das decorações natalícias, adornar as montras mais chiques das capitais europeias e ser um grito de modernidade e rebeldia, mas não será o meu de certeza! Parecem azeitonas penduradas no tecto! Ou bolas de cristal sinistras e malignas. Ou bombas! E todos nós andamos fartos de bombas! Já agora, aproveitem a onda de arrojo e substituam o “Jingle Bells” do Sinatra pelos Iron Maiden. Vá, oh moderninhos…
Dissidentes natalícios.
Traidores da quadra.
E ainda nem espreitámos a casinha do Pai Natal… Estou com medo que ele esteja vestido de Dementor. Não ia aguentar.

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