Desconfiança

desconfiança

– Já te chamei para o banho três vezes! – digo eu, à porta da sala, onde ele se recusa a largar a consola e desviar os olhos da televisão.
– Sim, sim. Vou já.
– Basta pores na pausa.
Então, lá acede e pousa o comando, não sem antes olhar discretamente para trás, para a mesa onde a irmã está a fazer desenhos. Com uma indecisão e desconfiança patentes, volta a segurar no comando e entrega-mo, como se estivesse a oferecer-me o seu tesouro mais precioso.
– Por acaso, não podes ficar a tomar conta disto por mim? – pergunta num sussurro. – É que sabes, eu sei que assim que virar as costas a mana vai começar a jogar.
– E qual é o problema?
– Ela estraga-me o jogo todo! E eu tive muito trabalho para passar de nível. E ela perde sempre no “boss”. – afirma, preocupado.
Eu olho para ela – quieta e calada no seu mundinho, a desenhar uma princesa estrábica com pestanas de meio metro e uns cabelos à Wanda Stuart, no fundo da sala.
– Ela não vai estragar jogo nenhum porque está a desenhar. Nem sequer vai sair dali tão cedo. – asseguro-lhe com um piscar de olho.
Então ele olha para mim como se eu fosse a criatura mais crente e ingénua à face da terra, e diz:
– Oh mãe, ela vai sair dali assim que eu for para a banheira. Eu sei! Tens de acreditar em mim porque eu conheço-a desde pequenina!

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