Cheiro de “casa em obras”

Cheiro de casa em obras

– É aquela. – disse enquanto atravessava a estrada empedrada, e segui-a, sem sequer verificar se havia risco de ser atropelada. Estava demasiado distraída a olhar para cima, observando a fachada centenária, as janelas brancas e o varandim em ferro torneado pintado a verde, tal como a porta da entrada que se encontrava aberta.
Ela subiu os íngremes degraus de madeira cobertos de pó das obras, e subi atrás dela, tentando não alimentar qualquer expectativa, mas não conseguindo reprimir aquele entusiasmo pululante que sentia no estômago.
– Bom dia! Pode-se entrar? – gritou para que os pedreiros a ouvissem, mas não obtendo qualquer resposta.
Pé ante pé, fomos pisando o papelão e os enormes plásticos que forravam o soalho e por onde se avistavam trinchas e latas de tinta branca, bem como quatro garrafas de minis, já vazias, arrumadinhas a um canto.
Assim que deixei de me preocupar onde pisava, ergui o olhos ao ambiente que me rodeava e fui automaticamente atingida pela magia daquele lugar, todo ele inundado pelo sol que entrava pelas quatro janelas da sala. Sim, quatro! Na casa onde eu morava, na periferia onde os prédios eram todos iguais, havia uma única janela na sala – um rectângulo que dava para a varanda. Mas naquela, havia quatro imponentes janelas envidraçadas em caixilharia branca, com portadas em madeira na mesma cor, que além de iluminarem todo o espaço, permitiam uma vista privilegiada de toda a rua.
Cheiro de casa em obras1No ar, o cheiro a pinho, tinta e verniz não me fez franzir o nariz de incómodo ou enjoo. Adorava aquele cheiro a “casa em obras”. Transmitia-me a empolgante sensação de recomeço, de vida nova, e a promessa de que o melhor estava ainda por vir. E foi realizando todo o potencial daquele lugar que fiquei parada em cima do papelão, hipnotizada com a luz, as janelas e os tectos altos, imaginando como a decoraria se fosse minha, e conjecturando como seria e a quem pertencera, antigamente. Até que fui encaminhada para um curto corredor com duas portas – uma da casa de banho e outra de um pequeno quarto – e a cozinha, ao fundo, com duas janelas tão altas quanto as da sala, sendo que uma delas dava acesso a um terracinho no telhado onde facilmente imaginei uma fileira de vasos terracota com flores e ervas aromáticas, bem como uma mesa e duas cadeiras para beber o primeiro café da manhã ou fazer uma patuscada ao cair da noite.
Pensava eu que já tinha visto tudo, quando ela me acenou com a cabeça para que a seguisse de volta até à sala, onde virou então para uma entrada que me passara despercebida. Ao virar atrás dela, deparei-me novamente com umas escadas, semelhantes às da entrada, mas que nos levavam ao sótão.
– Senhor Elias, vou subir! – gritou para o andar de cima, de onde se ouviu uma voz enrouquecida responder algo que não percebi.
As partículas de pó que pairavam reluzentes no ar, conferiam à escadaria uma aura ainda mais mística do que a que encontrara na sala, e degrau a degrau, fui subindo atraída pela luz no cimo, curiosa com o que iria encontrar, ouvindo-a reclamar da maldita poeira que lhe havia de provocar uma crise de alergia terrível.
Alcançado o topo, fui encandeada pelo sol que entrava por uma janelinha ao fundo, e quando os meus olhos se habituaram à claridade, encontrei a acolhedora divisão de tecto inclinado e chão em madeira, transformada numa pequena suite.
Ao ver-nos, o pedreiro resmungou um bom dia com o cigarro na boca e continuou a isolar uma parte do telhado que ainda se encontrava despida.Cheiro de casa em obras2
Da janela, além do céu azul, viam-se as torres da Igreja, onde o toque do sino – agradavelmente próximo – me alertou que começava a ficar atrasada para o trabalho.
Imaginei-me a acordar ali todas as manhãs. Imaginei o quão seria agradável abrir aquelas portadas para deixar o sol entrar e ouvir o sino ralhar-me para me despachar. Imaginei-me a assistir de sofá à azáfama lá fora aos Sábados de manhã, e que em vez do lote A, lote B e lote C, teria como vizinhança a papelaria, a sapataria, a florista e ainda o amola tesouras que com frequência passava por ali com o seu inconfundível apito. Imaginei-me a subir, ofegante e por várias vezes, as íngremes escadas com sacos do supermercado nas mãos, mas também imaginei as maravilhas que aquilo me faria aos glúteos. Então, no telhado da casa centenária que me enfeitiçara como nenhuma outra, peguei no telemóvel e liguei para ele.
Olá!
– Olá.
O que contas?
– Estás sentado?
Sim… No carro. Acabei o estágio e vou para casa. Não aguento nem mais uma semana nesta cidade. – desabafou.
– Óptimo. Vem com cuidado. Preciso de ti consciente para assinares uma coisa. – zombei, apesar de sentir o estômago às voltas.
O quê?!
– Um contrato de arrendamento… Acabei de encontrar a nossa casa.
Primeiro o silêncio. Depois ouvi-o rir-se do outro lado. Não sabia se de expectativa, se de alegria ou se de medo, mas fosse do que fosse, a gargalhada dele deu-me a mesma sensação que me dera o cheiro a pinho, tinta e verniz de “casa em obras”. A de que o melhor, estava mesmo por vir.

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