Destino: a felicidade (parte 1)

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Primeiro pensamos no Algarve. Depois a velha paixão pelo litoral alentejano sobrepôs-se aos planos iniciais. Depois percebemos que, como sempre, tínhamos deixado tudo para a última, e que a dois dias de arrancarmos ainda não sabíamos qual o destino.
“Mas nós vamos de férias, não vamos?” – perguntava-nos ele, com os seus olhinhos brilhantes de expectativa e entusiasmo, à espera que não o desiludíssemos, até porque a mãe e o pai arranjam sempre umas coisas giras para fazermos.
Nós olhamos um para o outro, com a dúvida estampada no rosto, e logo a seguir respondemos em sintonia “Sim! Claro que vamos!”. Sim. Claro que íamos. Mas para onde? Tínhamos andado a empatar os primeiros dias de férias com mil uma coisas, e nenhuma delas fora planear uns dias fora. Com os miúdos a fazerem praia com a escola, aproveitamos para tratar de burocracias chatas pendentes, para redecorar o hall de entrada, para revisitarmos a nossa praia deserta favorita e irmos matando saudades um do outro – de uma forma que só se mata nas férias e não na sofreguidão da implacável rotina. Fizemos tudo, menos marcar as “férias”. E agora vocês questionam “Mas as férias não costumam ser marcadas com dois e três meses de antecedência?”. Não! Claro que não! Pelo menos, não por aqui…
Resultado: agora, não só não havia oferta para os dias que queríamos, como sobravam os locais mais caros que pediam (selvaticamente) os preços mais obscenos/absurdos possíveis.
Este ano tínhamos decidido que nada nem ninguém, nem o relvado e piscina mais maravilhosos do mundo e o mais apelativo dos pequenos-almoços, nos faria exceder o orçamento estabelecido, mas tudo parecia conspirar contra as nossas intenções. Bastava acrescentarmos duas crianças para que os preços subissem em flecha, deixando-me perplexa com toda a especulação em torno desse negócio que são as férias em família.

– Mas porque é que ainda tenho que pagar um balúrdio por dia por mais duas camas para os miúdos? Nem sequer as pedi! – indagava-me eu, claramente “verde” nestas políticas de alojamento.
– Porque é assim que as coisas funcionam! Tens de pagar pelas crianças, também.
– Pensava que tinha apenas que pagar a casa. Além disso, eles são pequeninos, ocupam pouco espaço, e que eu saiba ninguém vai cuidar deles por mim.
– Mas em que mundo é que tu vives? Achas que alguém quer saber disso nesta altura do ano? Pequeninos ou não, são gente. Usam a piscina, dão mergulhos, fazem barulho, respiram e comem.
– E pagar pelo pequeno-almoço? Os putos comem estrelitas. Estrelitas! Ou quanto muito, salsichas. Não vou pagar o equivalente a um bitoque no restaurante da esquina, por uma tigela dos cereais mais estaladiços do universo ou meia dúzia de salsichas. Mas está tudo doido?!
Ele olhou-me por cima do computador, com aquele ar de “achas mesmo que isso é argumento que se apresente?”
– Bem-vinda à realidade da época alta, em que todos pagam até o oxigénio que respiram em troca de memórias felizes para a vida. – ironizou ele, de olhos postos no booking. – Mas sempre tens aqui a casa da Dona Cleotilde, com um naperon em cima da televisão e quadros de gatinho bordados na parede e almofadas tigresas no sofá. Para dar um tom de modernidade, ainda pintou um quarto inteiro de laranja elétrico e tem um crucifixo por cima da cama. Acho que até deve brilhar à noite. Fica muito em conta, por dia!
Diante do seu ar de gozo, já não me apeteceu retorquir. Ele ainda chegou a encolher os ombros e a sugerir que esquecêssemos o orçamento, com um “que se lixe”, mas eu estava determinada a não ceder a esta escravidão da época alta em que tudo vale e tudo se paga em troca de algum descanso e criação de memórias felizes. Bem sei que o conforto se paga. E já houve alturas em que não prescindi dele. Mas também sei que as memórias felizes não se adquirem com cartão de crédito nem subsídio de férias. E não, isto não é demagogia hippie. O dinheiro ajuda muito à felicidade e esse facto é irrefutável, mas se fizer uma competição de memórias especiais, posso garantir-vos que as mais felizes e divertidas provêm quase todas de momentos despretensiosos e de improviso puro. Chegar a um Hotel de cinco estrelas e usufruir do luxo à minha volta é algo que se guarda para sempre no baú das recordações agradáveis, mas por algum motivo que não sei explicar, não são essas que me arrancam o sorriso mais rasgado e saudosista. São aquelas em que tudo era uma aventura, um desafio, e diversão pura, e íamos com o dinheiro contado porque ainda éramos estudantes e turistas pé de chinelo. Como daquela vez em que o multibanco nos engoliu o cartão, ficámos sem ter como pagar o parque de campismo e a única refeição que pudemos confeccionar foi esparguete com natas que nos soube pela vida, naquele pinhal frio e húmido da Nazaré, com o nevoeiro a entranhar-se na roupa. Ou daquela vez, no Gerês, em que caiu uma chuva de granizo que quase nos furava a tenda e passamos a tarde a conversar e a rir e a fazer tudo o que nos era propício fazer, enquanto ouvíamos o temporal lá fora, com a certeza que não havia lugar mais confortável que aquele colchão de campismo, dentro daquela tenda minúscula, onde éramos reis e senhores. Ou aqueles fins de tarde mágicos na costa vicentina, em que insistíamos em ser os últimos a abandonar a praia, até vermos a lua surgir no céu. E tudo, quase a custo zero.
É curioso como há medida que amadureces, julgas precisar de outras coisas. Tens de fazer um upgrade nas tuas férias e nos ambientes que frequentas, queres experimentar novas realidades e já não tens pachorra para certos constrangimentos. Mas é com toda a sinceridade que reafirmo que estas últimas memórias são das que me fazem mais feliz e causam mais saudade, e é por acumular memórias dessas e guardá-las num lugar precioso da minha alma, que não me dou por vencida quando me pedem os dedos e os anéis, ou o couro e o cabelo por uns dias em família no tão desejado litoral.

Já não ficamos sem cartão multibanco para pagar a estadia, nem precisamos mais pedir aos nossos pais que nos mandem dinheiro pelo correio para podermos regressar a casa. Crescemos um pouco, desde essa altura… Também não iremos com a tenda às costas (apesar de estarmos a planear uma dessas para breve), e também não vamos sujeitar os miúdos ao nevoeiro nem ao granizo (embora eu aposte que eles haviam de adorar). Estes pais desorganizados e incapazes de organizar umas férias com pensão completa com meses de antecedência, hão-de encontrar um destino apetecível, sim, e havemos de lhes criar memórias que valem a pena armazenar e recordar com um sorriso rasgado sempre que eles quiserem recorrer a elas para se sentirem felizes. Não se vai para o litoral, vai-se para o interior. Não se vai para sul, vai-se para norte. Não se vai para a praia, vai-se para a montanha. E foi assim que num feliz momento de espontaneidade, encontrámos um lugar que se prometia encantador, e marcámos passagem para dias de felicidade…
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2 Comments

    • Nada grave, minha querida. Junte-se ao club dos que fazem planos “em cima do joelho”.É uma aventura constante e muito mais divertido assim! :)
      Obrigada. Beijinho

      Reply

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